Os registros deixados por grupos humanos há milhares de anos nas paredes rochosas da Serra da Capivara, no Sul do Piauí, guardam mais do que cenas de caça e rituais. Uma pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI) identificou, nas mesmas pinturas já conhecidas desde os estudos de Niède Guidon, vestígios de relações homoeróticas e identidades de gênero que desafiam a ideia de que a diversidade sexual seria um fenômeno contemporâneo.
A pesquisa que culminou na dissertação “Práxis queer: a arqueologia queer na análise interpretativa de arte rupestre”, de autoria da historiadora de formação, Luz Bispo Lima, que levantou questionamentos sobre a historicidade dos próprios conceitos de gênero e sexualidade das pinturas.
"Sou historiadora de formação e, ao longo do curso, aprendemos que os conceitos são, em essência, categorias do seu próprio tempo. Ainda assim, sempre questionei essa ideia. Minha principal dúvida era: será que gênero e sexualidade não podem atravessar diferentes temporalidades?”, explica Luz.
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As hipóteses da pesquisadora dialogam com estudos anteriores que tentaram abordar o tema, mas que, segundo ela, muitas vezes reproduzem discursos excludentes. “Em muitos casos, acabavam reproduzindo discursos de violência, ainda que de forma indireta. As evidências eram visuais e interpretativas, mas faltava um direcionamento que permitisse compreendê-las sem silenciar vozes dissidentes, considerando gênero e sexualidade como conceitos que também se flexionam no tempo”, afirma.
Luz destaca que o Piauí reúne um vasto potencial para estudos sobre a leitura queer, e que as evidências dessas identidades sempre estiveram presentes nos registros já conhecidos, mas que não eram reconhecidas pelos pesquisadores.
“As pinturas já eram conhecidas desde as pesquisas de Niède Guidon e foram, inclusive, descritas na arqueologia brasileira sob interpretações mais indefinidas. O diferencial da minha pesquisa não foi descobrir novas imagens, mas revisitar e reinterpretar aquelas que já existiam, mas haviam sido negligenciadas”, destacou.
O Parque Nacional Serra da Capivara, onde estão localizados os registros analisados, preserva vestígios arqueológicos da mais remota presença humana na América do Sul. Com cerca de 130 mil hectares, o parque abrange municípios do sudeste do Piauí e foi inscrito pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1991.
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