Em novembro de 2001, a manchete “TSE cassa mandato de Mão Santa” estampava mais uma edição do Jornal O DIA. Por 7 votos a 0, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu pela saída do então governador Francisco de Assis Moraes Souza, o Mão Santa (PMDB), em um processo no qual era acusado de abuso de poder econômico e político na campanha de reeleição, em 1998, contra Hugo Napoleão (PFL), que assumiria posteriormente com a decisão do Tribunal.
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Mão Santa venceu as eleições de 1998 com 50,96% dos votos, uma diferença de 23 mil votos em relação a Hugo Napoleão, segundo colocado na disputa. Até o processo que culminou na cassação do mandato do governador piauiense, não havia registros no país de decisões semelhantes envolvendo abuso de poder econômico em eleições estaduais. A condenação também atingiu o vice-governador Osmar Júnior (PCdoB). Ambos foram acusados de 22 irregularidades, das quais apenas nove foram validadas pelo TSE.
A acusação apontou que, durante a campanha eleitoral de 1998, Mão Santa teria utilizado a máquina pública para a distribuição de medicamentos, anistias de contas de água e até ações de autopromoção, como a criação de um programa social associado ao seu nome, o “Sopa na Mão”. O ex-governador chegou a ser absolvido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI), mas Hugo Napoleão recorreu ao TSE, que considerou que os abusos tinham potencial para influenciar o resultado das eleições.
O Jornal O Dia acompanhou e noticiou todo o desenrolar do processo de cassação, inclusive os debates sobre a possibilidade de posse do segundo colocado ou a realização de novas eleições. A comissão que apurou as eleições de 1998 transferiu a decisão para o Pleno do TRE-PI, presidido pelo desembargador João Batista Machado, que definiria o futuro do comando do governo estadual.
Em reportagem publicada pelo O Dia, Firmino Filho (PSDB), que na época estava em seu segundo mandato como prefeito de Teresina, defendia a realização de novas eleições e classificava a estratégia de Hugo Napoleão como “tapetão”, ao perder nas urnas e vencer na Justiça, alertando que isso não poderia se tornar uma prática recorrente na política.
A decisão do Pleno do TRE acabou determinando a posse do segundo colocado. Hugo Napoleão assumiu o governo do Piauí no dia 19 de novembro de 2001. Na capa do Jornal O Dia, a manchete informava “Hugo anuncia primeiras medidas”. Após vencer a longa batalha judicial contra Mão Santa, o novo governador afirmou que iria “arrumar a casa”.
Entre as primeiras ações, Hugo Napoleão determinou a realização de uma auditoria nas contas públicas estaduais. Ao deixar a sede do TRE, onde foi diplomado, ele e o vice-governador Felipe Mendes foram recebidos por apoiadores que celebravam seu retorno ao comando do Executivo estadual.
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O pós-cassação e as novas disputas do ex-governador
A cerimônia de transmissão de cargo no Palácio de Karnak contou com grande participação popular. Kléber Eulálio, então presidente da Assembleia Legislativa, que havia ocupado o cargo de governador por apenas 12 dias, entregou oficialmente o governo a Hugo Napoleão, que permaneceu no poder por pouco mais de um ano. Em 2002, ao disputar a reeleição, acabou derrotado por Wellington Dias (PT).
Mesmo cassado, e em um período anterior à Lei da Ficha Limpa, Mão Santa pôde concorrer ao Senado no ano seguinte. Em 2002, foi eleito senador em segundo lugar, atrás de Heráclito Fortes, com uma votação de 664.600 votos, o equivalente a 26,77% do total.
No ano seguinte, ao assumir a vaga no Senado Federal, Mão Santa discursou sobre o processo de cassação, alegando que não teve direito à ampla defesa para se manter no mandato à frente do governo do Piauí. O ex-governador afirmou que o Executivo federal desejava um PMDB submisso, uma vez que o partido defendia o nome de Lula para a Presidência da República, em oposição ao sucessor do campo político de Fernando Henrique Cardoso, que indicou José Serra para a disputa.
Mão Santa declarou que não venceu as eleições por ter anistiado contas de água, parcelado contas de luz ou distribuído medicamentos, afirmando que sua eleição ao Senado seria prova disso. Segundo ele, “o povo cassou os caçadores”. O ex-governador afirmou ainda que, na eleição de 1994, enfrentou “velhas oligarquias e o poder econômico”, ressaltando que seu adversário contou com o apoio de 145 prefeitos e das cinco emissoras de televisão do estado, enquanto ele teria o apoio de apenas três prefeitos.
O ex-governador, no entanto, permaneceu apenas uma legislatura no Senado. Ao tentar a reeleição em 2010, não obteve o mesmo desempenho. Na disputa, que também contou com cobertura do Jornal O Dia, foi derrotado por Wellington Dias e Ciro Nogueira (PP), que ficaram com as duas vagas. Mão Santa obteve 14,14% dos votos, terminando na terceira colocação. Ele ainda tentou retornar ao Palácio de Karnak em 2014, sem sucesso, quando obteve pouco mais de 14 mil votos, mas teve sua redenção política em 2016, ao ser eleito prefeito de Parnaíba, cargo que exerceu por dois mandatos.
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