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O engodo das propostas genéricas nas campanhas eleitorais

23/08/2026 às 13h55

23/08/2026 às 13h55

Estamos oficialmente em campanha eleitoral: nas ruas, na internet, nas rodas de conversas. Os debates eleitorais também já começaram e em breve entrarão em cena a propaganda eleitoral gratuita na TV e no rádio. Agora, de fato, o voto do eleitor é o principal alvo dos candidatos e, claro, as propostas começarão a aparecer (ou não) transformando o período eleitoral em uma grande vitrine de ilusões e retórica.

É aqui onde entra com maior intensidade o discurso político que, historicamente no Brasil, opera sobre a lógica da abstração. Durante as campanhas, os candidatos ancoram-se em promessas genéricas: "melhorar a saúde", "revolucionar a educação", "combater a violência", “criar mais empregos”, “retomar o crescimento”, entre outras. Tudo isso, sem jamais apresentar o nexo causal, a viabilidade orçamentária ou o plano de execução para atingir tais metas. Prática que alimenta o clientelismo e instrumentaliza a vulnerabilidade social dos eleitores.

 

Essa temática da viabilidade das propostas apresentadas pelos políticos em suas campanhas é um dos pontos que trato no meu livro “Para Onde Caminham as Ovelhas”, lançado no final de 2023, que discute a condução política do Brasil após a Constituição de 1988. E sempre que eu abordo o assunto, eu ressalto que tais propostas precisam ser justificadas, plausíveis, inclusive quanto à forma de viabilizá-las nos seus aspectos orçamentários. Desse modo se evitaria que propostas esdrúxulas ou meramente “eleitoreiras” fossem realizadas.

Não poderia ser aceita, por exemplo, uma proposta que simplesmente diz que o problema da educação é a falta de escolas e que por isso, caso eleito, iria construir escolas. Não. É preciso comprovar com um conhecimento técnico-científico, que passa por análise estatística de dados e informações reais e sérias, que efetivamente a construção de escolas resolverá o problema da educação. Mas não só isso. É preciso também informar de onde sairão os recursos para as obras, instalações, manutenção e, inclusive, de pessoal, como professores etc. Isto, aliado a outras sugestões, impediria que aventureiros e aproveitadores da boa-fé do povo, resolvessem enveredar pela política e aventurar-se de serem gestores da coisa pública sem o menor conhecimento do que isso efetivamente significa.

Chamo a atenção para a importância desse momento eleitoral, porque as propostas poderiam ser analisadas por corpos técnicos, formado por pesquisadores e cientistas das mais variadas áreas, homologando-as como viáveis e factíveis, sendo possível ainda se criar todo um debate em torno dessas propostas. Um debate honesto, limpo, técnico, sem retórica, acusações e falácias, mas sobre o próprio interesse da sociedade e seu alinhamento com as ideias propostas. Enfim, um debate muito diferente do que se tem visto ao longo da história política brasileira pós Constituição de 1988.

O registro das propostas, aliado à análise e ao debate sobre a própria conveniência e oportunidade dela, teria o condão de trazer outro nível à política brasileira. Seria uma forma de fazer com que os compromissos assumidos pelos candidatos eleitos, com as soluções apontadas e consubstanciadas em suas propostas de campanha, fossem de fato implementados, com a certeza também de que eles seriam cobrados e fiscalizados no cumprimento das referidas soluções.

Mais do que uma mera diretriz ética, penso que a apresentação de propostas viáveis e a consequente prestação de contas durante o mandato deveriam constituir o pilar de uma verdadeira reforma política. Essas mudanças também serviriam para construir um histórico dos políticos, sendo bastante úteis para as eleições futuras, posto que esse trabalho deva ser feito a cada nova eleição, oportunizando à população a possibilidade de fazer um comparativo entre o prometido e o realizado, com a identificação dos candidatos que cumpriram mais ou menos com o que prometeram.

Em plena campanha eleitoral, quando os discursos se inflamam e as promessas (algumas sem pé nem cabeça) se multiplicam, essa reflexão é um alerta não apenas aos políticos, mas também nos eleitores, que devem deixar a postura passiva e utilizarem as ferramentas de comunicação disponíveis para questionar a viabilidade do que lhes é prometido. Somente quando o eleitor exigir viabilidade e coerência técnica, a política deixará de ser um teatro de ilusões para se tornar, finalmente, um instrumento real de transformação social.

arquivo pessoal