Há algumas décadas, Teresina ainda ostentava o título de “cidade verde", expressão atribuída à capital pelo poeta maranhense Coelho Neto durante sua visita à cidade em 1899. Contudo, com o avanço da urbanização, as áreas verdes foram significativamente reduzidas em meio ao desmatamento provocado pela construção de empreendimentos imobiliários e empresariais. Hoje, a capital piauiense não apenas se afastou da imagem que tanto lhe rendeu o título, como também figura entre as cidades mais quentes do país.
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Para amenizar os prejuízos ambientais ocorridos ao longo dos anos em razão do crescimento urbano, melhorar as condições climáticas para os teresinenses e garantir a proteção das diversas espécies da fauna, foi criado o Plano Diretor de Arborização Urbana de Teresina (PDAU) 2024. O documento estabelece diretrizes para a arborização da cidade com horizonte temporal de 20 anos.
A partir de um levantamento por amostragem de informações quali-quantitativas, realizado em 2023, em cada uma das quatro zonas administrativas da cidade, o diagnóstico identificou o quantitativo de árvores presentes em vias públicas, praças, áreas verdes e Áreas de Preservação Permanente (APPs). Os números chamam atenção. Foi identificado um déficit nas APPs que requer o plantio de 5.250.733 mudas para sua completa cobertura.
Ao longo do período de execução do plano, estima-se o emprego de aproximadamente 1.450.201 mudas, já considerando 20% de reposição em caso de perdas. Desse total, estão previstas 338.912 mudas para vias públicas; 4.988 para praças públicas; 56.154 para áreas verdes; e 1.050.147 para APPs. A revisão do número de mudas a serem plantadas por ano deverá ocorrer a cada três anos, enquanto o plano como um todo deverá ser revisado a cada dez anos.
Para o primeiro ano, o documento sugere o plantio de 15 mil mudas somente em vias públicas e praças. Em seguida, a prioridade deveria ser a zona Centro-Norte, por ser a mais populosa, segundo o Censo 2022 do IBGE, apresentar maior circulação de pedestres e possuir maior percentual de área construída, sendo consequentemente uma das regiões mais quentes da cidade.
Para o arquiteto e urbanista Carlos Kaiser, o PDAU precisa ser compreendido como um instrumento de planejamento urbano e climático, e não apenas como um programa de plantio de árvores. Em uma cidade como Teresina, onde o calor extremo interfere na mobilidade, na saúde, na permanência nos espaços públicos e até no consumo de energia, a arborização deve ser tratada como parte da infraestrutura urbana.
O plano estabelece critérios para definir os locais adequados para o plantio, as espécies que devem ser utilizadas e as formas de manejo, além de orientar a compatibilização das árvores com calçadas, redes elétricas, drenagem, iluminação e edificações. Também estabelece áreas prioritárias e mecanismos de acompanhamento da evolução da cobertura vegetal.
“Do ponto de vista urbanístico, o PDAU pode mudar a lógica de crescimento da cidade. Em vez de pensarmos primeiro na pavimentação, no lote, na via e na edificação, deixando a árvore para o espaço que sobrar, passamos a tratar a cobertura vegetal como parte da infraestrutura desde o projeto”, explica Kaiser.
Segundo o arquiteto, essa mudança também precisa considerar as desigualdades existentes entre os bairros. Para ele, o plantio deve priorizar justamente as áreas com maior déficit de arborização, temperaturas mais elevadas, maior circulação de pedestres e maior vulnerabilidade socioambiental.
Arborização e clima
Os benefícios da arborização vão além da paisagem, sendo o principal efeito a redução do calor. Para Teresina, em especial, o plantio de árvores visa diminuir a incidência direta da radiação solar sobre pavimentos, fachadas e pedestres e, por meio da evapotranspiração, contribuir para o resfriamento do ambiente.
Segundo o arquiteto e urbanista Carlos Kaiser, estudos realizados na capital já apontaram a relação entre a cobertura vegetal e a redução dos efeitos das ilhas de calor. Uma pesquisa feita no Polo de Saúde de Teresina identificou efeitos de resfriamento associados à arborização, enquanto outro estudo, realizado na Avenida Frei Serafim, encontrou índice de sombreamento arbóreo de 24,61% no trecho analisado e condições de desconforto térmico extremo na maior parte dos horários avaliados.
Além disso, a arborização também contribui para a drenagem urbana, uma vez que a copa das árvores intercepta parte da chuva, enquanto raízes e áreas permeáveis favorecem a infiltração e reduzem a velocidade do escoamento superficial. Embora não substituam galerias e demais estruturas de drenagem, as chamadas infraestruturas verdes podem diminuir a pressão sobre o sistema convencional.
