Portal O Dia - Notícias do Piauí, Teresina, Brasil e mundo

WhatsApp Facebook x Telegram Messenger LinkedIn E-mail Gmail

E a economia em 2026? Especialista prevê manutenção dos altos juros e políticas de austeridade

Economista Fernando Galvão traça cenário desafiador para a economia do Brasil em 2026; o Piauí, apesar do crescimento acima da média do Nordeste, deve seguir estagnado no ranking de capacidade produtiva.

01/01/2026 às 16h51

Após um 2025 marcado por instabilidades no cenário econômico global, o Brasil chega a 2026 diante de um ambiente ainda considerado adverso para o crescimento sustentável e duradouro. Juros elevados, inflação resistente, taxações comerciais impostas pelos Estados Unidos e um ritmo moderado de crescimento seguem pressionando os investimentos produtivos, fundamentais para o desenvolvimento de longo prazo, a geração de empregos e o aumento da competitividade.

Especialista prevê manutenção dos altos juros e políticas de austeridade - (Marcello Casal Jr./Agência Brasil) Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Especialista prevê manutenção dos altos juros e políticas de austeridade

Em entrevista à O Dia TV, o economista e professor Fernando Galvão analisou as perspectivas para a economia brasileira em 2026 e apontou que a política monetária deve continuar impactando negativamente a atividade produtiva. Segundo ele, a taxa básica de juros exerce influência direta sobre todo o sistema financeiro.

"O juros do banco central, que é a Selic, ele é um deve funcionar como um balizador com uma referência para outras taxas de juros que são praticadas na economia brasileira. O detalhe é que, como nós temos um sistema bancário muito concentrado - são cinco grandes bancos que comandam toda a economia -, nós temos um juro de Cheque Especial na faixa dos 150% ao ano, cobrando taxas no cartão de crédito dos bancos de, em média, 400% ao ano. Ou seja, quando o Banco Central estabelece um juro de 15%, todas essas outras taxas, se já são descoladas, elas descolam ainda mais para cima, endividando as pessoas, aumentando o custo dos empréstimos, dos financiamentos e isso vai sacrificando o lado produtivo da economia. Uma coisa curiosa é que apesar desse freio de arrumação que o Banco Central estabelece, o Brasil hoje se encontra com uma taxa histórica de desocupação em mínimas históricas, isso acaba elevando a massa salarial. Mas, volto a dizer: o impacto negativo é que se isso poderia se reverter em mais consumo, esse desemprego em baixa, ao mesmo tempo o juro alto aumenta o endividamento e aí compromete os setores industrial e varejo principalmente", disse.

Para Galvão, a combinação entre juros elevados e foco excessivo no ajuste fiscal tende a aprofundar as dificuldades em 2026. Ao comentar o debate sobre austeridade, o economista avaliou os impactos das políticas de contenção de gastos sobre a economia real.

"O mais grave na economia brasileira era a aplicação do teto de gastos, porque o teto de gastos ele cortava os gastos públicos passando a mesma régua sobre todos, e a definição era que por 20 anos seria reajustado só a uma taxa de inflação. Esse corte de gastos indiscriminado corta inclusive gastos que poderiam gerar aumento de receita futura. Hoje, a gente tem um arcabouço fiscal que dá uma folga a mais para o gasto, desde que haja a ampliação das receitas. Então a gente precisa entender que na atividade econômica, alguns objetivos macroeconômicos são o crescimento da atividade econômica, geração de trabalho e de renda, controle da inflação, estabilidade, são os objetivos macroeconômicos que de fato não são tão simples; precisa-se uma engenharia econômica para equilibrar todos esses elementos", afirmou.

Mas a ênfase muito forte na austeridade, no ajuste fiscal acaba que sacrificando a atividade econômica no dia a dia das empresas, das famílias, do comércio, da indústria e quem muito se beneficia disso, no final das contas, são as operações especulativas... é o sistema bancário que independente de crescimento econômico ou crise. Batem recordes e recordes de lucro!

Fernando GalvãoEconomista
Economista Fernando Galvão - (Assis Fernandes/ODIA) Assis Fernandes/ODIA
Economista Fernando Galvão

O economista também alertou que, no Brasil, o nível atual dos juros limita a capacidade de enfrentamento de problemas estruturais. "No Brasil, uma taxa de juros como a que a gente cobra, ela asfixia a atividade econômica e uma série de ações de políticas públicas são muito importantes para enfrentar o grande problema da sociedade brasileira, que é a desigualdade social."

