2026 será o ano em que Donald Trump, que prometeu restaurar a grandeza da América, demonstrará que suas políticas são capazes de cumprir seus objetivos ou serão o estopim de graves crises de repercussão global.
Ao abandonar o multilateralismo e o soft power, enfraquecendo a OTAN e a OMC, entre outros organismos multilaterais, os EUA renunciaram ao seu papel de líder do mundo livre, aceitando a divisão do globo em esferas de influência, entre EUA, China e Rússia. A orientação dos EUA deixa de ser ideológica, focada na defesa da democracia liberal e do Estado de direito, para se converter em realismo transacional na busca pelo lucro a curto prazo. É provável que o abandono da Ucrânia à sua própria sorte, na guerra iniciada pela Rússia; e de Taiwan para a China sejam compensações negociadas nos bastidores pela passividade do oriente em relação à interferência norte-americana na Venezuela, valiosa por suas reservas de petróleo, um acordo que reservaria o continente pan-americano à esfera de influência norte-americana, enquanto os EUA se retirariam de outros cenários de interesse da Rússia e da China.
Em 2025, Trump lançou a sua Guerra Comercial contra o resto do mundo, inclusive contra seus aliados mais tradicionais e confiáveis, como União Europeia, Canadá e Japão, impondo unilateralmente Tarifas Aduaneiras de forma caótica. A China respondeu ao uso do comércio internacional como arma geopolítica construindo a supremacia no refino de terras raras, através da qual o país oriental pode paralisar indústrias vitais para o ocidente, como as de eletrônicos, robótica e semicondutores, essenciais para o seguimento de Inteligência Artificial (IA); além das de automóveis; energia renováveis; defesa e aeroespacial, entre outras. Assim, a China não apenas resistiu à Guerra Tarifária de Trump melhor dos que os aliados dos EUA, como aumentou sua cota de manufatura global e consolidou mercados alternativos.
Já em face dos aliados dos EUA a guerra comercial pode despertar a primeira das crises que ameaçam a economia dos EUA e do resto do mundo, em 2026. As tarifas impostas pelos EUA sobre a indústria automobilística japonesa representam uma ameaça existencial para o Japão, cuja economia já sofre com estagflação e envelhecimento populacional. A ameaça força o país, o maior detentor individual de títulos da dívida norte-americana (US$ 1,1 trilhão), a vendê-los para sustentar sua própria moeda e dívida de 234,9% do PIB, dificultando o refinanciamento da dívida norte-americana e elevando drasticamente os juros nos EUA.
A tendência é agravada pela reversão do Carry Trade, uma estratégia financeira em que investidores pegam dinheiro emprestado em ienes (JPY), sob as taxas de juros historicamente baixas do Japão, e o investem em títulos públicos que pagam juros mais altos, especialmente os norte-americanos, que são considerados seguros, ou nas bolsas de valores que pagam boa remuneração, lucrando com a diferença entre o custo do empréstimo e o rendimento da aplicação. No entanto, se o juros sobem no Japão, os investidores são obrigados a liquidar suas posições para quitar os empréstimos contraídos no Japão, derrubando as bolsas de valores e elevando os juros de financiamento das dívidas públicas em todo o mundo.
A segunda ameaça econômica é representada pela bolha da Inteligência Artificial (IA). Para sustentar o boom da IA, responsável pelos bons resultados da economia norte-americana em 2025, é necessária uma massiva inversão de capital de longo prazo na construção da infraestrutura de computação acelerada, requerida para impulsionar os modelos de aprendizado de máquinas; e na geração da energia elétrica demandada para alimentar tal infraestrutura. A maioria das empresas dedicadas puramente à IA não registram resultados financeiros que sejam compatíveis com o investimento massivo de capital exigido por suas atividades. Assim, o seguimento depende da captação de recursos na bolsa de valores, puxada pela valorização das ações devido à perspectiva de receitas futuras, mas a reversão do Carry Trade pode comprometer o movimento especulativo que nutre a atual valorização das ações, ameaçando provocar o estouro da bolha, prejudicando significativamente o setor. A indústria certamente terá o socorro do Estado, devido à sua importância estratégica e para a Segurança Nacional, mas o estrago na economia popular será irreversível.
Sob outro aspecto, o protecionismo tarifário promovido no âmbito da guerra comercial importa em aumento de custo dos insumos e, por conseguinte, em inflação de custo, que, combinada com o caos nas cadeias produtivas e a alta dos juros, que prejudicam a produção, pode provocar o cenário conhecido por estagflação, a combinação de inflação alta com estagnação econômica, cenário que não se materializou em 2025 graças aos massivos investimentos no seguimento da IA, nos EUA.
Uma outra ameaça em 2026 é o julgamento pela Suprema Corte dos EUA da legalidade das tarifas impostas por Donald Trump sob a égide da International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). Embora o mercado já tenha absorvido o impacto, se a Corte declarar a ilegalidade da medida, o ônus fiscal da repetição do indébito, estimado em US$ 300 bilhões, forçará ainda mais o endividamento dos EUA e a desvalorização do dólar, gerando mais inflação e estagnação econômica.
Outrossim, o uso reiterado das instituições financeiras globais, como o SWIFT, para a imposição de sanções, como o congelamento de reservas de bancos centrais, a exemplo do que se deu com a Rússia e se ameaça fazer contra membros dos BRICS, faz desmoronar a premissa de neutralidade do dólar, antes visto como bem jurídico global, o que, somado aos ataques da Administração Trump à independência do Banco Central e ao precitado risco fiscal associado ao julgamento da legalidade das tarifas aduaneiras, que reforçam as dúvidas sobre a solvência a longo prazo do Tesouro norte-americano, aceleram o processo de “desdolarização”, ameaçando o “privilégio exorbitante” dos EUA criado em Bretton Woods, ao estabelecer o dólar como principal moeda de reserva global.
Em tal ambiente de crise econômica, associado à amargura social provocada pela estagnação do padrão de vida do americano médio, enquanto a riqueza dos bilionários atingiu o número recorde de US$ 7,6 trilhões, se dará, em 2026, o julgamento de Trump nas urnas, através das eleições de Midterm, que podem custar ao Presidente a sua maioria no Congresso.
Trump terá que prestar contas também com a justiça em diversas outras demandas, além do mencionado caso das tarifas, tais como o Mandado de Segurança contra o ato administrativo inspirado na Teoria do Executivo Unitário, que reclassificou milhares de cargos ocupados por servidores de carreira para cargos preenchidos por indicação (favorecendo o princípio da lealdade ao líder, em lugar da lealdade à lei); a ação de inconstitucionalidade da ordem executiva que visa encerrar a cidadania automática para filhos de imigrantes indocumentados, nascidos nos EUA; e o recurso de Apelação Criminal contra a condenação de Donald Trump, por 34 crimes de falsificação de registro comerciais (caso Hush Money). Embora Trump esteja imune a prisões ou novos processos criminais federais enquanto no cargo, a apelação em Nova York prossegue.
Diante de tais embates, 2026 será o ano em que a democracia liberal, com seu sistema de freios e contrapesos, enfrentará nos EUA uma batalha existencial contra o modelo alternativo proposto por Trump, um momento histórico comparável ao cruzamento do rio Rubicão, por Júlio Cesar, em 49 a.C, em companhia do seu exercito, desafiando o Senado Romano, o que resultou, anos depois, na queda da República Romana, dando lugar ao Império.