A comédia dramática “Simples Assim” estreia uma curta temporada especial em Teresina nesta sexta-feira (22), no Teatro Silvio Mendes, localizado no Sesc Cajuína. Reunindo no palco as renomadas atrizes Alexandra Ritcher e Georgina Góes, ao lado do ator Pedroca Monteiro, a peça também terá sessões na capital nos próximos sábado (23) e domingo (24).
Inspirado nas crônicas da premiada escritora Martha Medeiros, o espetáculo usa muito humor e situações inusitadas do cotidiano para discutir os impactos da hiperconexão virtual dentro das relações humanas.
A montagem marca a passagem da turnê nordestina da peça pela capital piauiense após apresentações em cidades como Salvador (BA), Aracaju (SE) e Maceió (AL). Em cena, os atores interpretam personagens atravessados pela solidão tecnológica, pela ansiedade contemporânea e pela dificuldade de presença real em tempos dominados pelas telas.
“Na verdade, a Martha fala muito sobre essa desconexão do humano e essa hiperconexão virtual”, resumiu Alexandra Ritcher em entrevista ao O Dia, nesta sexta-feira (22).
Uma das histórias retratadas no espetáculo acompanha um casal que praticamente aboliu o diálogo presencial e passa a se comunicar apenas pelo celular, mesmo dentro da mesma casa. “Cada um fala uma coisa completamente diferente. Depois, (a personagem) contrata um dublê para viver a vida dela”, explica a atriz.
Baseadas nos livros “Quem Diria Que Viver Iria Dar Nisso “ e “Simples Assim”, a peça transforma cerca de dez crônicas em cenas independentes que se conectam ao longo o espetáculo. Entre elas está a de uma mulher diagnosticada com nomofobia, transtorno associado ao medo extremo de ficar sem o celular. “Muita gente não sabe, mas já é uma doença”, comenta Alexandra sobre a personagem viciada no aparelho.
Para Georgiana Góes, a identificação imediata do público com as histórias talvez seja o principal diferencial e atrativo do espetáculo. “Todo mundo tem o celular como uma extensão da mão. Então, as pessoas se reconhecem muito na peça, porque ela fala de situações extremamente contemporâneas”, afirma.
Devido à sua inspiração em cerca de 200 crônicas de Martha Medeiros, a peça não possui um elenco de personagens fixos. São múltiplos papéis que mostram figuras do dia a dia, como um âncora de telejornal, casais hiperconectados virtualmente, e amigos, amantes, pessoas estressadas que lidam com problemas do mundo moderno.
Georgina Góes conta que um dos personagens retrata um jornalista que entra em colapso após ter que lidar com uma sequência de notícias negativas. Segundo a atriz, que já tem experiência com projetos baseados em obras de Martha Medeiros, o espetáculo tenta provocar reflexão sem abandonar o humor.
“A mensagem é justamente sobre qualidade de presença, sobre estar realmente com as pessoas”, diz Georgina.
Ao longo da entrevista ao O Dia, as estrelas de “Simples Assim” destacaram que a reação do público costuma oscilar entre o riso imediato e momentos de silêncio absoluto. Para Alexandra Ritcher, esse movimento acontece porque a escrita de Marthe Medeiros consegue equilibrar comicidade e emoção sem perder a naturalidade.
“A Martha diverte e emociona ao mesmo tempo. A pessoa ri de si mesma e depois percebe que aquilo fala de algo sério”, explica a artista.
Fora do palco, outro aspecto que tem marcado a circulação da peça pelo Nordeste é a recepção calorosa do público. Alexandra afirma que o acolhimento encontrado na região transforma a experiência da turnê. “Vocês são muito acolhedores. A energia daqui é tão forte que não tem como a pessoa ficar rígida”, comenta.
A peça desembarca em Teresina após fazer uma parada para apresentações em Salvador, capital a Bahia. Georgina Góes falou sobre a relação afetiva construída com o Nordeste durante suas viagens de trabalho.
“Sempre que venho, penso que preciso voltar, porque não vai ar tempo de conhecer tudo”, afirma a atriz, que também revelou seu desejo de visitar pontos turísticos piauienses, como a Serra da Capivara.
As atrizes também refletiram sobre a maneira como a tecnologia alterou os vínculos cotidianos. Alexandra Ritcher brinca que até as amizades passaram a funcionar sob lógica de agenda. “Hoje em dia, até para ligar para uma amiga, você pergunta se e quando pode ligar. Parece consulta médica”, diz.
Georgina Góes completa afirmando que a peça tenta resgatar algo cada vez mais raro na vida contemporânea. “Quando a gente encontra as pessoas de verdade, precisa ter qualidade nesse encontro. Sem ficar olhando para outra tela enquanto o outro fala”, afirma.
Além das sessões tradicionais, a temporada em Teresina conta com uma apresentação acessível, com tradução em Libras, audiodescrição e monitoria para neurodivergentes. Segundo Alexandra, a sessão inclusiva se tornou um os momentos mais importantes da circulação nacional do espetáculo. “A gente fica muito feliz de fazer essa sessão de acessibilidade, porque ela é sempre muito acolhedora”, afirma.
Com direção de Ernesto Piccolo e idealização de Gustavo Nunes, “Simples Assim” segue transformando situações comuns em perguntas desconfortavelmente atuais. Em um mundo onde o celular virou extensão do corpo e os encontros acontecem cada vez mais por notificações, a peça tenta lembrar que presença, afeto e escuta ainda não cabem dentro de uma tela.
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