Em 1964, o Brasil mergulhou em um dos períodos mais marcantes da sua história política, o golpe civil-militar que depôs o então presidente João Goulart, sob o argumento de conter o avanço do comunismo em meio à Guerra Fria. O país viveu 21 anos sem eleições diretas, sob um regime de repressão à liberdade política e à atuação da imprensa. Nesse cenário, o Jornal O Dia, que completa 75 anos de fundação este ano, acompanhou de perto as transformações políticas do país e do Piauí, registrando desde o endurecimento da censura até o retorno do voto direto.
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Durante o regime, o Ato Institucional nº 5 (AI-5), decretado em 1968 pelo general Costa e Silva, ampliou os poderes do governo militar e limitou severamente a liberdade de expressão. Mesmo sob vigilância, O Dia seguiu documentando o cotidiano político e social do Estado, relatando e noticiando aos piauienses da política local e nacional, dos acontecimentos do dia a dia e, posteriormente, o processo de redemocratização que culminou no fim da ditadura, em 1985.
Em 15 de novembro de 1982, o Piauí voltou às urnas após duas décadas sem eleições diretas para governador. Naquele pleito, Hugo Napoleão (PDS) foi eleito, derrotando Alberto Silva, e se tornou o primeiro governador do estado eleito democraticamente desde Petrônio Portella, em 1962.
“Foram anos de governos indiretos, os governadores eram eleitos pela Assembleia Legislativa. Mas veio a redemocratização já proposta pelo presidente Ernesto Geisel, que diria ‘eu farei a abertura lenta, gradual, mas segura’, e o presidente Figueiredo levou adiante. As eleições então vieram e eu fui felizmente eleito governador, tive a oportunidade de vencer aqui o Alberto Silva”, declarou Hugo Napoleão.
O ex-governador lembrou também o controle rigoroso sobre a imprensa durante a ditadura. No Piauí, jornalistas do Jornal O Dia chegaram a ser enquadrados na Lei de Segurança Nacional, inclusive o próprio dono do jornal, o Coronel Octávio Miranda.
“Se publicavam uma matéria, eles censuravam e podiam pôr um verso de Camões no lugar da matéria. Quase todos ‘Os Lusíadas’ foram contemplados de tanta proibição que havia. A imprensa era censurada. Não se podia publicar nada que fosse considerado por eles uma aleivosia ao sistema”, recordou o que era comum ocorrer na imprensa nacional.
Com o retorno da democracia, a relação entre o poder público e a imprensa mudou completamente. Hugo Napoleão destacou que, após o regime, as visitas às redações deixaram de ser para censura e se tornaram encontros de diálogo e entrevistas. Ele lembrou com carinho de sua convivência com Octávio Miranda.
“Eu tenho grandes lembranças das conversas que eu tive com o Coronel Octávio Miranda. Eu frequentava com intensidade o seu escritório no jornal, era frequentador assíduo. Já tinha inclusive passagem livre na catraca. Era muito agradável, ele era um homem muito circunspecto, sereno e comedido, mas de uma prosa de primeira”, contou.
Em meio à atual polarização política nacional, o ex-governador relembrou que, após o período de redemocratização, predominava o respeito entre adversários políticos. Ele citou como exemplo a relação de amizade que construiu com o ex-governador e atual ministro Wellington Dias, seu adversário nas eleições de 2002.
“Wellington Dias tornou-se um dos bons amigos da minha vida com o passar dos anos. Ele teve um gesto interessante comigo, um gesto bonito, e aí nos aproximamos. Somos hoje amigos e conversamos quando necessário até no WhatsApp. Ele hoje, talvez, seja do presidente Lula o mais querido dos seus auxiliares”.
Ao celebrar os 75 anos do Jornal O Dia, Hugo Napoleão ressaltou o papel do veículo na história política do Piauí, destacando sua importância para a sociedade e para a preservação da memória democrática.
“Nós hoje somos satisfeitos com a atuação democrática e o trabalho que o Jornal O Dia trouxe para o Piauí. São matérias de informação, noticiário internacional, nacional, municipal e cultural. Um serviço completo prestado à sociedade brasileira nesses 75 anos, para os quais eu me rejubilo. O Jornal O Dia é um dos alicerces fundamentais da história do Piauí”, finalizou.
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