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Planta carnívora sem registros há 80 anos reaparece no Piauí em estudo da UFPI

Espécie aquática Utricularia warmingii foi encontrada em Campo Maior e pode ser classificada como “Em Perigo” no Brasil.

11/03/2026 às 18h47

Uma espécie rara de planta carnívora aquática, que em algumas regiões não era registrada há mais de 80 anos, foi encontrada no interior do Piauí por pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI). A descoberta ocorreu durante um inventário de plantas aquáticas realizado em 2023 no município de Campo Maior, a cerca de 80 quilômetros de Teresina. O registro levou cientistas a reavaliar o risco de extinção da espécie no país. O estudo foi publicado na revista científica Kew Bulletin.

Planta carnívora encontrada em Campo Maior em 2023.  - (UFPI ) UFPI
Planta carnívora encontrada em Campo Maior em 2023.

A planta identificada é a Utricularia warmingii, pertencente à família Lentibulariaceae, um grupo conhecido por espécies carnívoras que vivem em ambientes aquáticos. Com até 6 centímetros de altura, ela permanece submersa em águas rasas e captura pequenos organismos aquáticos por meio de estruturas microscópicas semelhantes a armadilhas, chamadas utrículos. Suas flores apresentam coloração branca com tons de amarelo e vermelho e surgem em uma haste inflada cheia de ar, característica que ajuda a planta a flutuar.

Apesar de ocorrer em países da América do Sul, como Bolívia, Colômbia e Venezuela, os registros da espécie são raros. No Brasil, havia registros antigos no Pantanal e em regiões do Sudeste, mas algumas populações podem ter desaparecido ao longo do tempo. Em São Paulo, por exemplo, não há registros desde 1939, o que indica possível extinção local. Já em Minas Gerais, onde a espécie foi descrita cientificamente pela primeira vez em 1877, também não houve novas coletas posteriores.

“A descoberta no Piauí amplia o conhecimento sobre a distribuição da espécie, mas também evidencia sua vulnerabilidade. Até agora, a população encontrada parece estar restrita a um único local, e novas buscas na região não localizaram outras ocorrências”, destaca o professor Francisco Ernandes Leite Sousa, mestrando da UFPI e líder da pesquisa.

O estudo também aponta que, mesmo quando aparecem em diferentes países, espécies como essa podem ocupar áreas muito pequenas dentro dos ambientes naturais. “Espécies como Utricularia warmingii podem ter distribuição geográfica ampla no mapa, mas na prática ocupam apenas pequenos fragmentos de habitat. Isso as torna especialmente vulneráveis à perda de áreas úmidas”, explica o pesquisador Paulo Minatel Gonella, do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e coautor do estudo.

Os cientistas alertam que os ambientes onde a espécie ocorre em lagoas rasas e áreas alagadas temporárias estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. Mudanças no regime de cheias, expansão agropecuária, uso de fertilizantes, introdução de espécies invasoras e alterações na paisagem podem comprometer a qualidade da água e a sobrevivência dessas plantas altamente especializadas.

No Brasil, os registros confirmados indicam que as populações da espécie estão isoladas e separadas por grandes distâncias, ocupando áreas muito pequenas. A área real de ocorrência estimada no país é de cerca de 36 km², o que reduz as chances de recolonização natural caso uma população desapareça. “Esse caso também mostra como ainda conhecemos pouco a flora de várias regiões do país. Áreas como o interior do Nordeste permanecem subamostradas, e novos estudos podem revelar espécies raras ou populações ainda desconhecidas”, afirma Gonella.


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Com informações da UFPI