Para Kaiser, a combinação entre retirada da vegetação, aumento da pavimentação e impermeabilização dos lotes agrava os problemas urbanos. A água que antes infiltrava no solo passa a escoar rapidamente, aumentando a pressão sobre sarjetas, bocas de lobo e galerias durante chuvas intensas.
Isso reflete diretamente na mobilidade, com calçadas completamente expostas ao sol e, consequentemente, pouco utilizadas durante os horários mais quentes, dificultando deslocamentos a pé e a utilização do transporte coletivo. Dentre os grupos mais vulneráveis estão crianças, idosos, gestantes, pessoas com deficiência e trabalhadores expostos ao ambiente externo.
“Essa abordagem aproxima a arborização da justiça climática. Quem depende de caminhar, esperar um ônibus ou trabalhar ao ar livre sente muito mais a falta de sombra do que quem realiza seus deslocamentos em ambientes climatizados”, afirma o arquiteto e urbanista.
A ausência de arborização produz uma série de efeitos: elevação da temperatura das superfícies, piora da sensação térmica, redução da caminhabilidade, menor utilização dos espaços públicos, maior dependência de veículos e climatização artificial e aumento do escoamento superficial.
Ilhas de calor apresentam riscos para Teresina
De acordo com Carlos Kaiser, caso as diretrizes do PDAU não sejam implementadas, um dos principais riscos é o agravamento das ilhas de calor já existentes. Com o crescimento urbano baseado predominantemente em asfalto, concreto e superfícies impermeáveis, sem expansão proporcional da cobertura vegetal, a cidade tende a acumular mais calor durante o dia e liberá-lo lentamente à noite.
A distribuição desigual da arborização pode ampliar as diferenças entre regiões da cidade, fazendo com que moradores de áreas menos arborizadas fiquem mais expostos ao calor extremo e tenham menos acesso a espaços públicos confortáveis. Outro risco destacado pelo arquiteto está relacionado à drenagem. Com chuvas mais intensas concentradas em períodos menores, a impermeabilização do solo sem a ampliação de soluções de infraestrutura verde pode aumentar os picos de escoamento e a pressão sobre o sistema existente.
Há ainda um custo econômico, pois ambientes mais quentes elevam a necessidade de climatização, enquanto problemas de drenagem exigem obras corretivas e árvores plantadas sem planejamento podem provocar conflitos com redes elétricas, calçadas e edificações, resultando em podas inadequadas ou até na retirada das plantas.
Por isso, para o arquiteto, o objetivo do PDAU não deve ser apenas aumentar o número de mudas plantadas, mas garantir que elas sobrevivam, atinjam um porte adequado e produzam sombra. “Uma muda plantada hoje pode levar anos para gerar sombra expressiva. Isso significa que existe um custo temporal muito alto em adiar a implantação do PDAU. Não se recompõe uma árvore adulta em uma estação chuvosa”, afirma Carlos Kaiser.
O plano também está diretamente relacionado com o Plano de Ação Climática de Teresina, que aponta as ilhas de calor, alagamentos e outros eventos climáticos entre as ameaças enfrentadas pela capital. Por isso, o arquiteto destaca que a proposta do PDAU não deve ficar restrita ao plantio de mudas. A proposta é que ele alcance projetos viários, aprovação de loteamentos, requalificação de calçadas, corredores de transporte, escolas, unidades de saúde e praças, com metas de cobertura vegetal e sobrevivência das árvores.
Projeto aguarda votação e ainda deve passar por discussão
Em 2026, a Prefeitura de Teresina encaminhou à Câmara Municipal o Projeto de Lei Complementar nº 132/2026 (PLC 132/2026), que busca transformar o PDAU em política pública municipal. No início deste mês, o projeto esteve na pauta da Comissão de Constituição, Legislação, Justiça e Redação Final.
A proposta ainda passará por discussão, por meio de audiência pública, que deve ocorrer em outubro, antes de seguir para as demais etapas de análise e votação. A expectativa é que sejam ouvidos empresários, associações de proteção ambiental, especialistas e a população, que poderão apresentar sugestões e propostas de alteração ao projeto.
Relator do PLC 132/2026 e vereador da Câmara Municipal de Teresina, Daniel Carvalho afirma que a proposta tem o objetivo de estabelecer parâmetros para o poder público, novos empreendimentos e a sociedade civil em relação à preservação ambiental e à arborização urbana. O plano apresenta ainda normas sobre poda e plantio, critérios de sombreamento e incentivos para empreendimentos que preservem e mantenham árvores nativas.
Daniel destaca que o documento foi elaborado a partir de estudos realizados por técnicos da Prefeitura e considera, entre outros aspectos, a necessidade de ampliar a cobertura vegetal e contribuir para o resfriamento da cidade. O vereador também chama atenção para a ocorrência de podas drásticas, cortes irregulares e a presença de espécies exóticas e invasoras. Segundo ele, o plano estabelece medidas de manejo e sanções para intervenções realizadas de forma irregular e prevê a valorização de espécies nativas.
