Em meio às novas rodadas de tarifas propostas pelos Estados Unidos ao Brasil, que têm afetado diretamente os produtores de mel do Piauí, empresários e agricultores familiares do setor vão se reunir na próxima sexta-feira (17), em São Raimundo Nonato, para discutir o futuro da produção no estado. Os EUA são o principal parceiro comercial da cadeia produtiva do mel piauiense.
O Piauí é o segundo maior produtor nacional, com 8,6 mil toneladas e valor de produção superior a R$ 100 milhões. O estado também lidera as exportações brasileiras do produto: em 2025, embarcou cerca de 9 mil toneladas para mercados como Estados Unidos, Alemanha, Itália e Japão, movimentando aproximadamente R$ 120 milhões, de acordo com a Secretaria de Agricultura Familiar (SAF). A atividade sustenta cerca de 12 mil famílias piauienses.
Em 1º de junho deste ano, o presidente dos Estados Unidos propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, após uma série de investigações que incluíram até o Pix, apontado como uma ferramenta financeira prejudicial aos interesses americanos. No dia seguinte, chegou a anunciar taxas adicionais de 12,5% sobre produtos do Brasil. Os Estados Unidos compram 83% de todo o mel exportado pelos produtores brasileiros e quase a totalidade do que é produzido no Piauí.
Uma audiência pública reuniu empresários brasileiros em 6 de julho, em Washington, para defender o produto nacional junto às autoridades americanas. No Piauí, a discussão ganha capítulo próprio durante o Conexão Mel do Sertão 2026, evento que reúne apicultores, cooperativas e representantes do poder público para debater os rumos da apicultura, do cooperativismo e da agricultura familiar no Território Serra da Capivara.
Atualmente, São Raimundo Nonato é o quarto maior município produtor de mel do Brasil, com 922,4 toneladas colhidas em 2024, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE. A programação do evento inclui a apresentação do plano de negócios da Cooperativa Mel do Sertão, pelo presidente da entidade, Henrique Neri Júnior, e pelo consultor Fábio Santiago, além de palestras com gestores públicos, como a secretária de Agricultura Familiar, Rejane Tavares, e parlamentares.
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O encontro também vai tratar de uma lei sancionada recentemente que regulamenta a criação de abelhas nativas sem ferrão no Piauí, atividade conhecida como meliponicultura. A proposta, de autoria do deputado Francisco Limma (PT), é vista pelo setor como um avanço para a produção de mel no estado.
A norma dispensa de licenciamento ambiental os criadores com até 50 colmeias, permite a comercialização legal de mel, própolis, pólen e cera dessas espécies e cria a Autorização de Uso e Manejo de Fauna (AMF), emitida pela SAF com validade de três anos e renovação simplificada. Meliponicultores que já atuam no estado terão três anos para se regularizar.
Na prática, a nova legislação tira da informalidade uma atividade tradicional do semiárido, exercida majoritariamente por pequenos produtores que criam abelhas nativas, como a jandaíra e a tiúba, até então sem amparo legal para comercializar seus produtos. Enquanto a nova regra abre caminho para a formalização do setor, o cenário externo segue incerto, o desfecho das negociações tarifárias com os Estados Unidos deve pesar diretamente sobre a renda de milhares de famílias que vivem da apicultura no Piauí.