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Altas habilidades e superdotação exigem compreensão além do desempenho escolar

O desempenho intelectual envolve diferentes aspectos do desenvolvimento e exige um olhar atento da família

10/09/2026 às 08h44

Identificar uma pessoa com altas habilidades ou superdotação vai muito além de observar boas notas na escola ou facilidade para aprender. Embora o desempenho intelectual elevado possa ser um dos sinais, especialistas destacam que a condição envolve diferentes aspectos do desenvolvimento e exige um olhar atento da família, da escola e da sociedade.

A especialista em superdotação Paula Moreira explica que a superdotação é uma característica inata e está relacionada a um desenvolvimento assíncrono. Isso significa que diferentes áreas do desenvolvimento podem avançar em ritmos distintos.

O superdotado, ele enfrenta duas curvas de desenvolvimento: uma curva cronológica, que acompanha o desenvolvimento do corpo, e uma curva mental, que é o desenvolvimento intelectual. Essa diferença de curva que o superdotado tem, traz para o superdotado esse desenvolvimento desigual, que é muito diferente da média

Paula Moreiraespecialista em superdotação

Segundo Paula, essa diferença não deve ser vista como um problema a ser corrigido. Para ela, é justamente nessa característica que está parte do potencial da pessoa superdotada. Nesse sentido, ela defende a necessidade de que ambientes educacionais, família e sociedade permitam que essa pessoa se desenvolva na sua integridade e complexidade.

Entre os sinais que podem aparecer ainda na infância estão o vocabulário avançado, curiosidade intensa, questionamentos frequentes e a necessidade de compreender o sentido das coisas. Paula destaca que crianças com altas habilidades também podem demonstrar interesse por assuntos mais complexos e aprender em um ritmo diferente dos colegas.

“É uma criança que vai questionar tudo, muito curiosa. É uma criança que precisa de sentido e de propósito desde muito pequena. Internamente há um descompasso e isso faz com que o superdotado seja mais profundo. O desenvolvimento intelectual é uma potência e isso traz um enfrentamento. Conviver com lugares passa a ser difícil e precisamos entender isso”, afirma Paula.

Altas habilidades e superdotação exigem compreensão além do desempenho escolar - (Magnific.com) Magnific.com
Altas habilidades e superdotação exigem compreensão além do desempenho escolar

No ambiente escolar, essa diferença pode se tornar ainda mais evidente. De acordo com a especialista, alunos superdotados tendem a apresentar dificuldades quando o ensino é baseado exclusivamente em repetição e memorização.

“Eles querem aprender, mas não de forma fragmentada e decorativa. Eles querem entender o funcionamento. Então, o sistema de ensino precisa ter propósito e vir com significado. A leitura que temos é de que essa criança é imatura, mas isso não é verdade. Essa consciência emocional do superdotado é avançada. O que não acompanha a consciência é a regulação, pois ela depende do rio biológico do corpo. O superdotado aprende muito rápido”, disse

Como identificar um superdotado

Embora a compreensão da superdotação tenha avançado, a avaliação da inteligência continua sendo uma ferramenta importante para a identificação. Paula Moreira explica que o teste de Quociente de Inteligência (QI), entretanto, não deve ser analisado isoladamente.

“Essa criança sempre deve ser encaminhada para um neuropsicólogo, que é o profissional que faz um teste padrão ouro, chamado WISC (Escala de Inteligência Wechsler para Crianças), que identifica se essa criança realmente tem uma inteligência acima da média. E junto com isso tem todo esse desenvolvimento que é peculiar, mais profundo e complexo, que a gente precisa entender”, destaca.

Para a especialista, quanto maior a distância entre a capacidade intelectual e a média da população, maiores podem ser também os desafios relacionados à compreensão e à inclusão dessa pessoa. Por isso, o ambiente precisa acompanhar as necessidades individuais. Na escola, isso pode envolver estratégias como aceleração ou aprofundamento dos conteúdos, de acordo com o perfil e a necessidade de cada estudante.

“Uma criança, na média, vai aprender de 6 a 8 repetições, um superdotado aprende de 1 a 2, e se for um superdotado profundo, de 4 a 5 vezes mais rápido. Então, é preciso respeitar o ritmo dessa pessoas. Se o superdotado precisar de uma aceleração, de um outro ritmo, ele precisa ser feito. Se ele precisar de um aprofundamento vertical, precisa ser feito também. O que a gente não pode é deixar essa pessoa estagnada. Eles precisam de pares mentais para se sentirem pertencentes”, enfatiza.

Paula Moreira ressalta ainda que não existe um único perfil de pessoa superdotada. Na superdotação, há uma heterogeneidade, logo, nenhum superdotado é igual. Compreender essas diferenças é fundamental para que crianças, adolescentes e adultos com altas habilidades encontrem espaço para desenvolver seu potencial sem precisar se adaptar a um modelo único.