A trajetória de uma jovem indígena piauiense que deixa sua comunidade para cursar Direito em Teresina é o fio condutor de “Revolução Aruana”, novo filme do diretor, roteirista e professor de literatura AJosé Fontinelle. Com duração de aproximadamente 40 minutos, a produção é um média-metragem de ficção inspirado em histórias que fazem parte da realidade de muitos jovens indígenas que chegam à universidade, inclusive por meio das políticas de cotas.
Aruana é uma jovem da comunidade Nazaré, localizada em Lagoa de São Francisco, entre os municípios de Piripiri e Pedro II. Ela conclui o ensino médio em uma escola pública, utiliza também a internet como ferramenta de estudo, presta vestibular para Direito e, após ser aprovada, parte para Teresina. Para o diretor, embora a personagem seja fictícia, sua trajetória representa a de muitas jovens indígenas existentes no país.
A obra é uma obra de ficção, mas ela existe. Existem várias jovens como a Aruana aqui em Teresina e no Brasil inteiro que entraram na universidade através de cotas, por exemplo. Eles estão se vendo ali, exatamente
O próprio nome da personagem carrega um significado relacionado à essência da história. Segundo o diretor, Aruana significa “paz, serenidade, contato com a natureza” na língua indígena. A produção também procura apresentar uma comunidade indígena contemporânea, distante de estereótipos. Em Nazaré, há um museu indígena, ocas utilizadas em rituais e reuniões, além de internet e outros recursos presentes no cotidiano dos moradores.
A comunidade reúne povos que se identificam como Tabajara Tapuio-Itamaraty. Para AJosé, mostrar essa realidade é uma das formas de combater a invisibilidade histórica que ainda atinge os povos indígenas do Piauí.
“Eu tenho certeza de que quem está nos assistindo agora está se perguntando: ‘Meu Deus, e há comunidades indígenas no Piauí?’. Porque, por muito tempo, os próprios livros de história traziam a informação de que os indígenas piauienses tinham sido dizimados”, afirma.
O diretor destaca que existem diferentes comunidades indígenas no estado, incluindo uma comunidade urbana em Teresina, a Nazaré, em Lagoa de São Francisco, e o povo Akroá Gamela, no Sul do Piauí. “Nós temos muitas comunidades, só que elas passam por esse processo de serem invisibilizadas”, acrescenta.
Revolução Aruana deve ser exibida em 10 cidades
A proposta do filme vai além da produção cinematográfica. Aprovado pela Lei Rouanet Nordeste e patrocinado pelo Banco do Nordeste, o projeto prevê que as exibições presenciais sejam acompanhadas de debates. A estreia está marcada para o dia 7 de outubro, na própria comunidade Nazaré, onde será montada uma estrutura com telão de LED e sistema de som para que os moradores possam assistir ao filme. “Eles vão se assistir. Vai ser muito legal essa estreia, muito interessante”, destaca AJosé.
Depois da estreia, “Revolução Aruana” seguirá em caravana por outras 10 cidades piauienses. A intenção é levar o filme gratuitamente ao público e, posteriormente, inscrevê-lo em festivais nacionais e internacionais.
O diretor também aproveita a produção para destacar o momento vivido pelo audiovisual piauiense. Segundo ele, o setor passa por um processo de profissionalização, com a presença de profissionais especializados em diferentes áreas.
O cinema piauiense está passando por um momento muito importante, que é o de profissionalização. Hoje nós temos aqui no Piauí profissionais do audiovisual, diretores de fotografia, produtores executivos, assistentes de direção, diretores de arte e iluminadores. Nós estamos vivendo um momento que não é mais marginal
AJosé lembra que começou a produzir audiovisual ainda na adolescência, quando tinha apenas 14 anos. Naquela época, segundo ele, a estrutura era muito limitada. Hoje, ele avalia que o cenário é diferente, com profissionais mais preparados e projetos que conseguem acessar editais de cultura estaduais e nacionais.
Em “Revolução Aruana”, a construção visual da obra teve um cuidado especial. “Como a temática é indígena, nós tivemos um cuidado com a fotografia, com o figurino, um respeito muito grande”, explica.
LEIA TAMBÉM
A escolha do elenco também buscou aproximar a produção da comunidade retratada. Ariel, que interpreta Aruana na fase adulta, é estudante de Psicologia em Teresina. Já Valentina, que interpreta a personagem durante a infância, foi encontrada na própria comunidade Nazaré.
Para AJosé, a história de Aruana também conversa diretamente com os jovens e com a educação. “Fiquem atentos, jovens, porque são os indígenas conquistando seu espaço dentro da área de Direito, onde eles podem se defender, algo sobre o qual muitas vezes não se fala tanto”, ressalta.