A preservação de árvores antigas também está contemplada. De acordo com o vereador, as regras de manejo e manutenção previstas no plano deverão alcançar as árvores existentes nos passeios públicos e aquelas sob responsabilidade do poder público.
Após a audiência pública, as sugestões apresentadas pela população e as eventuais emendas dos vereadores deverão ser analisadas pela comissão responsável. Em seguida, o projeto retorna ao plenário para votação. Caso seja aprovado pela Câmara e sancionado, o Plano Diretor de Arborização Urbana passará a orientar a política de arborização do município.
Semam afirma que ações do Plano de Arborização já são executadas em Teresina
O Projeto do Plano Diretor de Arborização Urbana de Teresina (PDAU) aguarda votação na Câmara Municipal desde 2024. Mas, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam), responsável pela coordenação da implantação e manutenção do plano, a falta de aprovação da proposta não impede que as diretrizes de arborização já sejam colocadas em prática.
De acordo com Anderson Costa, analista ambiental da Semam, as ações previstas no plano vêm sendo executadas desde 2023, quando o documento foi finalizado e apresentado ao município. Segundo ele, o plano estabelece metas anuais de plantio dentro de um horizonte de 20 anos. Ao longo desse período, a previsão é que Teresina receba 1,45 milhão de novas árvores. Para isso, o órgão afirma que vem adequando suas ações às metas estabelecidas no documento.
Até o mês de agosto deste ano, aproximadamente 24 mil mudas nativas e ornamentais já foram plantadas pela secretaria. Desse total, cerca de 15 mil são espécies nativas. As mudas são plantadas especialmente no período chuvoso, que ocorre entre os meses de janeiro a abril, contudo, este ano, o plantio foi estendido até junho. A meta estabelecida pelo plano para este ano é de 48 mil mudas.
Além da meta prevista no PDAU, a gestão municipal atual trabalha com o objetivo de alcançar 100 mil mudas plantadas em 2027. Para ampliar a capacidade de execução, a Semam tem reforçado as equipes e a estrutura utilizada no plantio e na produção de mudas.
“Nesse momento, a gente planeja já a execução do plantio para o final deste ano e início de 2027, fomentando a capacidade de plantio e também de produção dos viveiros. No momento, a gestão disponibilizou mais servidores para aumentar a equipe de plantio durante o período de plantio do próximo ano”, afirma Anderson.
A secretaria também aguarda o recebimento de dois veículos que serão destinados aos trabalhos de arborização. Segundo o analista ambiental, a aquisição já foi licitada e inclui um caminhão-pipa e um caminhão-carroceria, que deverão ser utilizados exclusivamente nas ações de plantio previstas pelo plano.
“Além disso, estamos fazendo a aquisição de softwares para dinamizar e ser mais eficiente o controle da manutenção e do plantio, tudo georreferenciado. Paralelo a isso, temos feito campanha ambiental de doação de mudas, participando de feiras, eventos e doações de mudas para escolas”, disse, destacando que até agosto de 2026, aproximadamente duas mil mudas foram entregues à população por meio do viveiro localizado na sede do Parque da Cidade, localizado no bairro Primavera, zona Norte.
Áreas prioritárias
Embora o PDAU estabeleça uma estratégia de priorização das regiões mais populosas, especialmente a Centro-Norte, Anderson Costa destaca que as ações de plantio não estão restritas a essa área. O analista ambiental da Semam explica que a secretaria tem trabalhado em todas as regiões da cidade, seguindo também a orientação de priorizar os logradouros públicos.
“Temos buscado atender as diretrizes do plano, mas os plantios têm sido feitos em todas as zonas, atendendo estratégica e prioritariamente aos logradouros públicos, especialmente avenidas, canteiros centrais e rotatórias”, explica, acrescentando que, o foco definido pelo PDAU, nos primeiros cinco anos de execução, está justamente nesses espaços públicos.
Entre as espécies priorizadas estão árvores nativas adaptadas às condições climáticas e de solo de Teresina, como oitizeiros, ipês, Gonçalo-Alves, entre outras. Além disso, a secretaria também pretende ampliar o trabalho de paisagismo, com o uso de espécies ornamentais em canteiros. A proposta, segundo Anderson Costa, é conciliar o aumento da arborização com o embelezamento dos espaços urbanos.
“A gente tem feito um trabalho, embora tímido, de paisagismo com o plantio de mudas ornamentais em alguns canteiros, de modo experimental, mas que deve ser expandido também por toda a cidade, a partir do fomento de mais servidores e mais equipe para fazer esse trabalho, não somente de arborização eficiente, oferecendo as funções ecossistêmicas das árvores, especialmente a sombra, mas também o embelezamento”, conclui o analista ambiental.