O jornal chega dobrado, como sempre. Antes de qualquer palavra, a capa se impõe: imagens, manchete e um convite à leitura. No Jornal O Dia, essa primeira página ultrapassa a função gráfica. Ela expressa uma tomada de posição editorial, resultado de escolhas que envolvem critérios jornalísticos, limites éticos e sensibilidade diante dos fatos. Ao longo das décadas, a capa tornou-se também um registro do tempo, estabelecendo uma relação particular com o público piauiense, de quem informa, mas com quem também compartilha a memória dos acontecimentos.
Leia a edição especial dos 75 anos aqui
Algumas capas permanecem na memória. Não por razões materiais, mas porque se tornaram documentos históricos, capazes de narrar fatos, transmitir momentos, em uma única página. Entre elas estão as edições dedicadas ao caso das meninas de Castelo do Piauí, em 2015, vítimas de estupro coletivo e tentativa de feminicídio. Naquele contexto, a cobertura rompeu com a lógica da nota policial e buscou tratar as vítimas como sujeitos de uma história marcada pela violência, mas também pela necessidade de reconhecimento e cuidado.
As capas dessas edições utilizam o simbolismo de flores vermelhas sobre um fundo branco para tratar o crime com sensibilidade, substituindo imagens explícitas de violência por metáforas visuais. Em “Feridas de Morte” (2015), pétalas caídas representam a brutalidade do ocorrido e o impacto emocional causado em todo o estado. Já “Começar de Novo” (2016) apresenta uma flor inteira e erguida, símbolo do esforço de reconstrução e da tentativa coletiva de seguir adiante em uma cidade marcada pelo silêncio e pela dor.
Outra capa marcante daquele mesmo período trouxe um movimento com significado completamente diferente, mas igualmente simbólico: a final da Série D do Campeonato Brasileiro. Embora o título tenha ficado com o Botafogo-SP, o River Atlético Clube celebrou o acesso à Série C, reacendendo o orgulho e a paixão da torcida piauiense. A edição destacou a festa nas arquibancadas e o agradecimento do time ao apoio recebido, reforçando o papel do esporte como elemento de identidade e pertencimento.
Durante sete anos, a jornalista Elizângela Carvalho esteve à frente da editoria do jornal. Foram mais de 16 anos no O Dia, iniciados ainda como estagiária, até sua saída em 2017, quando seguiu para Portugal para cursar o doutorado. Ao relembrar esse período, ela destaca que a construção das capas nunca foi apenas uma decisão estética. “Mais do que pensar em arte, a gente precisava traduzir o sentimento daquele momento histórico. A capa é uma forma de leitura do fato, é uma mediação entre o acontecimento e o leitor”, afirma.
Ao longo dos anos e das mais de 20 mil capas, há intencionalidade entre imagem e a repercussão das publicações após a publicação. Segundo Elizângela, a prioridade sempre foi “não expor vítimas, não recorrer ao choque gratuito e respeitar os limites éticos do jornalismo, mesmo diante de fatos extremamente duros”.
Sobre a relação entre editoria e diagramação, ela ressalta a sintonia indispensável entre as equipes para que os temas deixassem de ser ideias e se tornassem materialidade gráfica. “A ideia nasce na editoria, mas só ganha corpo quando encontra a forma gráfica adequada. Muitas vezes, o que parecia funcionar na cabeça não funcionava no papel. Era um diálogo constante, até que imagem, texto e espaço conversassem entre si”, explica.
A jornalista Maria Clara Estrêla, há mais de dez anos no Jornal O Dia, acompanha esse processo de perto. Foi dela o texto de algumas das capas mais emblemáticas, incluindo as relacionadas à tragédia de Castelo do Piauí. Ao escrever “Feridas de Morte” e “Começar de Novo”, ela assumiu o desafio de narrar uma violência extrema sem revitimizar.
“Como mulher e como repórter, eu precisei exercitar empatia o tempo todo. Não era possível escrever com frieza diante de uma violência tão absurda”, relembra. Para Maria Clara, o cuidado principal foi imaginar como aquelas histórias gostariam de ser contadas se as vítimas fossem leitoras do jornal. “Humanizar não é expor. A gente evitou detalhes desnecessários, evitou repetir a dor. O objetivo era informar, cobrar respostas e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade das meninas. Há situações em que o silêncio diz mais do que a descrição”, reforça a jornalista sobre a responsabilidade da escrita.
A materialização dessas histórias passa também pelas mãos de quem transforma palavras em imagens. Há mais de 20 anos no jornal, Glauber Calland é o diagramador responsável por traduzir o debate editorial em escolhas visuais, como tipografia, cores, enquadramentos e vazios. “Diagramar é como montar uma obra para que o leitor tenha vontade de abrir o jornal. Cada capa exige cuidado, principalmente quando o tema é delicado”, explica. Ele lembra que algumas capas são mais difíceis de executar justamente pelo peso emocional envolvido.
Questionado sobre as capas que mais o marcaram, Glauber cita aquelas ligadas a perdas dentro da própria redação e a grandes tragédias. “São capas que a gente faz com um nó na garganta. Mas também são as que mostram a importância do impresso, de registrar a história com respeito. Mesmo sendo o único jornal em circulação hoje, o O Dia continua cumprindo esse papel”, reflete.
Atualmente à frente da editoria-chefe, a jornalista Ithyara Borges enxerga as capas como narrativas visuais que antecedem o texto. “A capa conta uma história antes mesmo da leitura. Ela precisa provocar, contextualizar e dialogar com o leitor”, afirma. Para ela, os 75 anos do jornal representam não apenas longevidade empresarial, mas um acervo vivo da história do Piauí. “O O Dia documenta a transformação do estado desde 1950. Cada capa é um fragmento dessa trajetória”.
Sobre as comemorações do aniversário, Ithyara adianta que o jornal celebrará a data ao longo de todo o ano, com matérias especiais, exposições de capas e lançamento de livro. “É uma forma de valorizar a memória, sem perder de vista o presente e os desafios do jornalismo contemporâneo”, destaca.
A relação entre o jornal e a cidade também se constrói nos momentos de tensão social. Em 2011, o então líder estudantil e hoje vereador de Teresina pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Deolindo Moura, participou das manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público. Ao relembrar a cobertura daquele período, ele afirma que a imprensa teve papel decisivo.
“Nada do que aconteceu em 2011 teria a mesma dimensão sem a cobertura dos jornais. As capas mobilizavam, davam sentido ao movimento e registravam a ousadia de uma geração”, avalia. Para Deolindo, o Jornal O Dia ajudou a transformar aquelas manifestações em memória coletiva, mostrando que a cidade também se constrói não só nas ruas, mas também nas páginas impressas.
Ao longo de décadas, o Jornal O Dia transformou suas capas em espaços de memória. Elas não apenas registraram fatos, mas ajudaram a moldar a forma como o Piauí se viu e se leu. Em cada escolha, do título à imagem, do silêncio à palavra, permanece a tentativa de fazer caber, numa única página, histórias que seguem ecoando muito além do papel.
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