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Livius Barreto

por Livius Barreto

Idiota Útil

A nova estratégia de segurança dos EUA consolida afirmações antes vacilantes da Administração Trump, alinhando inteiramente a nova posição dos EUA à retórica russa.

12/01/2026 às 10h20

Desde o início do seu segundo mandato, Donald Trump promove uma reorientação completa da política externa dos EUA, mas nada é mais extraordinário do que a nova Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy - NSS), publicada em dezembro de 2025, a qual desmantela a tradicional arquitetura de segurança transatlântica, que guiou o Ocidente desde o pós-segunda-guerra.

O documento não apenas retira a Rússia da condição de ameaça existencial para os EUA, assim como para o Ocidente, mas passa a trata-la como parceiro potencial dos EUA para a estabilidade estratégica, dirigindo uma crítica mordaz à União Europeia, retratada como um continente em declínio, a caminho da extinção civilizacional.

A nova estratégia de segurança dos EUA consolida afirmações antes vacilantes da Administração Trump, alinhando inteiramente a nova posição dos EUA à retorica russa. Assim, os EUA passam a considerar o conflito russo-ucraniano como uma resposta defensiva russa, forçada pela expansão da OTAN, acusando o agredido de ser o responsável pela agressão; a deslegitimar o Estado ucraniano, apresentando-o como falido, corrupto e um mero "fantoche" do Ocidente; a acusar a Europa de decadência moral e ideológica, chegando a prever a sua extinção como civilização nos próximos 20 anos; e a defender a tese de que a resistência à invasão é inútil e que a única solução "realista" é a capitulação territorial. Os EUA vendem o acordo de paz (com cessão de territórios) como um ato de "inteligência" e pragmatismo, necessário para evitar uma escalada para uma terceira guerra mundial, ameaça sempre mencionada por Putin nos momentos de maior dificuldade, na guerra.

A notável convergência de opinião entre os inimigos históricos, EUA e Rússia, reascendeu antigas suspeitas sobre suposto conflito de interesse do presidente norte-americano, que tem raízes nos momentos de maior fragilidade financeira de Donald Trump.

No início dos anos 2000, após múltiplas falências, Trump perdeu a confiança dos grandes bancos americanos. A liquidez necessária para manter as Organizações Trump operacional foi fornecida por oligarcas e investidores com laços obscuros com o Estado russo. A evidência mais contundente é a venda por Trump da sua mansão, Maison de L'Amitié, em Palm Beach, para o oligarca russo Dmitry Rybolovlev. O imóvel foi adquirido por Trump em 2004, por US$ 41 milhões e vendido para o oligarca em 2008, no auge da crise imobiliária global, por US$ 95 milhões, gerando um lucro de mais de 100%, no momento em que as organizações Trump mais precisavam de liquidez. O oligarca jamais morou na casa, que foi posteriormente demolida, mas o negócio representou o socorro financeiro (bailout) necessário para as organizações Trump naquele momento crítico, levantando suspeitas.

Outro empreendimento das organizações Trump, o Trump SoHo, hotel-condomínio de luxo com 46 andares, localizado em Manhattan, foi inteiramente financiado pelo Bayrock Group, grupo financeiro que dependia de capital do Cazaquistão e da Rússia. A presença de indivíduos como Felix Sater (diretor do Bayrock Group), que tinha laços com a máfia russa, no círculo de negócios de Trump, reforça as suspeitas sobre as fontes de capital de que dependiam as organizações Trump, fora do sistema bancário ocidental.

Em 2008, em uma conferência imobiliária, Donald Trump Jr. afirmou que “os russos compõem uma fatia bastante desproporcional de muitos dos nossos ativos” (Russians make up a pretty disproportionate cross-section of a lot of our asserts); e Eric Trump, vice-presidente Executivo da Trump Organization, principal responsável pela expansão do portfólio de campos de golfe da família, perguntado pelo jornalista especializado em golfe, James Dodson, durante uma partida de golfe, em 2014, como a Organização Trump conseguia capital para tantas reformas luxuosas em campos de golfe, num momento em que os bancos americanos estavam reticentes em financiar esse tipo de ativo (devido à recessão), respondeu “Nós não dependemos de bancos americanos. Temos todo o financiamento de que precisamos vindo da Rússia” (We don’t rely on American banks. We have all the funding we need out of Russia).  

