Há sons que atravessam o tempo. Sons que não apenas marcam as horas, mas organizam a vida, moldam a memória e nos devolvem, mesmo à distância, ao lugar de onde nunca saímos por completo. Foi assim, recentemente, ao me hospedar ao lado da Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma. Ali, os sinos badalavam com uma precisão quase solene: cada toque correspondia a uma hora, seguido por uma batida mais suave anunciando os quinze minutos. Um sistema simples, antigo, mas profundamente humano.
E foi nesse som europeu, carregado de história, que me reencontrei com Oeiras.
Guardadas as proporções, a pequena e religiosa cidade piauiense, a mais devota do estado, mantém uma tradição de Semana Santa que não deve nada a muitos centros históricos da Europa. Em Oeiras, os sinos também não eram apenas sons — eram guias. Eram eles que marcavam o despertar, o momento de ir à missa, a hora de encontrar os amigos na praça ou de correr para uma partida de futebol. Mais do que isso, os sinos eram a própria rotina transformada em música.
Mas, entre todas as lembranças, nenhuma é tão viva quanto a da minha avó Beliza — dessas figuras raras que parecem saídas das histórias infantis, mas que existiram de verdade: firmes, afetuosas e inesquecíveis. Era ela quem, ao primeiro badalar da matriz, anunciava com naturalidade: “Já são sete horas, é hora do café” — e café, ali, não era apenas uma bebida. Era um ritual de afeto e, acima de tudo, amor servido à mesa. Mais do que marcar as horas, ela dava sentido a elas. Tornou-se, para mim, símbolo e referência — dessas presenças que educam sem esforço, acolhem sem medida e permanecem, mesmo depois do silêncio dos sinos.
Roma tem sua imponência, suas basílicas majestosas, suas ruas que respiram história em cada pedra. Oeiras, por sua vez, tem alma. E talvez seja isso que as aproxime tanto. Caminhando por Roma, não pude deixar de reconhecer algo familiar: as igrejas que pontuam a paisagem, as ruas que convidam à contemplação, o ritmo mais lento que respeita o tempo.
Mas se há um ponto em que não há comparação possível, é no povo. Oeiras é imbatível.
Ali estão as amizades que o tempo não apaga, a praça onde a vida acontecia, o cinema que encantava, o Café Oeiras que reunia histórias, o futebol que ensinava companheirismo, o mercado pulsante José Lopes da Silva, o riacho do Mocha que testemunhava nossas descobertas, e até a irreverência da “Porca Vergonha”, símbolo de uma cultura viva, espontânea e única.
Roma me encantou. Mas foi Oeiras que me formou. E entre os sinos que ecoam pelas ruas italianas e aqueles que ainda ressoam na memória do sertão piauiense, percebo que o verdadeiro tempo não é aquele marcado pelas horas — mas aquele guardado no coração.
Porque há lugares que visitamos. E há lugares que nunca nos deixam partir.
Jefferson Campelo - médico
Roma me encantou. Mas foi Oeiras que me formou. E entre os sinos que ecoam pelas ruas italianas e aqueles que ainda ressoam na memória do sertão piauiense, percebo que o verdadeiro tempo não é aquele marcado pelas horas — mas aquele guardado no coração.