No comércio exterior, o cenário para 2026 ainda carrega reflexos das medidas adotadas em 2025, especialmente a taxação norte-americana sobre produtos brasileiros. Embora algumas tarifas tenham sido retiradas, outras permanecem e seguem influenciando a balança comercial, em um contexto de reconfiguração das relações com Estados Unidos e China.

Ao comentar o chamado tarifaço, Galvão destacou a dependência brasileira de commodities e os riscos geopolíticos. "O Brasil tem como maior parceiro econômico, o maior comprador de produtos brasileiros é a China, é a grande parte da pauta, sobretudo porque nossa pauta de exportação é muita grande, e commodity são produtos com baixo valor agregado. Então somos recordistas em exportação de soja, de café, de milho, feijão, de carne. São produtos com baixo valor agregado e nesse sentido a taxação dos Estados Unidos, liderados pelo presidente Trump, ela vai comprometer uma parte dessa pauta, não é a principal, não é a maior, mas compromete uma parte."

O economista citou impactos diretos em economias regionais, como o mercado de mel no Piauí. "É muito expressiva, por exemplo, o mercado de mel aqui do Piauí, concentrado em Picos e Oeiras, foi duramente afetado porque eles exportam a maior parte para a economia americana." Segundo ele, diante da instabilidade nas relações comerciais, o Brasil precisa ampliar mercados. "(Em 2026) quando o presidente americano ameaça romper diplomaticamente relações que datam de 200 anos entre Brasil e Estados Unidos, ao Brasil cabe uma estratégia que precisa ser muito bem estruturada para buscar outros mercados".

Outro ponto destacado foi a renda das famílias. Para Galvão, o salário mínimo previsto de R$ 1.621 não cobre o custo de vida. "É por isso que eu digo que o grande problema brasileiro é a desigualdade econômica e social. Porque o salário mínimo ideal para custear essa carestia que nós temos no mercado de consumo, estaria na faixa de 6 mil reais, um pouco mais de 6 mil reais." Ele relaciona essa defasagem ao alto endividamento das famílias. "Então, de fato, esse patamar proposto não dá conta desses gastos é por isso que a maior parte das famílias usam como uma extensão desse salário mínimo o cartão de crédito ou o cheque especial".

Piauí deve crescer acima da média nacional, porém estagnado na capacidade produtiva

No recorte regional, o Piauí apresenta crescimento acima da média do Nordeste e do Brasil, mas enfrenta limites estruturais. "O Piauí vem crescendo a uma taxa maior do que a média do Nordeste e do que a média do próprio país, do próprio Brasil. O detalhe é que como somos uma economia baseada em serviços simples, a gente tem um crescimento grande, e ao mesmo tempo a gente não consegue uma mobilidade econômica dentro do ranking de capacidade produtiva e de contribuição para o PIB nacional."

Economia do Piauí é baseada em serviços simples. - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Economia do Piauí é baseada em serviços simples.

Fernando Galvão aponta setores com potencial de dinamizar a economia estadual, como infraestrutura, construção civil, energias renováveis, agronegócio, turismo e mineração. No entanto, defende uma mudança de modelo. "É muito importante que o estado Piauí tenha um projeto endógeno de crescimento, estou falando de um projeto que cresça ou que se desenvolva de dentro para fora".

Como exemplo, ele cita a mineração. "A gente tem na mineração fontes de fosfato, fontes de calcário, é sermos capazes de processar isso e produzir fertilizante mineral para a nossa própria agropecuária". Para isso, segundo ele, investimentos logísticos serão decisivos. "Avançado investimento de infraestrutura na linha férrea porque investimentos em mineração vão se intensificar se tivermos linhas férreas para fazer esse transporte logístico, por exemplo".

Diante desse cenário, a projeção para 2026 é de desafios como o crescimento limitado, pressão dos juros sobre o setor produtivo e a necessidade de estratégias mais articuladas para reduzir desigualdades e fortalecer a economia interna.


Você quer estar por dentro de todas as novidades do Piauí, do Brasil e do mundo? Siga o Instagram do Sistema O Dia e entre no nosso canal do WhatsApp se mantenha atualizado com as últimas notícias. Siga, curta e acompanhe o líder de credibilidade também na internet.