As suspeitas que ligam Trump ao Estado russo remontam à Guerra Fria. O casamento de Trump, em 1977, com Ivana Zelníčková, nacional da Tchecoslováquia (país satélite da URSS), colocou-o sob a mira da StB (Segurança do Estado Tchecoslovaco), que mantinha arquivos sobre o casal. Ex-oficiais da KGB, como Yuri Shvets, testemunharam que Trump foi identificado pela inteligência soviética como um ativo de influência a ser cultivado, não um agente pago. Trump não era visto como um "agente" (alguém que recebe ordens diretas), mas sim como um "idiota útil" (useful idiot), termo aplicado a indivíduos que promovem os interesses de uma potência adversária involuntariamente, motivados por seu ego, desejo de reconhecimento ou interesse financeiro.

A viagem de Trump a Moscou, a convite do embaixador soviético nos EUA, e as subsequentes publicações por Trump de anúncios pagos em jornais americanos como o New York Times, Washington Post e Boston Globe, criticando os aliados da OTAN (em 1987) foram vistas pela KGB como um sucesso de suas "medidas ativas" de influência. A política externa de Donald Trump (2025) é a culminação lógica de uma convergência de vulnerabilidades e interesses. Sua dependência financeira de fontes russas permitiu sua sobrevivência empresarial, enquanto sua vulnerabilidade psicológica e ideológica o tornou suscetível à narrativa de Moscou. O resultado é um alinhamento estratégico que beneficia diretamente o Kremlin, fragiliza as democracias europeias e questiona a credibilidade dos Estados Unidos como líder da ordem ocidental.

A reação no Capitólio foi imediata, mas não é uniforme. O Partido Democrata e os independentes classificam a nova doutrina como uma ameaça à segurança nacional, focando a estratégia em mecanismos legislativos de contenção, como a legislação que impede o Presidente de retirar os EUA da OTAN, sem a aprovação do Senado; e a tentativa de vincular o orçamento de defesa, inserindo cláusulas que obrigam o Executivo a manter certos níveis de tropa na Europa, sob pena de "shutdown" do governo; ao tempo em que os Comitês de Inteligência reabrem investigações sobre as finanças de Trump e suas conexões russas, buscando deslegitimar a nova política, ao expor os conflitos de interesse existentes.

Todavia, sempre que Democratas tentaram passar legislações para investigar especificamente os "laços financeiros de Trump", a liderança Republicana vota em bloco para impedir. Em 2017, quando Democratas tentaram usar uma "Resolution of Inquiry" para forçar a entrega de documentos sobre laços financeiros Trump-Rússia, os Republicanos votaram contra, matando a investigação no comitê. A única investigação bipartidária significativa que expôs laços profundos de Trump com a Rússia foi o Relatório do Comitê de Inteligência do Senado (2020). Naquela época, o comitê (liderado por Republicanos) concluiu que a campanha de Trump teve contatos regulares com a inteligência russa.

O Partido Republicano (GOP) enfrenta um conflito interno, em que a ala MAGA acusa a Europa de ingratidão e diz que a Rússia é um parceiro necessário contra a China, bloqueado qualquer tentativa de punir a Rússia; enquanto a "Velha Guarda" (Reaganistas), formada por senadores e deputados que ainda veem a Rússia como o inimigo geopolítico natural, emite notas de preocupação, mas não pode defender a OTAN, para não perder o apoio eleitoral de Trump nas primárias.

A propaganda estatal russa utiliza a retórica de Trump para provar ao cidadão russo que a guerra sempre foi justa. A mensagem é: "Vejam, até o presidente americano admite que a culpa era da OTAN e dos globalistas. Nós estávamos certos o tempo todo." Apesar dos crimes de guerra, dos ataques reiterados a alvos civis, do rapto em massa de crianças, a Rússia deixa de ser um Estado pária. Se a superpotência americana trata Moscou como parceiro, as sanções europeias perdem legitimidade moral e eficácia prática.

 A expectativa de levantamento de sanções ou, no mínimo, de falta de fiscalização americana (compliance frouxo), sinaliza aos oligarcas russos que seus ativos podem voltar e qualquer dissidência dentro do Kremlin, que acusava Putin de levar o país ao desastre é silenciada. Putin entregou o que parecia impossível: a capitulação política dos EUA sem a necessidade de uma guerra direta. Sua posição como "Czar insubstituível" se solidifica. A Rússia utilizará este período de 4 anos para tornar irreversíveis as suas conquistas territoriais e geopolíticas, apostando que, mesmo que um democrata volte ao poder, depois, o dano à aliança transatlântica será irreversível.