As enchentes que atingiram Teresina nos anos de 1985 e 2009 estão entre os episódios mais marcantes da história da capital piauiense e ajudaram a moldar a forma como a cidade se relaciona com seus rios, seu crescimento urbano e suas desigualdades sociais.
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Provocadas por volumes extremos de chuvas, as cheias dos rios Parnaíba e Poti revelaram não apenas a força da natureza, mas também fragilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas, afetando principalmente as populações mais vulneráveis. Registradas e acompanhadas de perto pelo Jornal O Dia, essas tragédias se tornaram marcas da memória coletiva teresinense.
Em 1985, Teresina viveu uma das maiores inundações de sua história. O rio Parnaíba atingiu a cota de 7,59 metros na estação da Chesf, alagando a Avenida Maranhão e bairros inteiros da zona Norte, como Poti Velho, Mafrense e São Joaquim. Milhares de famílias ficaram desabrigadas e precisaram deixar suas casas às pressas. Sem uma política habitacional estruturada à época, muitos moradores foram deslocados para conjuntos como a Santa Maria da Codipi ou passaram a ocupar novas áreas, dando origem a bairros que hoje integram a malha urbana da cidade.
Para o professor Edmundo Ximenes, doutor em Políticas Públicas e pesquisador da temática urbana, as enchentes não podem ser compreendidas apenas como fenômenos naturais. “As inundações são fenômenos históricos, sociais e políticos. A cheia é cíclica, faz parte do comportamento dos rios, mas o impacto humano é resultado da forma desigual como a cidade foi construída e ocupada”, afirma.
Segundo o pesquisador, a expansão urbana acelerada e relativamente desordenada a partir das décadas de 1970 e 1980 agravou ainda mais os riscos, ao empurrar populações de baixa renda para áreas mais suscetíveis a alagamentos.
A ocupação de áreas Ribeirinhas
A tragédia de 1985 teve efeitos duradouros sobre a organização do espaço urbano. Muitas famílias afetadas buscaram terrenos em regiões consideradas mais altas, especialmente na zona Norte, onde o poder público demorou a intervir de forma estruturada. Esse processo, segundo o professor Ximenes, não foi desordenado, mas marcado por uma lógica de desigualdade. “Existe um ordenamento, e ele é definido por quem pode permanecer nas áreas valorizadas e quem é removido sob o discurso de proteção”, observa.
O climatologista Werton Costa destaca que aquele episódio foi um dos mais extremos já registrados do ponto de vista pluviométrico. “Foram volumes de chuva que praticamente dobraram a média histórica da capital. A gravidade não se mede só pela chuva, mas pelo grau de exposição ao risco das populações”, explica. Para ele, a enchente de 1985 ocorreu em um contexto de forte migração do interior para a capital, o que aumentou a ocupação de áreas ribeirinhas e de planícies de inundação.
Mais de duas décadas depois, em 2009, Teresina voltou a enfrentar uma grande cheia. Desta vez, o rio Poti atingiu a marca de 6,88 metros e avançou rapidamente sobre bairros inteiros, deixando mais de 2.500 famílias desabrigadas. Embora o nível dos rios tenha sido inferior ao de 1985, o impacto visual e social foi intenso, em parte pela maior urbanização da cidade e pela ampla cobertura da imprensa.
2009, a enchente mais lembrada
A enchente de 2009 ficou marcada como a mais lembrada pela população, ainda que não tenha sido a maior em volume de chuva. “Ela foi a mais midiatizada. Tivemos mais veículos, mais imagens, internet, e isso inflaciona a percepção do risco”, avalia Werton Costa. Além disso, o avanço das águas atingiu áreas de alto padrão da zona Leste, incluindo edifícios comerciais e shoppings centers, o que ampliou a repercussão do evento.
No mesmo período, o rompimento da barragem de Algodões, no Norte do estado, agravou o cenário de calamidade em municípios como Piracuruca, Barras e Luzilândia. Embora não tenha causado impacto direto na capital, o episódio reforçou o debate sobre negligência, falta de monitoramento e ausência de políticas preventivas. “É um desastre tecnológico que deixa lições importantes sobre segurança de barragens e participação das comunidades”, ressalta o climatologista.
Para Edmundo Ximenes, tanto em 1985 quanto em 2009, o padrão se repetiu: enquanto áreas valorizadas recebiam obras de contenção, populações pobres eram removidas para regiões periféricas, muitas vezes sem infraestrutura adequada. “Isso compromete a mobilidade, o acesso a serviços e o modo de vida dessas famílias a médio e a longo prazo”, diz o professor.
Ao longo dos anos, algumas iniciativas buscaram reduzir os impactos das enchentes, como o Programa Lagoas do Norte e investimentos em diques e drenagem. Especialistas, no entanto, avaliam que as ações ainda são pontuais. “Falta um planejamento urbano integrado, que considere o caminho das águas, a função social da cidade e a participação da população”, afirma Ximenes.
Setenta e cinco anos após a sua fundação, o Jornal O Dia mantém em seu acervo o registro dessas enchentes que marcaram gerações. Ao revisitar 1985 e 2009, o jornal reafirma seu papel como testemunha da história do Piauí e como espaço de reflexão sobre os desafios de construir uma Teresina mais justa, segura e preparada para conviver com seus rios e com os extremos climáticos.
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