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Mortes em chuvas expõem colapso da drenagem urbana em Teresina

Acidentes e casos fatais revelam problema crônico na capital; especialistas explicam sistema sobrecarregado e expõem falhas de manutenção e ações preventivas.

20/03/2026 às 13h10

A morte de José Ribamar Cardoso dos Santos, de 52 anos, após ser arrastado pela correnteza e cair em um bueiro na zona Sul de Teresina, na última terça-feira (17), reacendeu o alerta sobre os riscos provocados por falhas no sistema de drenagem urbana da capital, um problema considerado crônico na cidade.

Mortes em chuvas expõem colapso da drenagem urbana em Teresina - (O Dia) O Dia
Mortes em chuvas expõem colapso da drenagem urbana em Teresina

No caso mais recente, ocorrido no bairro Cidade Nova, a vítima foi levada pela força da água e percorreu cerca de 1,5 km pela rede subterrânea de escoamento. O episódio se soma a uma série de acidentes e mortes registrados nos últimos anos durante períodos de chuvas intensas em Teresina.

Ainda neste mês de março, o jovem Kauã Francisco da Silva Sousa, de 19 anos, morreu após cair em um grotão durante uma forte chuva no bairro Manoel Evangelista, na zona Sudeste. Em março de 2025, uma mulher e uma criança chegaram a ser arrastadas pela correnteza em uma rua do bairro Promorar, na zona Sul da capital, mas foram resgatadas.

Em 2022, dois casos chamaram atenção para o risco crescente associado à precariedade do sistema de drenagem. Em fevereiro, a pedagoga Wana Sara morreu após ter o carro arrastado para uma galeria aberta na Avenida Homero Castelo Branco. Apenas um mês antes, o veículo do chef de cozinha João Marcelo foi levado por uma enxurrada no bairro Satélite. Ambos os episódios ocorreram na zona Leste de Teresina e evidenciam problemas recorrentes como alagamentos, ausência de proteção em bueiros e galerias e falhas na infraestrutura urbana.

Mortes em chuvas expõem colapso da drenagem urbana em Teresina - (O Dia) O Dia
Mortes em chuvas expõem colapso da drenagem urbana em Teresina

Durante chuvas intensas, ruas ficam encobertas por poças de água que escondem buracos, bocas de lobo abertas e erosões. Esses elementos transformam vias urbanas em áreas de risco. Especialistas apontam que não é apenas o volume das chuvas que provoca as tragédias, mas a combinação entre drenagem ineficiente, falta de manutenção e crescimento urbano desordenado.

De acordo com o climatologista e diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Estado, Werton Costa, o sistema de drenagem tem como função escoar a água da chuva e garantir a segurança das vias, mas depende diretamente de manutenção contínua.

“Um sistema de drenagem urbana é construído para permitir que o escoamento das águas pluviais aconteça de forma subterrânea, mantendo a superfície segura. Para isso, é essencial que haja manutenção periódica e monitoramento constante das galerias e estruturas”, explicou.

O especialista destaca que, quando esse sistema falha, os riscos se ampliam rapidamente. “Quando há obstrução de bueiros e galerias, a água retorna e forma enxurradas com força suficiente para arrastar pessoas e veículos. Essas ruas passam a esconder armadilhas, como buracos e objetos, o que aumenta ainda mais o perigo”, afirmou.

Mortes em chuvas expõem colapso da drenagem urbana em Teresina - (Arquivo / O DIA) Arquivo / O DIA
Mortes em chuvas expõem colapso da drenagem urbana em Teresina

Ele também ressaltou que as chuvas, em ambientes urbanos altamente impermeabilizados, tendem a se tornar mais perigosas. “A chuva, quando cai em uma cidade muito asfaltada, com pouco escoamento eficaz, pode se transformar em uma armadilha, com enxurradas intensas e áreas de alagamento”, disse.

O arquiteto e urbanista Carlos Kayser, membro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Piauí (CAU-PI), afirma que o problema é estrutural e antigo. Segundo ele, parte das galerias da capital foi projetada para uma cidade com menor nível de urbanização.

“Muitas obras demoraram até 20 anos para serem concluídas. Quando ficaram prontas, a cidade já era outra, mais impermeabilizada, com maior volume de água escoando”, disse.

Carlos Kayser, arquiteto e urbanista - (Rebeca Negreiros/O Dia) Rebeca Negreiros/O Dia
Carlos Kayser, arquiteto e urbanista

Kayser explica que a impermeabilização do solo, causada por asfalto e construções, reduz a absorção natural da água e aumenta a pressão sobre o sistema de drenagem. “A cidade precisa ser mais permeável. Sem isso, a água escoa com mais velocidade, provoca erosões e pode abrir crateras ou expor galerias”, afirmou.

Ele também alerta para a falta de manutenção preventiva. “Algumas bocas de lobo estão desgastadas ou abertas. Há risco real de acidentes, principalmente durante chuvas, quando a visibilidade é reduzida e a força da água aumenta”, disse.

Para os especialistas, os pontos de risco são conhecidos e poderiam ser mapeados e sinalizados de forma mais eficiente. Apesar de investimentos em obras de drenagem ao longo dos anos, o crescimento urbano acelerado e a falta de ações preventivas continuam ampliando a vulnerabilidade da cidade.

Com a previsão de mais chuvas nos próximos dias, moradores seguem convivendo com prejuízos, dificuldade de mobilidade e o risco constante de novos acidentes. O cenário evidencia falhas persistentes na infraestrutura e cobra respostas do poder público, diante de problemas já conhecidos que continuam afetando diretamente a segurança e a qualidade de vida da população.


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Com edição de Ithyara Borges.