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Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida

É como se houvesse uma motorista para cada grupo de 1.083 moradores na capital. Número de mulheres dirigindo em aplicativos na cidade não passa dos 15% em relação ao total de motoristas cadastrados.

26/03/2026 às 14h42

26/03/2026 às 14h42

Atuar como motorista por aplicativo é uma das profissões mais arriscadas da atualidade. Imagine rodar a cidade transportando desconhecidos em seu veículo, confiando apenas nas informações inseridas pelos próprios usuários nas plataformas. É isso que fazem diariamente os quase 7 mil motoristas por aplicativo que circulam por Teresina. 

Para uma parcela deste grupo, o risco é ainda maior. Dos quase 7 mil motoristas que rodam por aplicativo na capital, 15% são mulheres. A estimativa é do Sindicato dos Trabalhadores Motoristas e Entregadores por Aplicativos em Transportes de Passageiros e Entregas do Piauí (Sintappi). O número é considerado pequeno perto do universo de profissionais e do contingente habitacional da cidade.

Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida - (Freepik) Freepik
Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida

Em números absolutos, são cerca de 800 mulheres motoristas por app na capital, uma média de uma para cada grupo de 1.083 moradores. Isso, levando em conta que Teresina tem uma população total de 866.300 habitantes, segundo o Censo do IBGE. Se a comparação for feita com o universo de homens trabalhando no setor, a diferença é ainda mais gritante.

É como se houvesse em Teresina uma mulher motorista por aplicativo para cada 5,7 motoristas homens. A média de profissionais do sexo masculino na cidade é de um para cada grupo de 191 moradores. A probabilidade de se pegar uma motorista do sexo feminino em Teresina é de uma em cada dez corridas, ou seja, de dez viagens, apenas uma seria com uma motorista. Já no caso dos homens, a probabilidade é bem maior: nove em cada dez corridas são feitas por eles.

Apesar da disparidade, representantes da categoria dizem que o número de mulheres atuando como motoristas por aplicativo em Teresina cresceu bastante desde que as plataformas começaram a operar na cidade, isso há quase dez anos.

No começo, realmente a procura por este trabalho era muito pequena por ser algo extremamente perigoso. Mas a adesão, com o passar dos anos, tem sido até razoável por parte das mulheres. É muito comum a gente pegar uma passageira mulher e ela dar graças a Deus quando entra no carro e vê que quem está dirigindo é outra mulher.

Maria do Carmomotorista por aplicativo e representante do Sintappi

Há mulheres que preferem andar quando outra mulher está ao volante, por questão de segurança, principalmente quando a corrida é feita à noite. É o caso da atendente Ariany Pereira. Moradora do bairro Ininga, na zona Leste de Teresina, ela faz uso de aplicativo diariamente para ir e vir do trabalho, mas conta nos dedos as vezes em que pegou uma motorista mulher. As vezes em que aconteceu, ela diz que se sentiu aliviada.

“Claro que não podemos generalizar, mas para uma mulher, ver outra mulher dirigindo, ainda mais quando é tarde da noite, por exemplo, dá uma tranquilidade a mais. Seria bom ter a opção da gente marcar a preferência por motoristas mulheres nos aplicativos, mas acho que a quantidade de motoristas mulheres é pouca aqui, por isso não colocam”, diz Ariany.

Outra que também diz se sentir mais segura quando anda com motoristas mulheres é a doméstica Maria das Graças Oliveira. Mas as poucas vezes em que andou com uma condutora dirigindo, foi de dia. No começo da noite, quando sai do serviço, ela diz que dificilmente consegue pegar uma mulher ao volante. “Acho que de noite é mais arriscado até para elas andar por aí. Das duas vezes em que peguei mulher dirigindo, foi de manhã para ir para o serviço. De noitinha, acho que elas começam a encerrar as corridas”, comenta.

O pensamento de Maria das Graças tem fundamento. Estudo produzido em 2024 pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva e uma plataforma de transporte de passageiros que atua no Brasil revelou que a quase totalidade das brasileiras (98%) que saem à noite tem medo de vivenciar algum tipo de violência. Isso, porque o ambiente noturno muitas vezes está associado ao aumento da violência urbana, com o consumo de álcool em festas e aumento dos casos de agressões.

Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida - (Arquivo O DIA) Arquivo O DIA
Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida

O estudo revela ainda que o principal critério para a escolha de um meio de transporte por uma mulher é a segurança. Em 91% dos casos, elas dizem que evitam transitar por locais desertos ou escuros e em 89% dos casos, que procuram por companhia de confiança em trajetos de ida e volta. A pesquisa teve como base informações fornecidas em formulários preenchidos por 1,2 mil entrevistadas com idades entre 18 e 59 anos em todo o Brasil.

Mas a insegurança não parte somente das passageiras. Motoristas por aplicativo também se sentem inseguras para circular durante a noite. “Nós somos corajosas e desafiadoras, mas isso tem seus riscos. Boa parte de nós já sofreu algum tipo de assédio ou algo mais grave dentro dos nossos carros, seja com alguém fazendo piada sobre nossa capacidade de dirigir, seja com comentários mais inapropriados”, comenta Maria do Carmo.

Ela faz parte de pelo menos dois grupos de Whatsapp de motoristas mulheres onde elas compartilham seu dia enquanto trabalham e relatam situações que merecem atenção. Não é raro, também, algumas delas compartilharem suas localizações em tempo real para que as colegas acompanhem o ponto de partida e o destino da viagem por medida de segurança.

Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida - (Freepik) Freepik
Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida

Teresina ficou de fora de atualização recente

No final do ano passado, uma das principais plataformas de corrida de passageiros por aplicativo do Brasil anunciou o projeto piloto para dar a passageiras mulheres a opção de escolher somente motoristas mulheres. O projeto foi inicialmente implantado no Estado de São Paulo. No começo de 2026, a opção foi expandida para mais 12 capitais brasileiras, mas Teresina ficou de fora.

Por outro lado, as motoristas podem selecionar no aplicativo a opção de pegarem corridas somente com passageiras mulheres. É o que faz Clotilde Oliveira. Motorista por aplicativo há 11 meses, ela conta que já fez mais de 3 mil viagens e aderiu ao serviço de só receber chamadas de mulheres na plataforma. Fo uma das estratégias que ela encontrou para se sentir mais segura ao dirigir.

“Eu também não recebo pagamento direto das passageiras, só pelo aplicativo. Felizmente, nunca passei por uma situação de violência mais grave, mas já vivenciei alguns momentos de desconforto durante viagens. Coisas que a gente consegue administrar com cautela e bom senso”, diz. Clotilde reconhece que no início teve receio de atuar como motorista por aplicativo, mas que, com o tempo, foi se adaptando e aprendendo a lidar melhor com os desafios da profissão.

 Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida - (Rafa Neddermeyer/Agência Brasil) Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Em Teresina, existe uma mulher motorista para cada seis homens em aplicativos de corrida

Em Teresina houve uma tentativa de criar um atendimento exclusivo para elas com um aplicativo específico para motoristas e passageiras mulheres, mas a iniciativa acabou sendo desativada pouco depois de seu lançamento. Segundo o Sintappi, a demanda por passageiras mulheres é alta, mas a oferta ainda está aquém.

“A gente sabe que é arriscado, mas a gente espera que mais mulheres entrem nesse meio, porque é uma forma boa de conseguir renda e autonomia financeira, apesar dos riscos. A gente tenta formar uma rede de proteção e apoio, nós mesmas. Até o momento tem dado certo”, finaliza Maria do Carmo.


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