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Revolução Aruana: filme piauiense conta a história de jovem indígena aprovada no curso de Direito

Aruana é uma jovem da comunidade Nazaré, localizada em Lagoa de São Francisco, entre os municípios de Piripiri e Pedro II.

05/09/2026 às 15h36

A trajetória de uma jovem indígena piauiense que deixa sua comunidade para cursar Direito em Teresina é o fio condutor de “Revolução Aruana”, novo filme do diretor, roteirista e professor de literatura AJosé Fontinelle. Com duração de aproximadamente 40 minutos, a produção é um média-metragem de ficção inspirado em histórias que fazem parte da realidade de muitos jovens indígenas que chegam à universidade, inclusive por meio das políticas de cotas.

Aruana é uma jovem da comunidade Nazaré, localizada em Lagoa de São Francisco, entre os municípios de Piripiri e Pedro II. Ela conclui o ensino médio em uma escola pública, utiliza também a internet como ferramenta de estudo, presta vestibular para Direito e, após ser aprovada, parte para Teresina. Para o diretor, embora a personagem seja fictícia, sua trajetória representa a de muitas jovens indígenas existentes no país.

A obra é uma obra de ficção, mas ela existe. Existem várias jovens como a Aruana aqui em Teresina e no Brasil inteiro que entraram na universidade através de cotas, por exemplo. Eles estão se vendo ali, exatamente

AJosé Fontinellediretor, roteirista e professor de literatura

O próprio nome da personagem carrega um significado relacionado à essência da história. Segundo o diretor, Aruana significa “paz, serenidade, contato com a natureza” na língua indígena. A produção também procura apresentar uma comunidade indígena contemporânea, distante de estereótipos. Em Nazaré, há um museu indígena, ocas utilizadas em rituais e reuniões, além de internet e outros recursos presentes no cotidiano dos moradores.

A comunidade reúne povos que se identificam como Tabajara Tapuio-Itamaraty. Para AJosé, mostrar essa realidade é uma das formas de combater a invisibilidade histórica que ainda atinge os povos indígenas do Piauí.

“Eu tenho certeza de que quem está nos assistindo agora está se perguntando: ‘Meu Deus, e há comunidades indígenas no Piauí?’. Porque, por muito tempo, os próprios livros de história traziam a informação de que os indígenas piauienses tinham sido dizimados”, afirma.

Revolução Aruana: filme piauiense conta a história de jovem indígena aprovada no curso de Direito - (Raynara de Castro ) Raynara de Castro
Revolução Aruana: filme piauiense conta a história de jovem indígena aprovada no curso de Direito

O diretor destaca que existem diferentes comunidades indígenas no estado, incluindo uma comunidade urbana em Teresina, a Nazaré, em Lagoa de São Francisco, e o povo Akroá Gamela, no Sul do Piauí. “Nós temos muitas comunidades, só que elas passam por esse processo de serem invisibilizadas”, acrescenta.

Revolução Aruana deve ser exibida em 10 cidades

A proposta do filme vai além da produção cinematográfica. Aprovado pela Lei Rouanet Nordeste e patrocinado pelo Banco do Nordeste, o projeto prevê que as exibições presenciais sejam acompanhadas de debates. A estreia está marcada para o dia 7 de outubro, na própria comunidade Nazaré, onde será montada uma estrutura com telão de LED e sistema de som para que os moradores possam assistir ao filme. “Eles vão se assistir. Vai ser muito legal essa estreia, muito interessante”, destaca AJosé.

Revolução Aruana: filme piauiense conta a história de jovem indígena aprovada no curso de Direito - (Raynara de Castro ) Raynara de Castro
Revolução Aruana: filme piauiense conta a história de jovem indígena aprovada no curso de Direito

Depois da estreia, “Revolução Aruana” seguirá em caravana por outras 10 cidades piauienses. A intenção é levar o filme gratuitamente ao público e, posteriormente, inscrevê-lo em festivais nacionais e internacionais.

O diretor também aproveita a produção para destacar o momento vivido pelo audiovisual piauiense. Segundo ele, o setor passa por um processo de profissionalização, com a presença de profissionais especializados em diferentes áreas.

O cinema piauiense está passando por um momento muito importante, que é o de profissionalização. Hoje nós temos aqui no Piauí profissionais do audiovisual, diretores de fotografia, produtores executivos, assistentes de direção, diretores de arte e iluminadores. Nós estamos vivendo um momento que não é mais marginal

AJosé Fontinelle diretor, roteirista e professor de literatura

AJosé lembra que começou a produzir audiovisual ainda na adolescência, quando tinha apenas 14 anos. Naquela época, segundo ele, a estrutura era muito limitada. Hoje, ele avalia que o cenário é diferente, com profissionais mais preparados e projetos que conseguem acessar editais de cultura estaduais e nacionais.

Em “Revolução Aruana”, a construção visual da obra teve um cuidado especial. “Como a temática é indígena, nós tivemos um cuidado com a fotografia, com o figurino, um respeito muito grande”, explica.

A escolha do elenco também buscou aproximar a produção da comunidade retratada. Ariel, que interpreta Aruana na fase adulta, é estudante de Psicologia em Teresina. Já Valentina, que interpreta a personagem durante a infância, foi encontrada na própria comunidade Nazaré.

Para AJosé, a história de Aruana também conversa diretamente com os jovens e com a educação. “Fiquem atentos, jovens, porque são os indígenas conquistando seu espaço dentro da área de Direito, onde eles podem se defender, algo sobre o qual muitas vezes não se fala tanto”, ressalta.