Entre fevereiro e abril deste ano, pelo menos 20 crateras foram registradas em diferentes pontos de Teresina, acendendo um alerta sobre a segurança das vias da capital. Os casos, que já foram observados em ruas movimentadas e bairros diversos, como nas avenidas Jóquei Clube, zona Leste, e Maranhão, zona Sul, preocupam especialistas e revelam graves problemas, especialmente estruturais, e que têm se agravado com as chuvas intensas.
Segundo o geólogo Sidiney Barros, do Serviço Geológico do Brasil (SGB), a origem dessas crateras está relacionada às características do solo de Teresina, somadas às falhas na execução de obras e à falta de fiscalização. Ele explica que a capital é uma cidade plana, mas com uma formação geológica que possui camadas mais frágeis, que podem ser dissolvidas e causar afundamentos.
Ele comenta que os casos dos últimos meses, de crateras se abrindo, não são pontuais, e a tendência é que continuem acontecendo, uma vez que a capital não possui sistema de drenagem de águas pluviais adequado. “Isso não é um evento isolado. Infelizmente, a perspectiva é que essas ocorrências continuem, porque as intervenções são desordenadas e subdimensionadas”, falou.
O especialista destaca que a maioria das crateras segue um padrão semelhante: surgem inicialmente com pequenas rachaduras ou ondulações no asfalto, sinais de que há problemas na estrutura abaixo da superfície. “Quando você vê essas deformações, é porque algo não foi bem executado lá embaixo. Em pouco tempo, o solo cede e ocorre o colapso”, afirma.
Contudo, um dos principais problemas apontados pelo geólogo está justamente na instalação das galerias e bueiros. De acordo com Sidiney, o uso de materiais inadequados compromete a estabilidade dessas estruturas.
“As manilhas são colocadas e depois preenchidas com areia, que não se compacta corretamente. Com o tempo e o tráfego intenso, esse material vai se deslocando, formando vazios e permitindo a infiltração de água. Com a infiltração, a água passa a carregar o solo, criando espaços sob o asfalto. Quando a cratera aparece, você percebe que entre a galeria e a superfície não tem mais material. Tudo foi levado pela água”, detalha.
Outro fator que agrava ainda mais a situação é o subdimensionamento das galerias. Em locais que correm riachos com até 20 metros, então sendo instaladas estruturas com diâmetros que não comportam a vazão da água. Além disso, a ausência de dispositivos como dissipadores de energia faz com que a água escoe com força excessiva, causando erosão e destruindo estruturas. Isso acontece próximo à Assembleia Legislativa do Piauí e na Avenida Maranhão.
“Nessas saídas das galerias, deveria ser colocada uma espécie de escada, para quando a água saísse da boca de lobo, ela não saísse com muita força. Como não fizeram, a água sai com tanta força que começa a erodir o terreno, derrubando galerias e comprometendo ruas inteiras”, pontua, explicando que a situação é agravada quando são adotadas intervenções desordenadas, a exemplo da galeria do Vale do Gavião. “Casas que não eram inundadas agora estão sendo e, hoje em dia, as pessoas têm problemas”, enfatiza Sidiney Barros.
A participação da população também é um fator de mudança desse cenário. O descarte irregular de lixo contribui para o entupimento das galerias, agravando os problemas. “Foram retiradas várias cargas de lixo de dentro de bueiros da Avenida Maranhão. A população também precisa fazer sua parte”, destaca.
Levantamento aponta centenas de áreas de risco em Teresina
Para o geólogo Sidiney Barros, um dos principais entraves é a falta de fiscalização preventiva. “A população vê rachaduras, mas os órgãos fiscalizadores não veem. Não é intervenção pós-acidente, tem que prevenir. As rachaduras e ondulações já indicam que algo está errado. Isso precisa ser monitorado antes do colapso”, afirma.
Apesar da existência de estudos técnicos que mapeiam áreas de risco, como o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), o desafio está na aplicação prática dessas informações. O documento apresenta um diagnóstico dos principais problemas de Teresina, as causas e possíveis soluções - estruturais ou não. Ao todo, foram identificadas 167 áreas de risco, das quais, sete foram classificadas como risco muito alto, 66 como risco alto e 94 como risco médio (monitoramento).
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“Foram centenas de pontos que destacamos. Teresina hoje dispõe de um documento que dá um ‘raio-x’ da cidade, inclusive em locais que podem ou não ser urbanizados. A Vila da Paz jamais poderia ter sido urbanizada daquele jeito, pois ali é área de proteção permanente. As pessoas têm que sair dali”, disse Sidiney.
Em algumas dessas áreas consideradas de risco, moradores são retirados e realocados em outros bairros, mas, muitas vezes, sem o devido mapeamento. A exemplo do Pedro Balzi, considerado uma área de risco em decorrência dos deslizamentos de terra. “O que notamos em Teresina é uma falta de fiscalização desses projetos. A cidade está crescendo para áreas inadequadas, mas não basta tirar as pessoas de lá, precisa fiscalizar para garantir que elas não retornarão”, enfatizou.
O geólogo chama atenção não somente para o crescimento desordenado da cidade, com ocupações de áreas inadequadas, mas, também, para as construções que são feitas e o impacto da verticalização. Algumas edificações foram construídas em lagoas que foram aterradas, o que pode representar um risco à segurança.
“Uma preocupação em Teresina é essa verticalização da cidade e, desde a época do Conselheiro Saraiva, já se dizia que não sustentaria construções muito altas, pois o terreno está próximo a dois rios. Mas Teresina está verticalizando, com edifícios com muitos andares, e isso nos preocupa”, alerta.
Para Sidiney Barros, alguns pontos são importantes para garantir que a cidade e a população não corram riscos: fiscalização dos órgãos gestores; colaboração da população para não deixar entupir as galerias; obras estruturantes adequadas; buscar um caminho adequado para as águas fluviais.
“É preciso ter um olhar mais carinhoso para a cidade, para não passarmos por esses problemas. Nosso terreno não é dos melhores, mas no PMRR damos o indicativo das áreas que podem ou não construir. Por isso é importante afastar a população o máximo possível dessas áreas de risco”, finaliza.
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