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Tradição de origem africana de mais de 200 anos em Oeiras pode virar Patrimônio Imaterial do Piauí

Congos de Oeiras, grupo folclórico preservado no bairro do Rosário, pode entrar no calendário oficial do estado

03/02/2026 às 15h23

O Congos de Oeiras, manifestação cultural de origem africana com mais de dois séculos de existência na primeira capital do Piauí, pode ser reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do estado e incluído no calendário oficial de eventos piauienses. A proposta é de autoria do deputado estadual Marcus Kalume (PT) e busca preservar uma tradição mantida por moradores do bairro do Rosário, na antiga Vila da Mocha, no sul do estado.

O Congos de Oeiras, tradição resiste há mais de dois séculos no Piauí.  - (Sesc Piauí ) Sesc Piauí
O Congos de Oeiras, tradição resiste há mais de dois séculos no Piauí.

A Dança dos Congos foi trazida para Oeiras no século XVIII por negros vindos do Pará, que acompanharam o então governador da Província, João Pereira Caldas. A manifestação é marcada pelo louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, santos de forte devoção entre os escravizados, e já é reconhecida como Patrimônio Vivo do Piauí. Em 2025, o grupo ganhou projeção nacional ao participar de um dos maiores festivais de folclore do país, realizado em Olímpia, no interior de São Paulo.

Apesar da longa trajetória, a tradição passou por um período de esquecimento a partir de 1942, sendo retomada apenas em 1978, quando o padre João de Deus reuniu moradores do bairro do Rosário para resgatar a manifestação cultural. Desde então, os Congos voltaram a se apresentar de forma contínua, mantendo viva uma herança transmitida entre gerações.

As apresentações ocorrem, tradicionalmente, durante as festas de Nossa Senhora do Rosário, celebrada em 31 de outubro, e de São Benedito, em 6 de janeiro. Os brincantes utilizam saias rodadas e executam danças ao som de instrumentos de percussão, com toadas que variam entre cantos de lamento e ritmos mais animados. Um dos traços singulares da manifestação é o fato de ser composta apenas por homens, que se vestem de mulheres como forma de devoção às santidades, mantendo a tradição no âmbito familiar, de pai para filho.

Deputado Marcus Kalume (PT), é o autor da proposta.  - (Thiago Amaral/Ascom Alepi) Thiago Amaral/Ascom Alepi
Deputado Marcus Kalume (PT), é o autor da proposta.

O uso de santos católicos na celebração está ligado ao sincretismo religioso, prática adotada durante o período imperial e escravocrata, quando expressões culturais e religiosas de origem africana eram reprimidas. Como forma de resistência, negros e negras passaram a associar suas devoções às figuras do catolicismo, garantindo a sobrevivência de seus ritos e manifestações.

Ao justificar o projeto, o deputado Marcus Kalume destacou a relevância histórica e cultural do grupo para Oeiras e para o Piauí. “Os Congos de Oeiras configuram-se como uma das mais autênticas manifestações do Patrimônio Imaterial do povo oeirense e, por conseguinte, do povo do Estado do Piauí, merecendo o devido reconhecimento por parte do Poder Público Estadual”, disse.

A medida ainda deve ser discutida nas Comissões da Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi), se aprovada pelos parlamentares, segue para a sanção do governador Rafael Fonteles (PT).


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