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Ondas de calor afetam gestação e desenvolvimento infantil, aponta estudo

Bebês expostos a essas mudanças climáticas, ainda na gestação, tendem a nascer com menor peso, redução no perímetro cefálico, maior risco de malformações e diminuição do período gestacional.

24/03/2026 às 12h09

24/03/2026 às 15h33

Durante o 11º Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, realizado nesta terça-feira (24), especialistas trouxeram dados preocupantes sobre o bem-estar de bebês e crianças pequenas no Brasil. Entre os principais pontos debatidos estão o impacto da saúde mental das mães e os efeitos das mudanças climáticas, especialmente das ondas de calor, no desenvolvimento infantil.

Naércio Menezes Filho, professor da USP e integrante do comitê científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) - (Assis Fernandes/ODIA) Assis Fernandes/ODIA
Naércio Menezes Filho, professor da USP e integrante do comitê científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI)

Professor titular da USP e integrante do comitê científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), Naércio Menezes Filho destacou um fator que tem impactado diretamente a primeira infância: as mudanças climáticas. Segundo ele, o aumento das ondas de calor no país já é uma realidade crescente nos últimos anos. Enquanto em 1980, cerca de 20% dos municípios tiveram ondas de calor, atualmente, aproximadamente 60% das cidades vivenciam essa mudança.

De acordo com Naércio, essas mudanças têm efeitos diretos na gestação e no desenvolvimento das crianças. “Durante uma onda de calor, a mãe não consegue dissipar o calor e esses problemas podem afetar o nascimento da criança e depois o desenvolvimento infantil”, explica.

Essas ondas de calor impactam diretamente as mães durante a gravidez, fazendo com que as gestantes apresentassem hipertensão, eclâmpsia, diabete e desmaios. “Esse é o período mais sensível, que é quando a criança está se formando. Assim, a cada dia de onda de calor, diminui cerca de 30 gramas no peso da criança ao nascer”, disse.

Ondas de calor afetam gestação e desenvolvimento infantil, aponta estudo - (Nathalia Amaral/O Dia) Nathalia Amaral/O Dia
Ondas de calor afetam gestação e desenvolvimento infantil, aponta estudo

Os dados apontam ainda as consequências dessas mudanças climáticas, no qual bebês expostos ao calor, ainda na gestação, tendem a nascer com menor peso, redução no perímetro cefálico, maior risco de malformações e diminuição do período gestacional.

Com isso, o estudo revela que 27% das crianças apresentam risco de atraso no desenvolvimento. Entre os sinais observados estão irritabilidade, dificuldade de rotina e inflexibilidade, fatores que podem impactar o aprendizado ao longo da vida.

Um terço das crianças do nosso estudo, aos seis meses, está com problemas de comportamento ou de desenvolvimento infantil”

Naércio Menezes FilhoProfessor da USP e integrante do comitê científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI)

O pesquisador também revelou um dado alarmante, no que diz respeito à saúde mental materna. Os diagnósticos recebidos ao longo da vida dessas mulheres revelou que muitas já foram diagnosticadas com algum transtorno.

“A coisa que nos deixou muito preocupados é a saúde mental das mães. Essas mães são jovens e 40% delas já foram diagnosticadas com problemas de saúde mental. Essa é uma nova epidemia que está surgindo no Brasil”, afirmou.

Os principais diagnósticos são depressão (28,5%) e ansiedade (57,5%), condições que podem comprometer diretamente o vínculo entre mãe e filho. “Esses problemas de saúde mental podem dificultar a interação da mãe com os filhos. A mãe precisa estimular, precisa ler com seus filhos. E se ela está com depressão, se ela está com ansiedade, ela vai ter mais dificuldade de fazer isso”, explicou.

Desigualdade social

Os dados apresentados no Simpósio também demonstraram que as desigualdades sociais continuam existindo. Segundo o pesquisador Naércio Menezes Filho, a pobreza ainda se concentra de maneira mais intensa entre crianças negras e indígenas, agravando ainda mais os riscos associados à primeira infância.

O pesquisador defende a necessidade de políticas públicas mais integradas e intersetoriais, integrando as áreas da Saúde, Educação e Assistência Social, e destaca a importância de monitorar individualmente o desenvolvimento das crianças no país. “No futuro, a gente gostaria que cada política tivesse o CPF de cada criança, para saber tudo que ela recebe e o que ainda falta”, disse.

Para o pesquisador, apesar dos avanços sociais nas últimas décadas, como a redução da pobreza, o Brasil tem enfrentado novos desafios, o que exige respostas mais enérgicas e rápidas.

Marina Fragata, representante da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, destacou que das 18 milhões de crianças de 0 a 6 anos, 11 milhões estão inscritas no CadÚnico de programas sociais. “Isso significa que mais da metade das crianças brasileiras estão em alguma situação de vulnerabilidade desde o começo da vida”, disse, destacando que a união entre estados, municípios e sociedade civil é fundamental para mudar essa realidade.


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