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O ERRO ESTRATÉGICO SOBRE A GROENLÂNDIA

Ao buscar o controle total da Groelândia através da coerção de seus aliados, os EUA correm o risco de ganhar um território gelado, mas perder a rede de alianças globais que sustenta sua própria força estratégica.

18/01/2026 às 12h26

O degelo do Ártico, acelerado pelo aquecimento global, transformou a periferia setentrional do mundo no novo centro da competição entre grandes potências. A abertura de novas rotas marítimas comerciais e o acesso a jazidas de gás e terras raras alteraram permanentemente a geopolítica da região.

A ameaça é real. A Rússia não apenas controla 80% do gás do Ártico, mas tem militarizado sistematicamente a região nas últimas duas décadas, reativando bases da era soviética para projetar poder sobre o Atlântico Norte. Simultaneamente, a China infiltra-se de forma insidiosa através de parcerias econômicas e empresas de fachada, buscando garantir sua posição como uma potência na Região. Para o Ocidente, a Groenlândia representa o "porta-aviões imóvel" necessário para monitorar e conter tais movimentos.

Em face da ameaça representada pelas presenças russas e chinesa na Região, a atual Administração norte-americana anuncia, bem ao estilo de Trump, a sua pretensão de anexação da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, membro da OTAN e da União Européia, alegando que a eficácia do novo sistema norte-americano de defesa antimísseis depende do controle soberano do território groenlandês para otimizar ângulos de detecção e interceptação de mísseis inimigos. A Casa Branca descreve a Dinamarca como um país com uma "economia e exército minúsculos", incapazes de exercer controle real sobre o vasto território ártico.

No entanto, todas as exigências de segurança apresentadas por Washington como justificativa para as suas pretensões sobre a Groelândia podem ser plenamente satisfeitas sem o custo político e diplomático da anexação da ilha. O Acordo de Defesa de 1951 já concede aos EUA direitos extensos para operar infraestruturas críticas na Groelândia, como a Base Militar de Pituffik, antiga base aérea de Thule, que serve como um pilar de vigilância global. Como aliado exemplar da OTAN, a Dinamarca sempre demonstrou disposição para expandir a presença militar americana sob o guarda-chuva da Aliança Atlântica e novos acordos bilaterais necessários para a implantação do sistema Golden Dome, a defesa antimíssil inspirada na Guerra nas Estrelas de Ronald Regan, poderiam ser ratificados rapidamente, garantindo a satisfação das necessidades dos EUA, enquanto preservam a soberania aliada.

A iniciativa de anexação forçada, é impulsionada por ameaças de tarifas progressivas de 10% a 25% contra aliados europeus que se opõem à pretensão dos EUA. A medida anularia o acordo de estabilidade de julho de 2025, que prevê um teto tarifário de 15% para a maioria das exportações da União Europeia (UE) para os EUA, impondo tarifas de 25% sobre produtos europeus de alta demanda nos EUA, o que aumentaria o custo de vida para o consumidor americano, gerando pressões inflacionárias internas em um ano eleitoral. O custo econômico de uma guerra comercial de longo prazo supera o valor geopolítico da anexação, quando os objetivos de defesa já são atendidos por tratados existentes.

A estratégia de Trump de isolar os oito países europeus que resistem à iniciativa da Casa Branca (Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia), em vez de tarifar toda a UE, visa fragmentar o bloco, mas a resposta lógica da Comissão Europeia será o de tratar as tarifas como um ataque a todo o mercado comum e valer-se do mecanismo anti-coerção para amplificar a retaliação, o que pode aumentar a eficiência das medidas, ao tempo em que fortalece os laços entre os membros da UE.

A iniciativa de Washington pode ocasionar, paradoxalmente, uma série de vulnerabilidades auto infligidas aos EUA, enfraquecendo sua defesa em vez de fortalecê-la. Ao ameaçar a integridade territorial de um aliado, Washington destrói a confiança no Artigo 5º da OTAN, sinalizando para a Rússia e a China que a defesa coletiva ocidental é agora fragmentada e vacilante. A hostilidade contra a Europa pode resultar na perda de acesso a bases vitais para os EUA, como a de Ramstein, na Alemanha, e prejudicar o acesso dos EUA a aeródromos britânicos essenciais para operações americanas no Oriente Médio e na África e para a capacidade norte-americana de monitorar e combater ameaças na região do Ártico, podendo, ainda, degradar a cooperação em inteligência entre países como a Noruega e o Reino Unido, da qual depende a segurança da Região polar.

Embora a Casa Branca invoque a defesa antimíssil para justificar suas pretensões sobre a Groelândia, as evidências apontam que a verdadeira motivação da Administração norte-americana é o acesso a reservas estratégicas de recursos naturais e o controle sobre rotas maritimas que se abrem com o degelo do Ártico. A Groenlândia possui cerca de 36 milhões de toneladas de terras raras, materiais vitais para a indústria tecnológica e de defesa moderna, das quais pelo menos um milhão são consideradas exploráveis com a tecnologia atual. Figuras próximas da Trump, como o herdeiro da Estée Lauder (multinacional de cosméticos norte-americana), Ron Lauder, têm manifestado interesse direto nos materiais sob o permafrost, o solo que permanece completamente congelado na ilha.

Todavia, assim como o interesse relacionado à defesa, também o acesso a recursos naturais seria possível sem a necessidade de anexação do território pertencente ao país aliado. O acesso às terras raras pode ser garantido através de concessões de exploração de mineiras e parcerias público-privadas, seguindo o modelo utilizado no mercado internacional, o que evitaria as consequências diplomáticas de uma invasão ou o custo de 700 mil milhões de dólares estimado para a compra do território.

A retórica pela anexação forçada projetam nos EUA a imagem de uma nação que ignora o direito internacional e intimida os seus próprios aliados. Ao infringir a soberania territorial de um Estado-membro da NATO, o qual se comprometeu a defender, os EUA violam os princípios fundamentais da aliança e destroem a confiança erigida em 75 anos de defesa coletiva.

Embora Trump utilize uma retórica de segurança nacional, sondagens indicam que apenas 17% dos americanos apoiam o projeto de anexação. A vasta maioria da população norte-americana (71%) rejeita totalmente a utilização da força militar para este fim, evidenciando uma disritmia entre as ações do presidente e o desejo dos seus cidadãos. Delegações do Congresso americano, compostas por democratas e republicanos, em visita à Europa, têm manifestado a sua oposição ao projeto de Trump, enfraquecendo a sua autoridade política interna.

Entre a população da Groenlândia, a rejeição à proposta de anexação pelos Estados Unidos é esmagadora, 85% são contra, 6% a favor e 9% indecisos. Milhares de cidadãos groenlandeses tomaram as ruas da capital, Nuuk, para protestar contra a violação do seu direito de autodeterminação. Um repúdio popular tão massivo coloca os líderes da Groenlândia numa posição de absoluta impossibilidade política de aceitar passivamente a proposta de aquisição da ilha pelos EUA, o que demonstra um equívoco na estratégia de abordagem da Administração norte-americana.

A imagem de uns EUA hostis aos seus parceiros históricos só atende a interesses estratégicos de seus adversários, em especial da Rússia e da China, que observam alegremente a desintegração da unidade ocidental provocada pela postura de Washington.

Ao buscar o controle total da Groelândia através da coerção de seus aliados, os EUA correm o risco de ganhar um território gelado, mas perder a rede de alianças globais que sustenta sua própria força estratégica. Com isso, os EUA ganham uma ilha, mas perdem um continente.