“Mas doutô, uma esmola a um homem são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Assim, com acuidade de sentidos e uma capacidade de síntese extraordinária, Luiz Gonzaga e Zé Dantas (Jose de Sousa Dantas Filho), puseram os complexos temas do assistencialismo e da produtividade em uma canção, Vozes da Seca, lançada em 1953, que se constitui em um dos manifestos políticos mais potentes da história da música brasileira. É fascinante notar como a sabedoria popular do Sertão, expressa por Luiz Gonzaga há mais de 70 anos, converge com a crítica moderna ao Estado de Bem-Estar Social (Welfare State), em que o Estado assume o papel central na promoção e proteção do bem-estar social e econômico de seus cidadãos, em oposição ao "Estado Mínimo", defendido pelo liberalismo clássico.
A música defende a dignidade pelo trabalho, clama por soluções estruturais (açudes, estradas, oportunidade de trabalho) em vez de auxílios emergenciais paliativos. Cantava Gonzaga: "Dê o trabalho a nosso povo, dê assistência ao sertão". Ao sustentar que a esmola "vicia o cidadão", os autores alinham-se ao argumento liberal de que o Estado, ao focar apenas na transferência de renda, sem contrapartida produtiva (em serviço) ou estratégica (em capacitação técnica/profissional), por parte do cidadão, destrói o incentivo individual. Na visão do liberalismo clássico, a liberdade, que lhe é tão cara, não é apenas a ausência de coerção, mas a condição necessária para que o indivíduo exerça sua agência, a capacidade soberana do indivíduo de atuar como o autor principal de sua própria vida, tomando decisões deliberadas e assumindo a responsabilidade por seus atos, construindo o seu próprio destino. Para o liberalismo clássico, a "esmola" é vista como uma agressão à autonomia daquele que tem capacidade física ("homem qui é são") de prover o próprio sustento.
Curioso notar que o argumento liberal visto na canção nordestina, assim como na Escola Austríaca de Economia Política - a mais pura, rigorosa e intransigente defensora do liberalismo econômico e político – encontra ressonância no discurso pronunciado por Xi Jinping em 2021, na Conferência Central de Trabalho Econômico (Central Economic Work Conference), realizada anualmente em Pequim, em que o líder chinês criticou abertamente o "populismo" e "bem-estarismo" de alguns países latino-americanos. Para o líder chinês, altos benefícios sociais fomentam o que ele chamou de "grupo de preguiçosos", sobrecarregam as finanças nacionais e criam uma dependência política difícil de reverter. Xi argumenta que a prosperidade comum deve ser alcançada pelo trabalho duro, e não por transferências diretas que excedam a capacidade produtiva do Estado.
Assim como a Escola Austríaca, o modelo de crescimento chinês rejeita o assistencialismo, por reconhecer no mesmo um inibidor da ação humana. Gonzaga e Zé Dantas, por seu turno, ao afirmarem que a “esmola vicia o cidadão”, anteciparam em 68 anos a crítica do líder chinês ao assistencialismo de países latino-americanos. No modelo chinês, o Estado provê a infraestrutura, dando os “açudes e estradas” reclamados por Gonzaga e Zé Dantas, mas não dá “esmola”. No Brasil, o valor elevado dos benefícios sociais provoca uma redução na oferta de trabalho de homens jovens, especialmente no Norte e Nordeste, segundo estudos da FGV IBRE de agosto de 2025.
O líder chinês associa o assistencialismo ao fracasso em migrar de uma economia de baixo valor agregado para uma de alta tecnologia, deixando países permanentemente presos a baixas taxas de crescimento, devido ao que se denomina “armadilha da renda média”, descrita como o estágio em que um país, após atingir um nível intermediário de desenvolvimento, não consegue realizar o salto tecnológico e de produtividade necessário para se tornar uma economia de alta renda.
A principal causa da armadilha, na visão de Xi, é o "assistencialismo que excede as possibilidades". Enquanto a China manteve gastos sociais em torno de 8% do PIB para priorizar a industrialização, o Brasil gasta 19,3%. Esse volume de recursos é drenado da economia produtiva para sustentar transferências de renda, reduzindo a poupança interna disponível para o investimento privado. Outrossim, se o Estado taxa excessivamente a produção para financiar o consumo imediato com o assistencialismo, ele fornece os incentivos errados, levando o investidor a preferir a segurança dos títulos públicos em vez do risco e da onerosidade do empreendedorismo.
Em síntese, o problema da América Latina, apontado por Xi Jinping, em especial do Brasil, é o alto gasto com o assistencialismo, com fins eleitoreiros, com uma baixa produtividade, insuficiente para financiar o Estado de Bem-Estar Social pretendido pelo governo. O país tenta sustentar um Estado de Bem-Estar Social de Primeiro Mundo sobre uma base produtiva de Terceiro Mundo. Enquanto países desenvolvidos atingiram altos níveis de assistência somente após consolidarem sua produtividade, o Brasil tenta sustentar um Estado de Bem-Estar Social sobre uma base produtiva estagnada, em que o valor que um trabalhador gera por hora trabalhada é praticamente o mesmo desde a década de 1980. Países ricos só adotaram o "Welfare State" após décadas de taxas de investimento superiores a 25% do PIB. O Brasil tenta proporcionar benefícios próprios de um país rico, sem ter passado pelo sacrifício da acumulação de capital dos países em desenvolvimento.
Na América do Sul, em especial no Brasil, a prática do assistencialismo é indissociável do populismo, uma vez que as políticas de transferência de renda são utilizadas pela classe política como mecanismos de manutenção de poder. O contrato social populista consiste na troca de benefícios sociais por apoio político.
Neste contexto, os projetos de redução da jornada semanal de trabalho para 36h semanais, com o fim da escala 6X1, objeto das Propostas de Emenda à Constituição (PECs), que tramitam em paralelo na Câmara e no Senado, com o objetivo de equiparar o país aos mais benevolentes Estados europeus de primeiro mundo, como a França, pode acelerar o desequilíbrio fiscal e agravar a estagnação econômica. A Escola Austríaca ensina que o tempo é um recurso econômico. Se o Estado decreta que esse recurso deve ser menos utilizado sem que tal redução seja compensada pelo aumento da eficiência, ele está, por definição, decretando o empobrecimento da nação.
Na França, a jornada de trabalho reduzida, de 35h semanais, é parcialmente compensada pela altíssima eficiência por hora trabalhada. Enquanto um trabalhador francês gera aproximadamente US$ 70,00 por hora, o brasileiro gera apenas US$ 19,00. Com a redução da jornada semanal dos trabalhadores, as empresas brasileiras, que já enfrentam problemas de competitividade devido à alta carga tributária e à falta de infraestrutura do país, perderão ainda mais a condição de se contrapor a modelos econômicos de alta performance, como o chinês, que adota regime de trabalho de 72h semanais, conhecido por 996 (das 9h da manhã às 9h da noite, 6 dias por semana).
O aumento do custo unitário do trabalho, em um país com baixa produtividade, não gera mais lazer, mas sim mais desemprego, por perda de competitividade das empresas, negando o apelo final da música de Gonzaga e Zé Dantas para que, em lugar de “esmola”, se “dê trabalho a nosso povo”.