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Com 160 anos de história, prédio da Comepi abrigará o coração comercial do Centro de Teresina

Local onde funcionou a Companhia de Navegação e a Companhia Editorial do Piauí vai se tornar a segunda unidade do Shopping da Cidade. Mudança de funcionalidade do prédio gera debate

18/04/2026 às 14h00

A Prefeitura de Teresina anunciou recentemente a construção de uma segunda unidade do Shopping da Cidade, no Centro. O espaço vai funcionar no antigo prédio da Companhia Editorial do Piauí (Comepi), localizado na Avenida Maranhão, onde ficava o Diário Oficial do Estado. 

A transformação do local histórico em espaço comercial tem levantado debates: de um lado, há quem defenda o aproveitamento dos espaços do Centro para reforçar a economia da capital. Do outro, os defensores da História, que veem na transformação do prédio uma descaracterização da cultura e da arquitetura histórica teresinense.

Com 160 anos de história, prédio da Comepi abrigará o coração comercial do Centro de Teresina - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Com 160 anos de história, prédio da Comepi abrigará o coração comercial do Centro de Teresina

O prédio da antiga Comepi é uma edificação de cerca de 160 anos. Foi construído em 1856, quando Teresina tinha apenas quatro anos de fundação. O espaço tem uma enorme importância histórica para a capital, porque integrava o conjunto arquitetônico do entorno da Praça da Bandeira, conhecido como Largo do Amparo. Ele foi construído originalmente para abrigar o maquinário de fundição da Companhia de Navegação a Vapor do Parnaíba.

O edifício desempenhava um papel comercial importantíssimo para a capital por facilitar a navegação fluvial pelo Rio Parnaíba no século XIX.

Lá começou como a casa de máquinas da Companhia de Navegação. Era onde se faziam os consertos de embarcações. Do ponto de vista arquitetônico, o prédio tem uma arquitetura eclética bem típica da segunda metade do século XIX. É o estilo típico das cidades que estavam surgindo com um ar de modernidade para aquele século.

Shigeki Takeshitaprofessor de História e Geografia

Do ponto de vista histórico, o prédio é um marco da trajetória comercial piauiense, porque foi a partir dele e da navegação no Parnaíba que a província conseguiu se destacar economicamente. “As novidades chegavam por ali, o que a gente produzia e exportava para a Corte e para outros países passava por aquele cais”, acrescenta Shigeki.

O espaço era bastante funcional, com seus janelões permitindo a entrada da brisa vindo do Rio Parnaíba e o aproveitamento do clima local em seus espaços internos. Essa funcionalidade teve vários usos ao longo do tempo. Com o fim da Companhia de Navegação do Parnaíba, o prédio passou a sediar, na década de 1950, a Companhia Editorial do Piauí (Comepi). Em 2017, o local virou sede do Diário Oficial do Estado.

Com 160 anos de história, prédio da Comepi abrigará o coração comercial do Centro de Teresina - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Com 160 anos de história, prédio da Comepi abrigará o coração comercial do Centro de Teresina

Recentemente, com a mudança de endereço do Diário, o Governo cedeu o prédio para a Prefeitura de Teresina. Tombado como Patrimônio Estadual, o espaço vai ser transformado na segunda unidade do Shopping da Cidade, abrigando 500 boxes. O investimento na estruturação do local pode chegar a R$ 35 milhões.

Mas essa mudança causa preocupação entre os especialistas. Isso, porque se trata de uma construção do século XIX que precisará passar por mudanças estruturais significativas para receber um local de comércio com intenso fluxo de pessoas.

“Pela questão da estrutura, não sei se ele vai ter condição de receber várias pessoas ao mesmo tempo, se for realmente transformado em um lado comercial. Tem a questão da fundação, as pedras ali embaixo. A gente não sabe ao certo o que foi utilizado ali, a qualidade do material com que ele foi feito. Não tem como a gente utilizar um prédio com a estrutura do século XIX simplesmente para fins comerciais, onde a gente sabe que pode haver um abalo da estrutura”, pontua Shigeki.

Com 160 anos de história, prédio da Comepi abrigará o coração comercial do Centro de Teresina - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Com 160 anos de história, prédio da Comepi abrigará o coração comercial do Centro de Teresina

A preocupação também é com os usos do prédio. Uma vez instalados, é esperado que os permissionários adaptem o espaço para suas próprias necessidades e de seus negócios, o que pode levar a uma descaracterização de um prédio histórico. O professor de História cita como exemplo o Mercado Central, que tinha uma arquitetura preservada, mas que foi toda remodelada pelos trabalhadores e se tornou o que ele chama de “vazio do ponto de vista histórico e arquitetônico”.

Shigeki acredita que o antigo prédio da Comepi seria mais bem aproveitado se fosse transformado em um espaço turístico de visitação histórica, cultural e arquitetônica. O local poderia ser utilizado por escolas e demais instituições de ensino para manter viva a História de Teresina e apresentá-la às futuras gerações.

Patrimônio tombado: memória preservada ou entrave?

O caso do prédio da Comepi acende um debate que vai além dos questionamentos sobre se a estrutura é adequada para receber uma unidade comercial da monta que é o Shopping da Cidade. Ele escancara uma discussão que não é exatamente local: como equilibrar a modernização urbana e a preservação histórica.

Sem uso hoje, o edifício faz parte de um conjunto arquitetônico relevante, que é o Largo do Amparo, e ajuda a contar a formação da capital piauiense. Segundo o historiador Pablo Carvalho, o tombamento do prédio protege a memória coletiva do prédio da Comepi e reflete a relevância histórica que o espaço tem para a identidade teresinense. A pergunta é: até que ponto mexer neste patrimônio é prudente?

Ao ser registrado no livro de tombamento, um prédio tombado passa a seguir algumas regras específicas: em Teresina, geralmente a fachada é preservada, enquanto o interior pode ser adaptado. Quem decide essas especificações e cuida do processo de reconhecimento e tombamento é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A identidade visual daquele espaço vira lei. Qualquer alteração precisa de autorização prévia, justamente para garantir o ineditismo e a ligação com o passado. Essa lógica busca um meio-termo: manter a História visível sem impedir completamente novos usos

Pablo Carvalhohistoriador

Ele cita como exemplos cidades históricas como Olinda e São Luís, onde o tombamento costuma abranger toda a edificação e torna qualquer mudança mais burocrática.

Em Teresina, essa flexibilidade é maior, mas os desafios, ele aponta permanecem. É aí que, segundo o historiador, surge o conflito transformar imóveis como o antigo prédio da Comepi em empreendimentos modernos, como o Shopping da Cidade, pode revitalizar a área, mas também incorre no risco de apagar características históricas. Por outro lado, preservar sem dar uso pode levar à deterioração.

“Entre manter a memória ou abrir espaço para o novo é uma escolha que exige soluções que façam as duas coisas coexistirem”, finaliza Pablo.


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