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Livius Barreto

por Livius Barreto

UM PLANO ESTÚPIDO

Vencer a guerra, derrubando o regime por meio de proxies, pode significar perder o controle sobre o átomo e comprometer a segurança energética global.

08/03/2026 às 20h11

Uma reportagem da CNN do início de março, sobre o plano de armamento de milícias curdas iranianas para deflagração de insurreição armada e mudança de Regime no Irã, assinada por cinco correspondentes, inclusive Clarissa Ward, Correspondente Internacional Chefe da CNN, revela conversas diretas entre o Presidente Donald Trump e Mustafa Hijri, líder do Partido Democrático do Curdistão Iraniano (KDPI). Segundo a investigação, a CIA teria iniciado o fornecimento de armas leves e suporte logístico para a milícia curda meses antes do início das hostilidades abertas contra o Irã, visando criar uma força de choque no Noroeste iraniano.

Os Curdos são um povo de origem indo-europeia (etnicamente distintos de árabes, turcos e persas) que habita a região montanhosa do Curdistão, nas divisas de quatro países: Irã, Iraque, Turquia e Síria. Em sua essência, o Curdistão é uma região cultural e geográfica que abrange cerca de 500.000 km2, constituindo-se no que se denomina "nação sem Estado". Os Curdos representam o maior grupo étnico do mundo sem um Estado soberano, servindo como a "peça de sacrifício" recorrente no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. Após a Primeira Guerra Mundial, quando se deu o colapso do Império Otomano, os curdos chegaram mais perto do que nunca de um Estado, através do Tratado de Sèvres, que previa explicitamente a criação de um Estado curdo independente no sudeste da Anatólia, o que acabou nunca se concretizando.

O plano dos EUA é valer-se dos experientes combatentes curdos não como aliados diplomáticos de longo prazo, mas como um instrumento tático, convertendo-os na força encarregada da invasão terrestre do Irã (boots on the ground), em lugar das forças norte-americanas e israelenses. A estratégia norte-americana não é a conquista definitiva pelos Curdos de parte do território iraniano, mas sim provocar o engajamento das forças de segurança iranianas (IRGC) na fronteira Oeste, no combate aos Curdos, drenando recursos militares do Estado iraniano, para permitir que a população civil desarmada de Teerã e Isfahan retome os protestos diante de uma repressão estatal com menor poder de fogo. Todavia, o uso de uma minoria étnica, os Curdos, para derrubar o Regime persa, tende a gerar um efeito nacionalista no Irã, unindo a população urbana em torno do Regime, contra a ameaça externa, em vez de provocar a insurreição interna contra o Regime.

Por seu turno, o objetivo dos Curdos, ao se engajarem no plano, é aproveitar-se da fraqueza do regime iraniano para conquistar uma zona autônoma no atual território iraniano ou, quem sabe, estabelecer ali o sonhado Estado independente do Kurdistão, utilizando-se para tanto das armas e do apoio aéreo momentâneo dos EUA, embora sem garantias políticas norte-americanas de apoio ao novo Estado independente, pois tal apoio dos EUA alienaria a Turquia (membro da OTAN) e o Iraque, aliados norte-americanos que se opõem ao novo Estado por temerem futuras pretensões de expansão de suas fronteiras para o restante da região montanhosa do Curdistão, que, como dito, abrange partes dos territórios de quatro potências regionais (Irã, Iraque, Turquia e Síria), que não aceitarão a alteração de suas fronteiras sem uma guerra total.

O plano dos EUA enfrenta críticas que classificam a ideia como estúpida, por ignorar as informações de inteligência sobre a doutrina de segurança em camadas de Teerã (Irã), assumindo que a atração do Exército Iraniano para as montanhas desguarneceria as cidades. Todavia, o Irã não possui uma força única. Enquanto o Exército e o IRGC lidam com fronteiras, os Basij (milícia urbana) e as forças de choque da polícia são treinados e equipados especificamente para controle social, de forma que o Regime iraniano é perfeitamente capaz de combater uma guerrilha no Oeste e, simultaneamente, manter um estado de sítio violento em Teerã e em Isfahan.

Outrossim, o plano de invasão da porção Oeste do Irã depende de uma base de lançamento segura, no Curdistão Iraquiano, mas o governo central de Bagdá (no Iraque), que, como dito, se opõe ao plano, já mobilizou tropas para a fronteira para impedir que as milícias curdas cruzem para o Irã, criando o paradoxo em que os EUA estariam tentando forçar uma operação militar a partir de um território de um aliado formal (o Iraque), que, no entanto, está agindo defensivamente a favor do inimigo (o Irã), para reduzir o risco de retaliação pelo Irã e para afastar a ameaça à própria fronteira pelo futuro Estado curdo, criando um cenário de "fogo amigo" iminente.

Mais grave ainda é o risco existencial para a OTAN posto pelo plano, pois ao armar grupos como o PJAK, ligado ao PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, os EUA estão armando o maior inimigo da Turquia, a qual é aliada dos EUA no âmbito da OTAN. Como reação, a Turquia já sinalizou que prefere cooperar com o Irã para esmagar os Curdos a permitir um protoestado armado em sua fronteira. O plano coloca os EUA em rota de colisão militar com um aliado da OTAN, destruindo a coesão da aliança em troca de uma vantagem tática duvidosa no Irã.

Se o plano não funcionar, os EUA estariam apenas criando uma nova zona de guerra civil permanente, similar ao cenário sírio, mas com o agravante de envolver o Irã, uma potência nuclear no Limiar de Capacidade (Nuclear Threshold State) de montar a bomba em poucas semanas. O Irã permanecerá como uma potência nuclear no Limiar de Capacidade, mas agora operando em um ambiente de instabilidade total.

Caso o plano funcione e o Irã venha a colapsar, o resultado não será uma democracia liberal, mas, de um lado, a luta por um Estado Curdo, em um conflito com diversas potências Regionais; e, de outro lado, lutas intestinas de outras minorias étnicas iranianas, como os Baluches e Azeris, que aproveitariam o vácuo de poder para buscar autonomia, mergulhando o país num conflito civil de atrito.

Se o regime de Teerã cai de forma caótica, as centrífugas e os estoques de urânio enriquecido entre 60% e 90% cairiam nas mãos de milícias, grupos terroristas ou serão vendidos no mercado negro, gerando os riscos decorrentes da proliferação de material físsil não rastreável. Cientistas nucleares iranianos, sem o suporte financeiro do Estado, tornar-se-ão ativos extremamente valiosos para grupos extremistas e as instalações iranianas como Natanz, Fordow e o reator de Arak se converteriam em complexos industriais de nível militar à disposição de milícias e grupos terroristas. A perda de controle sobre essas áreas não significa apenas instabilidade política, mas risco nuclear.

Ademais, o colapso do Irã geraria uma crise de refugiados massiva e a interrupção do fluxo de energia global, devido aos múltiplos conflitos em torno do estreito de Ormuz, além de prejudicar a produção de petróleo no Irã, que detém a 4ª maior reserva comprovada de petróleo e a 2ª maior reserva de gás natural do planeta. Sem uma força de ocupação massiva, que os EUA não querem enviar para a região, a mesma seria entregue ao caos ou à influência direta da Rússia e da China, que atuariam como as novas fiadoras da ordem local.

A estupidez do plano consiste em tentar resolver o complexo problema de combate ao Regime iraniano através da ferramenta simplista do uso de proxies curdos, ignorando que os danos colaterais são infinitamente mais caros do que a manutenção do status quo. Vencer a guerra, derrubando o regime por meio de proxies, pode significar perder o controle sobre o átomo e comprometer a segurança energética global.