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Filme “Filhos de ninguém”, produzido por mulheres, ganha destaque nacional e revela jovens talentos piauienses

Com a maioria dos cargos de produção ocupados por mulheres, a obra aposta em talentos locais para contar uma narrativa marcada por abandono, superação e laços construídos pela convivência

21/06/2026 às 10h00

21/06/2026 às 10h00

O filme Filhos de Ninguém, produzido em Teresina, tem chamado atenção não apenas pela história que retrata, mas também pela forte presença feminina em sua equipe. Com a maioria dos cargos de produção ocupados por mulheres, a obra aposta em talentos locais para contar uma narrativa marcada por abandono, superação e laços construídos pela convivência.

A produção acompanha a trajetória de três crianças que vivem às margens do Rio Parnaíba e encontram umas nas outras uma forma de proteção e pertencimento diante das dificuldades da vida. Anos depois, já adultos, os personagens precisam enfrentar as marcas deixadas por um passado repleto de perdas, traumas e separações.

O filme foi gravado em diversos pontos do centro de Teresina - (Divulgação) Divulgação
O filme foi gravado em diversos pontos do centro de Teresina

Na fase infantil, os protagonistas são interpretados pelos jovens piauienses Clara, Samuel e Lucas Matheus. Já na fase adulta, o elenco reúne nomes como Ana Café, Lucas Abá e Ferdinand. A narrativa alterna entre passado e presente, mostrando como as experiências da infância influenciam toda a trajetória dos personagens.

Para a produtora e preparadora de elenco Catarina Saibro, o projeto vai além de uma produção regional e representa uma oportunidade de apresentar o Piauí para o Brasil. “Um Piauí rico, com muitas histórias para serem contadas e de inúmeros talentos a serem descobertos. O filme ‘Filhos de Ninguém’ está a serviço do cinema nacional. Esse não é um projeto regional, pois a primeira distribuição deste filme será no cinema. Este Piauí vai chegar na tela das pessoas, que futuramente terão acesso a esse filme em suas casas. O nosso compromisso é contar uma realidade do que é o Piauí, mas, acima de tudo, contar uma realidade do Piauí”, afirmou.

Produção valoriza protagonismo feminino

Segundo Catarina, a presença de mulheres em posições de liderança ainda é um desafio dentro do setor audiovisual, motivo pelo qual a equipe faz questão de destacar a participação feminina no projeto.

Sobre o acesso feminino ao cinema do Piauí, infelizmente, a gente vê que não é usual ter lideranças. E isso foi uma coisa que sempre me incomodou e, quando tem, a gente vê como uma surpresa, mas não era para ser assim

Catarina Saibroprodutora e preparadora de elenco

A equipe técnica conta com mais de 70 profissionais, sendo a maioria mulheres. Para a produtora, iniciativas como essa ajudam a fortalecer a autoestima do estado e demonstrar a capacidade dos profissionais piauienses. “O Brasil e o Piauí precisam de um banho de autoestima. Ver que o Piauí tem muito potencial e pessoas muito talentosas”, destacou.

Projeto acompanha realidade social presente em todo o país

Idealizado há anos, “Filhos de Ninguém” possui duas linhas temporais, situadas em 2016 e 2026. A proposta nasceu da observação de uma realidade que, segundo a equipe, continua presente em diversas cidades brasileiras.

“Esse filme tem duas fases, a de 2016 e a de 2026. Esse projeto é sonhado há muito tempo. As crianças são acompanhadas desde 2016, vivendo na rua, e isso é um tema universal, algo que acontece todos os dias. Às vezes, a gente nem se dá conta de que essas pessoas estão ali. A gente ignora”, ressaltou Catarina.

Parte do elenco infantil foi selecionada em organizações sociais que atuam com crianças e adolescentes. - (Divulgação) Divulgação
Parte do elenco infantil foi selecionada em organizações sociais que atuam com crianças e adolescentes.

Embora retrate crianças em situação de abandono, a produção buscou construir a história com responsabilidade social. Parte do elenco infantil foi selecionada em organizações sociais que atuam com crianças e adolescentes.

“A roteirista, Júlia Horta, escreveu essa história com muita responsabilidade. A gente nunca passou fome, nunca viveu um descaso ou abandono jurídico. Foi uma decisão da produção encontrar esse protagonismo em ONGs. São quatro crianças envolvidas nesse projeto, com uma importância significativamente grande na história. Três desses talentos foram encontrados em ONGs”, explicou.

“A maioria delas não tem esse abandono jurídico, mas são de famílias que têm mães que precisam trabalhar, mãe solo que precisa dedicar seu tempo, e essa criança não tem com quem ficar, não tem rede de apoio, e a ONG passa a ser essa rede de apoio.”

A equipe técnica conta com mais de 70 profissionais, sendo a maioria mulheres. - (Divulgação) Divulgação
A equipe técnica conta com mais de 70 profissionais, sendo a maioria mulheres.

A produtora reforça que o cinema também possui um papel social e que a escolha dos jovens atores foi parte desse compromisso. “Fizemos questão de encontrar essas crianças lá. Acima de tudo, o cinema tem uma responsabilidade social, e precisamos ter responsabilidade para contar uma história, transmitindo algo que é de verdade”, afirmou.

Jovens atores impressionam pela maturidade

Um dos aspectos que mais surpreendeu a equipe foi o desempenho dos atores mirins, muitos deles sem qualquer experiência anterior diante das câmeras. Catarina relembra uma das cenas mais marcantes das gravações, protagonizada por Samuel.

“Eles nunca tiveram experiência atuando, mas são de uma maturidade. Estávamos atravessando a Ponte da Amizade, o Lucas estava conduzindo a bicicleta e o Samuel atrás. E era uma cena de muita sensibilidade, pois ele tinha que se emocionar. Dei algumas instruções e o Samuel perguntou se era para chorar. Eu disse que deixasse acontecer e, quando ele vira novamente para mim, está aos prantos”, contou.

Um dos aspectos que mais surpreendeu a equipe foi o desempenho dos atores mirins - (Divulgação) Divulgação
Um dos aspectos que mais surpreendeu a equipe foi o desempenho dos atores mirins

Após a gravação, o jovem ator explicou como conseguiu transmitir a emoção exigida pela cena. “Usei a raiva, pois eu achei que meu parceiro de cena estava demorando para realizar a sua fala. A tristeza, pois eu estava muito emocionado. E a alegria de poder estar trabalhando como ator.”

Para Catarina, a descoberta desses talentos é uma das maiores recompensas do projeto.

“Tenho certeza de que esse filme vai emocionar muito as pessoas, e a gente vem com a missão de usufruir dessa terra maravilhosa, que é o Piauí, e de descobrir talentos. Sinto que as pessoas estão muito encantadas e emocionadas”, conclui a produtora Catarina Saibro.