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AUTODENOMINADO DEUS

19/04/2026 às 02h32

O cenário geopolítico mais recente revela Donald Trump operando em um isolamento sem precedentes. Com índice de aprovação em queda nos EUA e uma dissidência crescente dentro de seu próprio partido, o presidente norte-americano parece ter abandonado a política tradicional em favor de uma performance messiânica, diante da iminência de uma derrota histórica nas eleições de midterm, depois da acachapante derrota de seu apadrinhado político, Victor Orban, na Hungria.

Na terceira semana de abril de 2026, em um momento de extrema tensão geopolítica e isolamento institucional do presidente Donald Trump, a narrativa de autodivinização utilizada para sustentar sua base eleitoral diante de resultados diplomáticos e econômicos questionáveis alcançou o ápice, quando Trump compartilhou um meme que se retratava visualmente "nas vestes de Jesus Cristo". A narrativa messiânica foi validada por membros de seu gabinete. O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, em coletiva oficial no Pentágono, comparou os jornalistas aos fariseus que perseguiam Cristo, reforçando a imagem de Trump como uma figura sagrada injustiçada.

A utilização de uma iconografia religiosa surge logo após ataques públicos de Trump ao Papa Leão XIV, devido a críticas do Pontífice ao presidente. Ao se "divinizar", Trump tenta anular a autoridade moral da Igreja sobre seus eleitores católicos.

Quando Trump foi banido das redes sociais por abuso do emprego de fake News, ele criou a sua própria rede social, a Truth Social. Agora, em litígio aberto com o Papa, ele se autodenomina Deus. O passo sucessivo pode ser a criação da sua própria religião MAGA. Com a inflação em alta e a popularidade em queda, Trump substitui a retórica secular, baseada na entrega de resultados econômicos, pela retórica messiânica, através da sua “sacralização”. Sob a ameaça de uma derrota nas eleições de meio de mandato de 2026, a estratégia adotada consiste em transformar o voto político em um ato de fé religiosa.

Pete Hegseth citou o profeta Ezequiel, no Pentágono, para atacar a imprensa, mas omite que em Mateus (24:4-5 e 24) leciona-se que o próprio Jesus advertiu: “Cuidado, que ninguém os engane. Pois muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Eu sou o Cristo!’, e enganarão a muitos... pois surgirão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos'.". Também em Marcos (13:5-6) vê-se que Jesus dizia: “Muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’, e enganarão a muitos.”.

Trump apresenta o cessar-fogo de 15 dias com o Irã e a efêmera reabertura do Estreito de Ormuz como um milagre diplomático. No entanto, foi o próprio Trump, com a sua “Diplomaria do Martelo” quem iniciou o conflito com o Irã, que resultou no fechamento sistêmico e formal do Estreito, como nunca tinha ocorrido antes.

Menos de 24 horas depois do anúncio de Trump de que o Estreito de Ormuz estaria definitivamente aberto, a Guarda Revolucionário do Irã novamente anunciou o fechamento da passagem marítima. O chefe da Agência Internacional de Energia afirma que o choque energético provocado pelo conflito é pior do que as crises de 1973, 1979 e 2002, somadas. Os dados da Bloomberg mostram que o tráfego de navios no estreito caiu 94%, as exportações de óleo combustível caíram 88%, as de combustível para aviões 85% e as de gás liquefeito 65%. O Qatar teve um quinto das suas plataformas de produção de gás natural liquefeito (GNL) destruídas durante a guerra, o que exigirá anos de reconstrução.

Ao retratar-se como Jesus Cristo, o presidente se apresenta como o único capaz de "apagar os incêndios" globais, referindo-se a Gaza, ao Líbano e ao Irã, sendo este último um incêndios que ele próprio ateou. O cessar-fogo de 10 dias no Líbano, imposto por Trump a Israel, na guerra contra o Hezbollah, fez com que Israel, sob pressão de Washington para aceitar a trégua, intensificasse os bombardeios nas 24 horas anteriores, matando 350 pessoas em 10 minutos para "maximizar os danos" antes da pausa. Na faixa de Gaza, embora Trump reivindique a paz, o Hamas ainda controla 55% do território e a guerra não acabou, apenas Israel moderou a intensidade para atender os fins eleitorais nos EUA. Os grupos beligerantes, Hezbollah e Hamas, sequer assinaram os termos de paz, mantendo as mãos no gatilho, aguardando o próximo round.

Em grande parte, os conflitos atuais são desdobramentos do abandono pela primeira administração Trump, em 2018, do o acordo nuclear multilateral firmado na gestão de Barack Obama, para conter as ambições atômicas de Teerã. O acordo era considerado tecnicamente bem sucedido pela comunidade internacional. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou repetidamente que o Irã estava cumprindo todas as determinações do acordo, em especial o compromisso de enriquecimento de urânio no limite de 3,67%, um nível adequado apenas para o fim civil de geração de energia. O Irã aceitava o regime de inspeções mais intrusivo do mundo, garantindo que o seu programa permanecesse limitado a fins pacíficos.

Ao abandonar o acordo, o governo Trump restabeleceu sanções econômicas severas, visando paralisar o comércio de petróleo iraniano e forçar uma capitulação do regime, o que nunca aconteceu. Depois de um ano, o Irã iniciou um processo de descumprimento progressivo do acordo, em resposta à campanha de Pressão Máxima dos EUA, retomando o enriquecimento de urânio a 20%, em janeiro de 2021, na central subterrânea de Fordo, e passando a enriquecer o mesmo a 60% em abril do mesmo ano, sendo este o limiar técnico para o nível militar. Relatórios indicam que o Irã acumulou cerca de 450 kg de urânio enriquecido a 60%, suficientes para nove ogivas nucleares. Especialistas apontam que o salto técnico de 60% para 90%, nível necessário para uma bomba, é muito mais curto e rápido do que as etapas iniciais de enriquecimento, o que forçou as ações militares dos EUA e de Israel contra os sítios de enriquecimento de urânio do Irã, como resultado do abandono da diplomacia em favor de uma postura confrontacional.

Durante os 40 dias de bombardeio, a guerra custou cerca de US$ 2 bilhões por dia aos EUA, forçando o país, que já responde por uma dívida pública de US$ 39 trilhões, a imprimir mais dólares, agravando a tendência de alta da inflação global decorrente do choque energético, o que obriga os banco centrais de todo o mundo a manter as taxas de juros altas por mais tempo, o que importa em aumento das prestações do crédito habitacional e na elevação do spread dos títulos públicos.

Na campanha eleitoral, Trump prometeu restaurar a grandeza da América através da prosperidade econômica e da retirada do país de conflitos externos, mas o seu segundo mandato entrega justamente o oposto. Ao substituir a retórica baseada em resultados tangíveis pela iconografia do "Messias", Trump não busca cumprir as promessas de campanha, mas sim converter o fracasso de sua gestão em um objeto de fé cega, onde a inflação e a insolvência fiscal são tratadas como provações espirituais e não como erros de um administrador que malogrou.