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Livius Barreto

por Livius Barreto

O PLANO DRAGÃO

Pequim tenta transformar o que pretendia ser um bloco ocidental contra a China em um bloco de sobrevivência global contra o arbítrio de Washington.

11/01/2026 às 16h50

A disputa pela hegemonia global com a China é um dos raros pontos de convergência entre Democratas e Republicanos, nos EUA. Contudo, enquanto os Democratas tradicionalmente defendem que a liderança americana deve se basear em valores universais, como democracia e direitos humanos, e no respeito ao Direito Internacional, Trump classifica essa visão como uma "indulgência tola". Em sua entrevista ao The New York Times, em 08/01/2026, Trump explicitou seu desprezo pelo Direito Internacional e pela ordem mundial ao declarar que o seu poder como comandante-em-chefe dos EUA é limitado apenas por sua "própria moralidade", pela sua "própria mente".

A postura de Trump baseia-se na premissa de que o poderio militar e a atratividade do imenso mercado consumidor norte-americano são ferramentas suficientes para submeter o mundo à vontade de Washington. A captura cirúrgica de Nicolás Maduro, na Venezuela, extraordinariamente bem sucedida, serviu como uma mostra do uso do poder militar, com base no qual Trump acredita que pode controlar nações como a Venezuela, a Colômbia e Cuba e anexar territórios, como pretende fazer com a Groenlândia e ameaça fazer com o Canadá, tornando-o o 51º Estado dos EUA, simplesmente porque a anexação de países dá acesso a recursos que os tratados internacionais não conseguem prover.

A postura confrontacional do presidente norte-americano em face de todo o mundo, simultaneamente, inclusive dos aliados mais tradicionais dos EUA, tem afastado os aliados, inviabilizando a formação de um bloco ocidental coeso contra o autoritarismo chinês, na luta pela hegemonia global. Recentemente, o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, criticou os EUA por enfraquecerem a ordem mundial e violarem valores internacionais, dizendo que "a questão hoje é evitar que o mundo se transforme em um covil de ladrões, onde os mais inescrupulosos pegam o que querem", numa crítica às pretensões expansionistas das grandes potências: China, Rússia e EUA.

Para a Alemanha e a França, Trump não é mais um aliado difícil, mas sim um risco existencial. A decisão da UE de manter neutralidade na guerra comercial é, na prática, uma adesão à órbita chinesa, que garante o fornecimento de terras raras para a indústria automobilística alemã, algo que o embargo americano inviabilizou. Países como Brasil, Índia e África do Sul estão migrando para o sistema de pagamentos chinês, mBridge (uma plataforma que visa permitir pagamentos transfronteiriços mais rápidos, baratos e transparentes, liquidando transações diretamente entre bancos centrais e comerciais participantes, sem a necessidade de passar pelo sistema SWIFT), o que nem sempre se dá por afinidade ideológica, mas para proteger suas reservas do risco de sanções arbitrárias e da potencial volatilidade do dólar. O México e a Colômbia, por seu turno, tratados por Trump como adversários, foram forçados a buscar na China o respaldo econômico e militar para resistir à pressão americana, criando um bloco de resistência aos EUA no próprio continente americano.

A incerteza provocada pela ameaça militar e pelo desprezo aos acordos internacionais e à ordem mundial pelos EUA incute nos aliados, que sempre se sentiram protegidos por abrigarem bases militares norte-americanas, como a Alemanha, o Japão e a Groelândia, o sentimento de que tais bases militares representam, agora, uma ocupação dos territórios dos países que as acolheram, por um adversário ou potencial inimigo. Historicamente, as bases avançadas dos EUA são regidas por acordos internacionais que garantiam que as tropas americanas respeitassem a soberania local, ao tempo em que fornecem defesa coletiva, mas, se Trump declara que não respeita o Direito Internacional e que ele próprio é o único árbitro de sua autoridade, os acordos que limitam o que as tropas americanas podem fazer em solo estrangeiro perdem o efeito prático. Incapazes de exigir a retiradas das bases norte-americanas de seus territórios, as nações que as albergam se enquadram no conceito da ciência política clássica segundo o qual uma ocupação ocorre quando um Estado exerce autoridade sobre o território de outro, sem o seu consentimento soberano real deste.

Diante de tal comportamento dos EUA, a estratégia da China, no âmbito de luta hegemônica entre as duas potências, reside em oferecer ao resto do mundo o que Trump nega: previsibilidade. Em 2026, o conflito entre EUA e China deixou de ser uma competição comercial para se tornar um confronto existencial. Pequim percebeu que a atual administração americana nunca aceitará uma China próspera como parceira e, portanto, parou de tentar salvar a relação com os EUA e passou a adotar medidas que buscam a capitulação econômica de Washington, como parte do projeto denominado "Plano Dragão". A estratégia chinesa para paralisar os EUA fundamenta-se em cinco eixos de ataque assimétricos:

a) a suspensão total da exportação de 17 minerais essenciais para a defesa e para a indústria de alta tecnologia americana e a oferta de acesso prioritário a terras raras para Europa, Japão e Coreia do Sul, sob a condição de reduzirem o comércio com os EUA em 30%;

b) a proibição de compra de soja, milho e carne americana, atingindo diretamente a base eleitoral de Trump no Meio-Oeste;

c) a venda massiva imediata de títulos de Tesouro norte-americano constante das reservas chinesas da ordem de 1,1 trilhão de dólares, causando um choque nos juros e no valor do dólar;

d) o lançamento de uma moeda lastreada em ouro (40%) e moedas nacionais (60%), a UNIT, operando via sistema BrickPay, que oferece ao mundo uma rota de fuga definitiva do sistema SWIFT e das sanções financeiras norte-americanas. O JP Morgan descreveu a UNIT como a proposta de desdolarização mais desenvolvida e tecnicamente estruturada para transações transfronteiriças até o momento; e

e) a liberação de patentes de semicondutores, biotecnologia, energias renováveis e inteligência artificial para qualquer país que concorde em reduzir sua dependência econômica dos EUA, isolando tecnologicamente a indústria americana.

A adoção de patentes chinesas e do mBridge importa, para os demais países, na troca da dependência de Washington por uma dependência de Pequim, o que sempre foi objeto de preocupação devido ao regime autoritário que governa a China, que não se submete ao Estado de Direito, mas, dadas as arbitrariedades da nova Administração norte-americana, a China passa a ser vista como um ambiente mais seguro que os EUA e a mudança deixa de ser uma escolha para representar uma medida necessária.

Pequim tenta transformar o que pretendia ser um bloco ocidental contra a China em um bloco de sobrevivência global contra o arbítrio de Washington. Trump tentou liderar o Ocidente através do medo, mas acabou por unir o mundo através da necessidade de proteção contra os EUA. A China, aproveitando-se do vácuo de liderança moral e da volatilidade americana, posiciona-se agora não como uma alternativa ideológica, mas como o novo "fiador da estabilidade" em um mundo multipolar.