O baixo custo da mão de obra transformou a China na fábrica do mundo, mas a exploração exacerbada dos jovens trabalhadores tem comprometido a produtividade no país. Em agosto de 2023 a China deixou de publicar as cifras do desemprego entre jovens, sob o pretexto de que estaria trabalhando para melhorar a metodologia, mas na verdade a interrupção busca ocultar uma tendência. Em junho/2023, a taxa atingiu 21,3%, enquanto a média nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) um fórum internacional composto por 38 países, varia entre 13 e 17%. Com a mudança da metodologia, os indicadores oficiais da China passaram a apontar uma taxa de desemprego de 14,5% entre os jovens, afastando-se da realidade econômica do país, em que as estatísticas não oficiais estimam uma taxa próxima de 50%, atualmente.
Mesmo com a diminuição da pressão demográfica, devido à baixa taxa de natalidade, à emigração e ao envelhecimento da população, a oferta de emprego seguro e prestigioso para jovens na China é cada vez menor, por causa da desaceleração do crescimento econômico e das pressões comerciais dos EUA.
A rigidez do mercado de trabalho, onde o recrutamento e a promoção são geralmente associados à maturidade, intensifica a concorrência por emprego entre os jovens diplomados, aos quais se somam 11 milhões a cada ano. A fragilidade do sistema de proteção social, cuja rede de seguridade social é extremamente fraca em toda a Região, mas especialmente na China, alimenta a desmotivação dos jovens para ingressar e se manter no mercado de trabalho. São milhões de jovens bem formados desmotivados e sem perspectiva diante da falta de oportunidade no mercado de trabalho, agravado pela desaceleração da economia, em parte devido aos desastrosos confinamentos no país, ligados à Covid-19.
Os jovens chineses, bem formados, voltam a viver na casa dos pais, como faziam na infância, num completo abandono de suas ambições pessoais, incrédulos das promessas e dos métodos do seu governo autoritário. O Estado chinês, que percebe o movimento como uma ameaça à coesão social e à dinâmica econômica, não sabe como reagir, pois não há gritos ou manifestantes, nem pessoas a quem prender ou em quem atirar. Tudo o que o governo pode fazer é censurar as redes sociais, sem lograr por fim ao sentimento de desânimo manifestado nelas.
A última vez em que a juventude chinesa se levantou contra o Estado foi em 1989, na Praça da Paz Celestial, onde tudo acabou num banho de sangue, de forma que, mesmo diante do descontentamento generalizado, os jovens não se mostram propensos às manifestações de rua, mas se pronunciam pacificamente nas redes sociais, sob a forma de um desespero silencioso, num movimento conhecido por “Fique Deitado”, em que os jovens se questionam pelo que deveriam se esforçar, se toda a perspectiva de conquista econômica e de progresso profissional já está perdida. Então, eles simplesmente renunciam ao papel de ator da prosperidade e se retiram da economia, deixando de participar de qualquer atividade produtiva e abdicando do consumo, se limitando a sobreviver, dormir e comer. São a figura do desânimo.
Para entender tal fenômeno é necessário examinar suas origens: o primeiro responsável é o sistema 9-9-6, ou seja: trabalho de 9h da manhã, até às 9h da noite, seis dias por semana, num regime de trabalho de 72h semanais, enquanto a média global é de 40h e no Brasil se observa o regime de 48h semanais, tudo isso sem que haja na China seguridade social e proteção ao emprego e por um salário miserável, sem falar em condições de trabalho normalmente muito desconfortáveis.
O segundo culpado é a política brutal do Partido Comunista. 2020 marcou o início de uma repressão estatal às grandes empresas de tecnologia chinesas, vistas pelo Estado como de progresso rápido e difíceis de controlar. A submissão das gigantes da tecnologia ao controle estatal representou um enorme prejuízo à economia do país e resultou em demissões em massa, com o fechamento de inúmeros postos de trabalho.
Em 2021, sem qualquer aviso prévio, Pequim aniquilou a indústria das escolas particulares, declarando o ensino privado caótico e pervertido pelo capital, por não se alinhar com ideologia do Partido. Suprimiu-se assim um seguimento da economia que gerava milhares de empregos e representava 200 milhões de dólares por ano.
Por fim, houve o estouro da bolha do mercado imobiliário Chinês, ao qual o governo recusou o socorro estatal. A crise imobiliária na China teve um impacto significativo no mercado de trabalho, dada a importância do setor da construção civil e das indústrias relacionadas ao mesmo na geração de empregos.
Sem oportunidades na China, esses jovens bem formados procuram colocações no exterior, dando lugar a uma fuga massiva de talentos em direção ao Sudeste Asiático, à União Europeia e aos EUA, além do Canadá, do Reino Unido e da Austrália. Muitos jovens preferem o subemprego no exterior às condições desumanas do mercado de trabalho chinês. Em 2023 a China observou a sua mais expressiva perda líquida de população por migração em mais de 20 anos. As cifras oficiais denunciam que mais de 300 mil chineses deixaram o país, mas os números extraoficiais são bem mais expressivos.
Tal êxodo de jovens agrava o quadro demográfico da China. Em 2023 a população chinesa diminuiu, devido a uma baixa taxa de fertilidade, à emigração e ao envelhecimento e aumento da mortalidade. Até 2035 o país terá mais de 400 milhões de pessoas com mais de 60 anos, ¼ da população. O governo tenta incentivar o aumento da taxa de natalidade, mas as condições de trabalho desfavoráveis e o peso de sustentar os país e avós limitam a capacidade das famílias de aumentar a sua prole.
Este quadro é agravado pela desequilíbrio de gêneros. Devido aos abortos seletivos ao tempo do controle de natalidade exercido pelo Estado (a política do filho único), a população chinesa conta com 35 milhões de homens a mais que mulheres. São milhões de homens que não têm qualquer chance de conquistar uma consorte.
A solução para tal quadro de dificuldades na China passa por reformas estruturais capazes de melhorar o ambiente no mercado de trabalho, reformas essas consideradas politicamente arriscadas pelo Partido Comunista, como uma maior liberalização na economia; a implantação do império da lei em lugar do autoritarismo; a garantia das liberdades individuais; o encorajamento da inovação em lugar do exercício da repressão; e a redução do controle estatal desmesurado, tudo o que representa o inverso da política do líder supremo do país, Xi Jinping.