Esquecer onde colocou um objeto, não lembrar imediatamente o nome de alguém ou entrar em um cômodo e esquecer o que iria fazer são situações que podem ocorrer no dia a dia. O alerta começa quando essas falhas deixam de ser episódios isolados e passam a se repetir, piorar ou interferir na rotina.
A diferença é importante porque esquecimento não é sinônimo de demência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a demência como uma síndrome causada por diferentes doenças e lesões que afetam a memória, o pensamento e outras funções cognitivas, comprometendo a capacidade de realizar atividades cotidianas. Em 2021, mais de 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo, com quase 10 milhões de novos casos registrados a cada ano.
Entre as doenças que podem causar demência, o Alzheimer é a forma mais comum e responde por cerca de 60% a 70% dos casos, segundo a OMS. Ainda assim, uma alteração de memória, isoladamente, não permite concluir que uma pessoa tenha Alzheimer ou qualquer outro tipo de demência.
Para o neurologista Humberto Barbosa, do Mário Palmério Hospital Universitário (MPHU), o principal ponto de atenção é a mudança em relação ao funcionamento habitual da pessoa. A frequência dos episódios e o impacto deles sobre a autonomia ajudam a diferenciar uma falha pontual de uma alteração que precisa ser investigada.
“Esquecimentos ocasionais podem fazer parte do cotidiano, mas quando a perda da memória é frequente, progressiva ou compromete a execução das tarefas diárias, especialmente quando são evidentemente percebidas pelos familiares, é hora de investigar. Sem pânico, mas sem negligência”, orienta.
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O que observar quando a memória muda
A necessidade de investigação aparece quando os episódios começam a formar um padrão. Repetir as mesmas perguntas ou histórias, esquecer acontecimentos recentes, ter dificuldade para realizar atividades antes conhecidas ou se perder em lugares familiares são exemplos de mudanças que merecem atenção.
Também é importante observar alterações associadas ao comportamento e à capacidade de organização. Mais do que contar quantas vezes alguém esqueceu alguma coisa, a família pode comparar o desempenho atual com aquilo que era habitual para aquela pessoa.
“Deve-se suspeitar de demência quando o impacto dos esquecimentos seja suficiente para trazer prejuízo às atividades cotidianas. Daí a importância da assistência especializada”, explica Humberto. Segundo o neurologista, a avaliação busca ampliar a investigação para além da queixa inicial e identificar a origem da alteração.
A família pode contribuir justamente porque, em alguns casos, é quem percebe primeiro que determinada mudança deixou de ser eventual. Perguntas como se o esquecimento está se repetindo, se está piorando ou se a pessoa passou a precisar de ajuda para tarefas que antes realizava sozinha ajudam a dimensionar o impacto do problema.
Quando o Alzheimer entra na investigação?
O Alzheimer é a principal causa de demência, mas o diagnóstico não é feito apenas a partir de uma queixa de esquecimento. A investigação considera o histórico clínico, os sintomas e a evolução das alterações cognitivas.
Segundo o National Institute on Aging (NIA), a idade é o principal fator de risco conhecido para a doença. O desenvolvimento do Alzheimer, no entanto, envolve uma combinação de fatores genéticos, ambientais e relacionados à saúde.
Algumas alterações genéticas também estão associadas a um risco maior. A variante APOE ε4, por exemplo, aumenta a probabilidade de desenvolver Alzheimer, mas sua presença não significa que a pessoa necessariamente terá a doença. Já alterações nos genes APP, PSEN1 e PSEN2 estão associadas a formas hereditárias de início precoce.
A demência também não é uma consequência inevitável do envelhecimento. Embora seja mais frequente após os 65 anos, fatores relacionados à saúde e ao estilo de vida podem influenciar o risco.
Em julho de 2026, a OMS informou que até 45% do risco de demência pode estar associado a fatores potencialmente modificáveis, como tabagismo, consumo prejudicial de álcool, inatividade física, isolamento social, poluição do ar, hipertensão e diabetes. O percentual se refere ao risco de demência em geral e não significa que 45% dos casos de Alzheimer possam ser evitados.
Família pode ajudar a identificar mudanças
Em muitos casos, é a família quem percebe primeiro que determinada mudança deixou de ser um esquecimento ocasional. Mais do que contar quantas vezes a pessoa esqueceu alguma coisa, é importante observar o que mudou em relação ao funcionamento habitual.
Perguntas simples podem ajudar a identificar a necessidade de avaliação: o esquecimento está se repetindo? Está piorando? A pessoa passou a ter dificuldade para realizar atividades que antes fazia sozinha? Está perdendo autonomia?
“Deve-se suspeitar de demência quando o impacto dos esquecimentos seja suficiente para trazer prejuízo às atividades cotidianas. Daí a importância da assistência especializada. Para ter uma visão maior que meramente a queixa de esquecimento. E quanto mais cedo for reconhecida a causa, menor o prejuízo”, destaca Humberto.
A orientação, portanto, é evitar tanto a negligência quanto o alarmismo. Esquecimento é sinal e sintoma. As causas são múltiplas e nem todo esquecimento é demência. Quando a alteração se torna persistente, progressiva ou interfere na autonomia, a avaliação especializada é o caminho para investigar sua origem e definir o cuidado adequado.