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Livius Barreto

por Livius Barreto

O Default Inflacionário

O endividamento atual é um fenômeno de longo prazo

30/12/2025 às 11h51

30/12/2025 às 11h51

A dívida global está crescendo bem mais rápido do que a economia, já excedendo os US$ 300 trilhões, que representam 335% do PIB mundial, indicando que é matematicamente impossível pagar-se a dívida através do crescimento econômico e dos impostos.

O endividamento atual é um fenômeno de longo prazo, impulsionado pela expansão do crédito fácil e a baixo custo, iniciada nos anos 80, que levou o mundo ocidental a financiar sua prosperidade com crédito, e não com poupança. O quadro se agravou com a crise de 2008, em que os governos evitaram a falência do sistema financeiro, transferindo a dívida privada dos bancos para o Estado; e com a Pandemia da Covid, que fez a dívida pública mundial explodir.

Embora sejam muitos os países que enfrentem níveis altos de dívida, a preocupação se concentra nas nações cuja crise fiscal pode desencadear um contágio sistêmico, devido à sua importância como emissores de moeda de reserva ou como grandes detentores de ativos globais, como o Japão, que responde por uma dívida de 234,9% do PIB, sendo o maior detentor de títulos do tesouro dos EUA (US$ 1,1 trilhão); os EUA, emissor do dólar, a reserva de valor mundial, os quais respondem por dívida de US$ 36 trilhões (120% do PIB), que impõe pagamento de juros da ordem de 1,2 trilhão por ano, mas do que o orçamento da Defesa daquele país; e França, responsável por uma dívida de 110% do seu PIB, que cresce a uma taxa maior do que o limite determinado para os países da zona do Euro, forçando o Banco Central Europeu (BCE) a um comportamento permissivo, não aplicando a sua disciplina fiscal para não ser forçado a abandonar a França às forças de mercado, o que faria explodir o custo do serviço da dívida francesa.

As economias desenvolvidas, que experimentaram juros muito baixos nas últimas quatro décadas, o que possibilitou a adoção de políticas monetárias frouxas para estimular o crescimento, combater a deflação ou financiar déficits, viram as taxas de juros aumentarem rapidamente no combate à inflação pós-Covid, tornando insustentável o custo do serviço da dívida. O Japão, especificamente, enfrenta um quadro de estagflação, em que o PIB se contraiu em 0,7% no primeiro trimestre de 2025 e a inflação atingiu 4%, agravado pela cobrança de juros mais altos pelos investidores, para a aquisição de títulos da dívida japonesa, dada a desconfiança sobre a capacidade do governo de gerenciar a inflação e o endividamento público.

O aumento das taxas de juros pagos pelo títulos do tesouro japonês têm o condão de reverter o Carry Trade, uma a estratégia de investimento comum no mercado financeiro global, que consiste em obter financiamento em uma moeda com juros baixos (funding currency) para investir em um ativo que pague juros mais altos (target currency), buscando capturar o spread (diferença das taxas de juros) como lucro. No caso do Japão, investidores contraíram empréstimos no país a juros próximos de zero ou até negativos e utilizavam os recursos para comprar ações na bolsa, bem como títulos do governo norte-americano, que oferecem segurança e pagam juros maiores que aqueles cobradas nos empréstimos contraídos no Japão.

Todavia, com o aumento das taxas de juros no Japão, os investidores são obrigados a liquidar suas posições, vendendo as ações e os títulos do governo norte-americano, para quitar os empréstimos contraídos no Japão. Os EUA perdem assim o principal financiador de sua dívida, vendo-se obrigado a pagar juros mais altos para colocar no mercado os títulos de tesouro norte- americano, elevando-se significativamente o custo do serviço da enorme dívida pública norte- americana.

A fragilidade provocada pelos problemas estruturais de dívida global, acima referidos, deve-se agravar com o estouro iminente da bolha especulativa no setor de Inteligência Artificial (IA), no mercado de ações dos EUA, que forçará o FED (o banco central dos EUA), mais uma vez, a injetar liquidez no sistema para mitigar os efeitos da crise, o que terá um impacto direto e significativo no aumento da dívida pública norte-americana, exacerbando o risco fiscal e a inflação futura, em decorrência do aumento da base monetária (a injeção de dinheiro na economia).

Diante de dívidas públicas impagáveis, resta aos governos o Default Inflacionário, o mecanismo de eliminação da dívida pública através da destruição deliberada do valor (poder de compra) da moeda, uma forma do Estado cumprir suas obrigações nominais, evitando o calote formal (o default), através da redução do valor real da dívida pela inflação. Neste mecanismo, a inflação opera como um imposto invisível, que promove uma enorme transferência de riqueza dos poupadores em cash e dos detentores de títulos da dívida pública (em especial os fundos de pensão, seguros, entre outros) para o Estado.

Um mecanismo considerado para operar o Default Inflacionário, permitido pelo Manual Contábil do FED (Seção 2.10), é a reavaliação das reservas de ouro do Tesouro para

aproximadamente US$ 20.000 por onça (quase 5 vezes o valor do metal no mercado internacional, atualmente), o que elevaria o valor das reservas de 261,5 milhões de onça troy de ouro do Tesouro norte-americano dos atuais US$ 11,04 bilhões (ao preço do registro contábil de 1973, US$ 42,22/onça) para mais de US$ 5 trilhões, e a subsequente emissão de “Certificados de Ouro” pelo Tesouro, que seriam adquiridos pelo FED, injetando US$ 5,2 trilhões no caixa do governo, que poderia utilizar tais recursos para adquirir a própria dívida e suspender a emissão de dívida nova, enquanto durar a reserva de caixa.

Tal contabilidade criativa pode proporcionar a redução da dívida pública de 120% para aproximadamente 70% do PIB, combinando a reversão do caixa para pagamento parcial da dívida com o aumento explosivo do PIB nominal, que será causado pela inflação desencadeada pela injeção de US$ 5,2 trilhões na economia, mas a injeção de soma tão expressiva na economia (o aumento da base monetária) geraria uma significativa pressão inflacionária, tanto maior quanto mais rápida for a recompra da dívida pelo Tesouro, o que pode vir a forçar o FED a intervir novamente, aumentando a taxa de juros, provocando um efeito recessivo na economia e aumentando o custo do serviço da dívida.

A crise iminente já provocou a disparada do preço de muitos desses ativos. O ouro atingiu a máxima histórica de US$ 4.100/onça, a valorização da prata chegou a superar a do ouro, seguidos pelos metais industriais, como a platina e o cobre, resultado direto da interpretação do mercado sobre o risco de Dominância Fiscal (situação em que a política monetária é subordinada às necessidades de financiamento do governo). O comportamento dos preços desses ativos indica que o mercado está, de fato, se posicionando para o cenário de inflação estrutural e instabilidade monetária.