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O ECLIPSE DO IRÃ

COMO A DECAPITAÇÃO DO REGIME IRANIANO PODE FRUSTRAR AS ESTRATÉGIAS DA CHINA E DO BLOCO ÁRABE E LANÇAR O CAOS NA REGIÃO

01/03/2026 às 22h51

Tudo começou com um erro de avaliação. Forte no sucesso da operação de captura de Maduro, na Venezuela, Trump achava que a demonstração de força dos EUA seria suficiente para forçar o Regime iraniano a negociar a limitação dos programas nuclear e de mísseis, bem como o apoio aos proxies iranianos nos países árabes vinhos. Com a resistência de Teerã, ficou claro para os EUA que tais programas não eram negociáveis para o Regime dos mulás. Restou evidente que o Regime usaria qualquer alívio de sanções para fortalecer seus mísseis e proxies; e que a superação da ameaça nuclear só poderia ser alcançada com a eliminação da estrutura de poder que a sustenta.

Havendo movido o centro de gravidade de sua Marina para a campanha no Oriente Médio - cerca de 40% a 50% de toda a sua capacidade de projeção de poder naval - os EUA não poderiam simplesmente recuar diante da resistência iraniana. Assim, em 28/02/2026, o Oriente Médio testemunhou a decapitação do regime iraniano, com a eliminação simultânea do Líder Supremo e da cúpula da Guarda Revolucionária (IRGC) por um ataque conjunto dos EUA e de Israel, que adotaram uma estratégia explícita de Regime Change (Mudança de Regime) para o Irã.

Não apenas o Irã foi pego de surpresa, mas também a China, que esperava um ataque limitado dos EUA e de Israel, como tática de pressão para um novo acordo diplomático que evitasse a “bomba iraniana”. Historicamente, a China opunha-se ao programa nuclear do Irã, pois a nuclearização do país poderia desencadear uma corrida armamentista na Ásia, incentivando rivais como Japão, Coreia do Sul e Austrália a buscarem armas nucleares, para conter a assertividade chinesa.

Também não é interesse da China um Irã forte, porque as monarquias do golfo, nas quais a China tem interesses mais relevantes do que em relação ao Irã, seriam os alvos potenciais do Regime dos mulás fortalecido e um conflito Regional bloquearia as rotas de navegação vitais para as importações de energia chinesas. Assim, Pequim não deseja um Irã forte, mas tão pouco o seu colapso, que neste caso poderia dar lugar a um governo pró-Ocidente. À china interessa a manutenção do status quo, em que ela se beneficia da dependência crescente de Teerã, que é tanto maior quanto mais o país se vê isolado e pressionado pelos EUA.

Por estas razões, apesar dos laços estreitos com o Irã, Pequim se limitou a criticar as ameaças dos EUA e de Israel, sem fornecer suporte material para o Irã, salvo quanto a tecnologia de "uso duplo" (militar e civil), utilizada na indústria de mísseis e drones iranianos. A moderação chinesa em relação ao Irã também é vista como uma moeda de troca. Às vésperas de uma visita de Donald Trump à China, em abril de 2026, Xi Jinping pode estar suavizando o discurso sobre o Irã para obter concessões em temas prioritários para o interesse nacional da China, como Taiwan e acordos comerciais.

Pequim contava, todavia, com um irã suficientemente forte para distrair os EUA, consumindo recursos militares e financeiros norte-americanos no Golfo, ao tempo em que o Regime dos mulás se mantinha totalmente dependente da tecnologia e da diplomacia chinesa, bem como da venda de energia a preço de ocasião para a China. 80% das exportações marítimas de petróleo do Irã se dirigiram à China, em 2025, através da Frota Fantasma, driblando as sanções internacionais, com preços reduzidos em torno de US$ 15,00 a US$ 20,00 por barril, o que resulta em uma economia anual de US$ 6,5 a US$ 8 bilhões para a China.

A China nunca foi um aliado ideológico do Irã, mas o colapso do regime iraniano diante da passividade da China reforçaria a impressão de que a China é um parceiro pouco confiável e esvaziaria a retórica chinesa de ascensão do Oriente, que apresenta a China como líder do Sul Global, à frente de uma alternativa à hegemonia dos EUA, através da GSI (Global Security Iniciative), uma proposta de arquitetura de segurança internacional lançada pelo presidente chinês Xi Jinping em abril de 2022, em resposta ao sistema de alianças liderado pelos Estados Unidos, como a OTAN.

Também foram surpreendidos pelo ataque conjunto dos EUA e de Israel, perpetrado em 28/02, os países integrantes do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Catar e Omã) e potências regionais externas ao Golfo, como Turquia e Egito, os quais antes clamavam por linha dura contra o Irã, mas ultimamente passaram a fazer lobby contra uma intervenção militar dos EUA.

Anteriormente, entre 2003-2023, líderes regionais temiam a expansão da influência iraniana no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. Todavia, depois dos reveses que o Irã e seus proxies sofreram pela reação de Israel ao ataque terrorista perpetrado pelo Hamas, em 07/10/2023; a queda do regime de Bashar al-Assad, na Síria; e a Guerra dos 12 Dias, entre Israel e Irã, a percepção mudou. O Irã passou a ser visto como uma potência enfraquecida, enquanto Israel é percebido como a principal ameaça expansionista na Região, sendo notado como imprevisível, especialmente após o ataque israelense a Doha em setembro de 2025.

As potências regionais temem o caos decorrente do vácuo de poder resultante da queda do Regime dos mulás; a fragmentação étnica no Irã e a consequente migração em massa; a quebra do equilíbrio de poder, que pode permitir a Israel remodelar a Região segundo os seus interesses; e o terrorismo transnacional que pode eclodir de um Irã em chamas. No entanto, os seus esforços não foram suficientes para evitar a intervenção externa que pode deixar um rastro de destruição e caos para os vizinhos limparem.

À luz dos últimos acontecimentos, desenha-se como mais provável o segundo cenário previsto no artigo “A Crise Interna no Irã”, relativo à resistência desesperada e isolamento total do Regime dos mulás, com fortíssima tendência de degeneração para o terceiro cenário: o caos e a fragmentação definitiva do Estado iraniano.