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A EUROPA ENTRE A UNIÃO E A VASSALAGEM

Para a Europa, é o momento de unir-se para se tornar capaz de sentar-se à mesa, ou se converterá no menu.

23/01/2026 às 13h11

23/01/2026 às 13h11

Historicamente, a partir da Paz de Westfália, de 1648, quando se estabeleceram os conceitos modernos de soberania estatal, de não intervenção de um Estado em assuntos internos de outro; e de igualdade jurídica entre os Estados, a Europa consolidou-se como um tabuleiro de Estados que competiam para impedir que qualquer um deles se tornasse uma potência hegemônica, o que se convencionou chamar de Equilíbrio de Poder. Tal fragmentação e as guerras frequentes que ensejou perduraram até 1945, quando a devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial e o surgimento da ameaça nuclear levaram à criação de instituições supranacionais, como a União Europeia, que visaram substituir a competição constante pela integração econômica.

Naquele período (de 1648 a 1945), a fragmentação da Europa funcionou como uma seleção natural geopolítica, em que apenas as nações com maior capacidade de inovação sobreviviam. Tal ambiente lançou o continente na vanguarda do desenvolvimento técnico e institucional, enquanto grandes impérios unificados, como a China, tendiam à acomodação. Sem rivais externos imediatos que ameaçassem a sua existência, os sistemas imperiais centralizados priorizavam a estabilidade interna e o conservadorismo burocrático, o que resultou em estagnação tecnológica e na aversão ao risco. Na Europa, o inventor rejeitado por um monarca podia levar a sua ideia ao Estado vizinho; em um império unificado, a rejeição pelo Poder central significava o fim da inovação.

O fenômeno do desenvolvimento impulsionado pela fragmentação e pela competição existencial também se verificou na Itália renascentista. Durante o Renascimento, a Itália era o centro econômico e cultural do mundo. Cidades como Milão, Veneza e Florença detinham os segredos da finança moderna, da engenharia militar avançada e apresentavam o maior desenvolvimento humano da época. O processo pelo qual as Cidades-estados italianas se tornaram o epicentro econômico, tecnológico e cultural do mundo durante o Renascimento foi impulsionado por uma competição política feroz entre elas. Assim como a fragmentação europeia posterior impulsionaria o continente, a rivalidade entre as cidades italianas forçou o desenvolvimento acelerado da península italiana. A necessidade de sobrevivência contra vizinhos hostis levou ao desenvolvimento de tecnologias militares de vanguarda. A cultura e a arte não eram apenas buscas estéticas, mas ferramentas de Soft Power e propaganda política. Príncipes, banqueiros e mercadores financiavam artistas, arquitetos e filósofos, como Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Rafael e mesmo Machiavel, para demonstrar a superioridade e o prestígio de suas cidades frente às rivais.

No entanto, o modelo de micro soberanias representadas pelas Cidades-estados tornou-se obsoleto quando surgiram os Estados Nacionais, como a França de Carlos VIII, que conseguiram replicar competências técnicas em uma escala territorial e populacional muito maior, permitindo-lhes projetar um poder militar centralizado de massa, o que resultou, por exemplo, na invasão de Milão, em 1494, quando esta era uma das cidades mais ricas da Europa. Dadas as diferenças entre elas, as cidades italianas eram incapazes de se unir em um bloco coeso, tornando-se indefesas, apesar de sua superioridade econômica e tecnológica. Em 1499 Luís XII repetiu a invasão de Milão, tomando novamente a cidade, com facilidade. A lição foi clara: a riqueza e o desenvolvimento cultural não substituem a escala territorial e a unidade política. A Itália tornou-se o campo de batalha das grandes monarquias europeias por séculos, sofrendo um processo de vassalização por não ter feito a transição para a escala nacional a tempo.

