A história do museu remonta a 2015, quando o Coletivo Salve Rainha decidiu ocupar a antiga Câmara Municipal, na rua Climatizada, no centro de Teresina, como forma de reviver espaços abandonados e dar a eles uma nova função. A ocupação chamou atenção e deu origem ao projeto de criação do MIS, inaugurado em dezembro de 2024 como um expoente da arte, da cultura, do audiovisual, da música e da literatura da capital piauiense e do estado.
Quem tentou dar nova vida a esses lugares negligenciados do centro da cidade foi o jornalista Júnior Chagas, criador do Coletivo Salve Rainha. Com a popularidade dos eventos de música e arte que reuniam artistas locais, os espaços passaram a ser reformados, movimento que resultou no MIS. Chagas morreu em um acidente de trânsito no centro de Teresina, em junho de 2016. Ele chegou a ter o nome cogitado para batizar o museu, e o vereador Dudu Borges (PT) chegou a apresentar um requerimento nesse sentido, mas a homenagem acabou sendo dada a Torquato Neto.
Assim como Júnior Chagas, que por muitas vezes não teve devidamente reconhecido seu trabalho, Arnaldo Albuquerque também ficou à margem do reconhecimento. Responsável por desenvolver as primeiras revistas em quadrinhos do estado, além de filmar animações e filmes em Super-8, o artista morreu há 11 anos, e, por muito tempo, teve sua obra invisibilizada e desconhecida, até mesmo por boa parte do meio artístico piauiense, mesmo diante de seu pioneirismo.
A Sala Arnaldo Albuquerque: um tributo ao pioneirismo
A grande novidade do MIS é a Sala Arnaldo Albuquerque, dedicada a um dos artistas mais importantes e, por vezes, mais invisibilizados do Piauí. Pintor, desenhista, fotógrafo, jornalista e cineasta, Arnaldo foi pioneiro na arte dos quadrinhos no estado, é responsável pela criação da primeira revista em quadrinhos genuinamente piauiense, a Humor Sangrento, lançada em 1977.
"Ele foi muito importante para a cultura de Teresina, mas como muitos de nós [artistas], somos invisibilizados de certa forma aqui. O Arnaldo Albuquerque foi tanto do audiovisual, quanto foi quadrinista, foi ele que desenvolveu a primeira revista em quadrinhos do estado.", afirmou Paulo Dantas.
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Arnaldo também participou de importantes obras do cinema piauiense, como o filme "Adão e Eva do Paraíso ao Consumo", que contou com Torquato Neto no elenco e hoje é considerado uma obra perdida. Suas ilustrações estamparam livros e cartazes de eventos que lhe renderam prêmios na Argentina e no México, e ele chegou a produzir, filmar e fotografar animações em Super-8.
Entre as animações filmadas por Arnaldo, destaca-se a animação “Pega Mata e Come”, premiada em diversos estados. Ele também compôs a equipe do Jornal Gamma, o primeiro mimeografado do Piauí, tendo participado também do Jornal O Dia, Hora Fatal, Pasquim, Folha da Manhã, dentre outros.
"Eu tenho quase 30 anos envolvido com arte e antes de estudar para inaugurar a sala, eu não o conhecia. Se eu que tô 30 anos envolvido com arte não conhecia, quem dirá que não tem com a área", analisou o diretor do MIS.
Arnaldo foi um dos mais importantes artistas do estado. Sua trajetória teve início na década de 1950, quando, ainda criança, o contato com as histórias em quadrinhos estadunidenses despertou seu interesse pelo desenho e o levou a produzir suas primeiras obras. Ao longo da carreira, atravessou diferentes períodos da história brasileira, da ditadura militar à redemocratização, explorando linguagens que vão do underground aos traços mais clássicos. Parte dessa produção integra agora o acervo do MIS, onde sua obra é preservada como referência da produção artística estadual.
Diferente das exposições estáticas tradicionais, a sala foi pensada como espaço multiuso: o acervo sobre Arnaldo ocupa o entorno das paredes, enquanto o vão central recebe aulas, entrevistas e mesas-redondas sem interferência, mantendo a obra do artista sempre presente no cotidiano de quem visita o museu.
O Museu da Imagem e do Som de Teresina
Em entrevista ao O Dia, Paulo Dantas conta que, apesar da inauguração oficial em dezembro de 2024, o museu só começou a funcionar de fato há um ano. "Ele era um prédio novo, tinha uma placa de museu, mas não tinha nada", afirma o diretor. Localizado no emblemático prédio que já abrigou a Câmara Municipal e uma agência do Banco do Brasil, na esquina da rua Climatizada com a rua Barroso, o MIS é administrado pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves (FMC) e atualmente é dirigido pelo músico e professor Paulo Dantas.
Para formar o acervo, o MIS abriu um edital público de doações de materiais sonoros e visuais, que passam por curadoria antes de integrar o espaço. Segundo Dantas, o caminho da doação é o único possível, já que não há como abrir licitação para comprar itens de coleções pessoais, muitas vezes desconhecidos até pelo próprio dono quanto ao valor histórico de fotos, discos, aparelhos eletrônicos, recortes e filmes que hoje podem compor mostras no museu.
O MIS ocupa cinco pavimentos erguidos nas áreas que antes abrigavam a Câmara Municipal e seu estacionamento. A estrutura inclui um cine-auditório, sala multiuso que funciona como cinema, auditório e anfiteatro, galerias, espaços para oficinas, sede administrativa da FMC, além de um café.
O que encontrar no MIS
O Cine MIS, segundo o diretor Paulo Dantas, tenta rememorar os antigos cinemas de rua do centro de Teresina, como o Cine Rex e o Royal. As exibições de filmes acontecem a cada 15 dias, aos sábados à tarde, com foco em cinema brasileiro e filmes de gênero, sempre com entrada gratuita e contrapartida pedagógica.
Paulo Dantas conta que o acervo segue em construção, em fase ativa de coleta de doações de materiais históricos, como aparelhos antigos, mídias e outros itens, que vão compor o arquivo digital e físico da instituição. Paralelamente, o museu recebe escolas e promove oficinas, palestras e exposições voltadas a combater o desconhecimento das novas gerações sobre ícones da cultura local, caso do próprio Torquato Neto.
Além da nova sala de exposição e do cine-auditório, o MIS está preparando o retorno do café, no último pavimento, com previsão para ainda este mês de agosto, em celebração ao aniversário de Teresina.
Quem quiser conhecer mais pode acompanhar o acervo digital no canal do museu no YouTube e a programação cultural pelo Instagram oficial @mis_teresina. Como resume o diretor Paulo Dantas: "O MIS é um patrimônio público, se apodere disso, é gratuito, tudo gratuito".