A ascensão da China como potência global no século XXI não é um triunfo do marxismo ortodoxo, mas sim o resultado de uma intervenção estrutural profunda destinada a extirpar partes da ideologia comunista que não funcionavam na prática e enxertar mecanismos de mercado para salvar o Estado chinês da falência.
A partir de 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping, a China abandonou o planejamento central absoluto do período Maoísta, que gerava escassez e ineficiência, eliminando a crença de que o Estado precisava controlar cada detalhe da produção e do consumo e admitindo que o mercado é um instrumento superior para coordenar a economia. O pragmatismo de Deng Xiaoping priorizou o resultados sobre o dogma comunista, introduzindo a propriedade privada, zonas econômicas especiais, investimentos estrangeiros e sistema de preços. Dizia Deng Xiaoping, "Não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace os ratos". Se o capitalismo produz riqueza mais rápido que o socialismo, o Estado deve adotar o capitalismo para se fortalecer.
Assim, a China passou a reconhecer valores defendidos pela Escola Austríaca - a mais pura, rigorosa e intransigente defensora do liberalismo econômico e político – valores estes que se contrapõem diretamente às ideias socializantes que dominaram o final do século XIX e quase todo o século XX.
O Partido Comunista Chinês (PCC) adotou ideias como as de Ludwig von Mises, que em sua obra sobre o cálculo econômico argumenta que, sem propriedade privada não existem preços reais, sem os quais é impossível comparar a eficiência de diferentes processos produtivos e realizar alocações mais eficientes; as de Friedrich Hayek, que demonstrou que apenas os preços livres permitem a autorregulação do sistema de oferta e demanda; as de Carl Menger, que desmontou a teoria do valor-trabalho de Marx, demonstrando que o valor de um bem não está relacionado com o esforço depositado pelo trabalhador para produzi-lo, mas com a utilidade percebida por quem o consome; as de Eugen von Böhm-Bawerk, que refuta a ideia de que o lucro seja uma exploração injusta, vendo o lucro como uma troca intertemporal, em que o trabalhador recebe seu salário imediatamente, independentemente do sucesso do produto, enquanto o empresário é o tomador de risco, sendo a diferença entre salário e lucro o reflexo do preço do tempo e do risco assumido.
O modelo chinês não é uma mistura equilibrada entre comunismo e liberalismo no sentido de uma democracia social europeia; é um mecanismo de alta performance onde as ferramentas do liberalismo econômico foram colocadas para funcionar sobre um arcabouço político totalitário. Para cada pilar do liberalismo clássico, a China de Deng Xiaoping e seus sucessores colocou um substituto funcional que mantém a ordem, mas altera o objetivo final. Em lugar da Supremacia do Indivíduo, a Supremacia do Partido: no liberalismo clássico, o indivíduo é o fim em si mesmo; na China, o indivíduo é um meio para o fortalecimento da nação. Assim, na China, os direitos individuais (liberdade de expressão, reunião ou propriedade absoluta) são contingentes. Eles existem enquanto ajudarem o desenvolvimento econômico e não desafiarem a liderança do Partido Comunista Chinês (PCC).
Em lugar da Submissão do Estado à Lei, o "Governo Pela Lei" (Rule by Law). O liberalismo exalta o Rule of Law, em que o Estado é súdito da lei. Na China, opera-se o Rule by Law, em que a Lei funciona como instrumento de gestão, como uma ferramenta do Partido para governar o povo, e não um escudo do povo contra o Partido, o qual se coloca, constitucionalmente, acima do Estado e da lei, atuando como o órgão que define as regras conforme as necessidades do momento.
Em lugar do Estado Mínimo, a China erigiu o Estado Desenvolvimentista, onipresente e estratégico, em que o governo dirige o crédito através de bancos estatais, protege indústrias nascentes e planeja o desenvolvimento tecnológico para as próximas décadas, como se viu no plano Made in China 2025, numa lógica que, em vez de esperar que o mercado descubra o caminho de forma espontânea, o Estado chinês induz o mercado a seguir na direção que o Partido considera vital para a soberania nacional.
O que a China criou foi um sistema que utiliza a força motriz austríaca (preços, concorrência, incentivo ao lucro) sem o aparato liberal (liberdade política, direitos individuais, limites ao poder). É um modelo puramente tecnocrático: ele busca a eficiência máxima da máquina econômica para sustentar a legitimidade de um governo que não é eleito, o qual se mantém pelo desempenho, no que se convencionou chamar "Contrato Social de Desempenho".
No entanto, o modelo híbrido chinês, frequentemente chamado de Capitalismo de Estado, demonstra pontos de saturação, onde as ferramentas do mercado — que exigem previsibilidade e liberdade de sinalização — colidem frontalmente com a necessidade de controle absoluto do Partido Comunista, criando distorções. O colapso do setor imobiliário e o cerceamento das gigantes de tecnologia (crackdown) são os exemplos mais emblemáticos de como o arcabouço político totalitário da China sabota as ferramentas liberais que o próprio Estado implantou.
O setor imobiliário chegou a representar cerca de 25% a 30% do PIB chinês, mas a necessidade dos governos locais de bater metas de PIB e a dependência Fiscal dos mesmos em relação às receitas advindas das vendas de concessões de uso de terra para incorporadoras criou uma alocação errônea de capital incentivada pelo Estado, onde a expansão imobiliária não era determinado pela demanda real, mas pela necessidade de atender à política pública, dando ensejo ao que a Escola Austríaca chama de PIB sem valor de uso e gerando uma bolha que, ao estourar, destruiu cerca de US$ 18 trilhões em riqueza das famílias chinesas, segundo relatórios econômicos do início de 2025 e projeções para 2026 sobre o crash imobiliário chinês.
No setor tecnológico, o surgimento de gigantes como Alibaba, Tencent e Ant Group foram vistas como uma ameaça existencial para o PCC, após as críticas públicas de Jack Ma (fundador do Alibaba), que pediam por reformas liberalizantes, em outubro de 2020. Como reação, o PCC determinou a suspensão do IPO da Ant Group, que seria a maior oferta de ações da história; aplicou bilhões em multas contra as Big Tech, forçando-as a cederem partes de seus algoritmos e dados ao Estado, e baniu subitamente empresas do setor educacional ligado a tecnologia, as EdTech (abreviação de Education Technology), empresas que utilizam a tecnologia para facilitar a aprendizagem, melhorar o desempenho dos alunos e gerenciar sistemas educacionais de forma mais eficiente, um setor de 100 bilhões de dólares, que teve destruindo o seu valor de mercado da noite para o dia, determinando o fechamento de inúmeros postos de trabalho tipicamente ocupados por jovens, os quais enfrentam uma taxa de desemprego superior a 20%.
Apesar da eficiência econômica estar na base de sustentação do modelo híbrido chinês, a obsessão do Partido pelo controle social precede tal eficiência, colocando em risco de ruptura o Contrato Social de Desempenho que garantiu a estabilidade do Regime por décadas. Diante do dilema entre prosperidade e controle, a liderança chinesa parece ter escolhido o segundo, tornando o crescimento econômico refém da segurança ideológica.