Hoje, a Europa vive um dilema análogo. Estados como Alemanha e França representam a vanguarda do desenvolvimento humano e tecnológico, mas operam em uma escala que se tornou obsoleta frente gigantes continentais como EUA, China e Rússia. Assim como Milão no século XV, a Alemanha de hoje é uma potência econômica e tecnológica que carece de escala continental para sustentar sua soberania de forma isolada. A fragmentação europeia em matéria de defesa permite que potências externas tratem as nações do bloco como peões em um tabuleiro global. No entanto, as diferenças históricas e culturais dos países europeus, agravadas pelas feridas das guerras do período de fragmentação, dificultam o processo de unificação do continente, que requer uma identidade política.

Às grandes potências - EUA, China e Rússia - não interessa que a Europa se organize em uma Federação. Uma Europa federalizada representaria um bloco econômico com um PIB acima de 20 trilhões de dólares, superando os EUA e a China, capaz de impor padrões tecnológicos globais, que forçariam as empresas americanas e chinesas a se adaptarem, em vez de Washington e Pequim estabelecerem os padrões tecnológicos do mercado. A federação europeia teria uma moeda dominante e emitiria títulos da dívida federal (Eurobonds) que rivalizariam com os Treasuries americanos; negociaria tratados comerciais para a compra de energia russa como monopsônio (comprador único), forçaria a abertura do mercado chinês em uma posição de força e não permitiria que os EUA exercessem pressões bilaterais como fizeram recentemente sobre o Canadá e a Dinamarca. Uma maior integração econômica removeria barreiras existente no setor de serviços e otimizaria o mercado de capitais, daria a empresas jovens mais acesso a capital de risco e melhoraria a economia de escala das empresa de grande porte.

Se operasse como uma força unificada, a Federação Europeia deteria uma das maiores e mais tecnológicas máquinas de guerra do planeta. Somando-se as capacidades atuais dos Estados-membros, o efetivo total do seu exercito único superaria em números o dos Estados Unidos e suas forças armadas poderiam priorizar a adoção de tecnologia própria, livrando-se do julgo dos EUA, que usam a tecnologia militar para manter os aliados "alinhados" com os interesses de Washington. A Europa desenvolveria seus próprios sistemas de satélite (o Galileo), caças e redes de comando, livrando-se da dependência tecnológica dos EUA. Unificada, a Europa poderia projetar poder sobre o Oriente Médio e a África e poderia, por exemplo, decidir permanecer neutra em um eventual conflito EUA-China por Taiwan, o que seria catastrófico para a estratégia norte-americana no Indo-Pacífico.

Por todas essas razões a estratégia de Washington sempre foi apoiar os chamados Estados Patrióticos (Polônia, Hungria, Itália) e a de Moscou financiar os partidos nacionalistas de direita, de viés pro-russo, como a União Cívica Húngara, de Viktor Orbán; o Ressemblement National, da França, liderados por Marine Le Pen e Jordan Bardella; e o Alternative für Deutschland (AfD), da Alemanha, a fim de criar divisões internas em Bruxelas.

A China, por seu turno, adota uma estratégia de premiar a desunião, oferecendo investimentos maciços em infraestrutura para países que escolhem agir fora do consenso de Bruxelas. Ao controlar infraestruturas críticas em pontos isolados da Europa, a China cria ilhas de influência dependentes do capital chinês, gerando divisão interna na UE entre os países que precisam de investimento chinês para infraestrutura e os países ocidentais que veem a China como uma ameaça sistêmica. O Resultado é que, quando a UE tenta emitir declarações conjuntas condenando ações chinesas, como em relação a Taiwan, aos direitos humanos ou à livre concorrência, países beneficiados por investimentos chineses utilizam seu poder de veto para paralisar a decisão.

Uma Europa unida deixaria de ser uma pedra no tabuleiro para se tornar um jogador, alterando o equilíbrio global de forma que nem Washington, nem Moscou, nem Pequim gostaria de ver. Para a Europa, é o momento de unir-se para se tornar capaz de sentar-se à mesa, ou se converterá no menu, como disse Mark Carney, Primeiro-Ministro canadense, para ilustrar a necessidade de as potências médias se unirem para negociar com superpotências como EUA e China.