O Piauí registrou 37 feminicídios entre 1º de janeiro e 16 de dezembro de 2025, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-PI). A maioria dos crimes ocorreu no interior do estado, que concentrou 29 dos casos, o equivalente a mais de 78% do total, enquanto Teresina contabilizou nove ocorrências e Parnaíba apareceu em seguida, com seis.
Os números reforçam que a violência letal contra mulheres em território piauiense segue avançando fora da capital, onde o acesso à rede de proteção acaba sendo mais limitado, apesar da ação das políticas públicas e da atuação das forças de segurança pública.
As estatísticas mostram, ainda, que a idade média das vítimas foi de 36 anos, enquanto os autores tinham, em média, 38 anos, o que vai contra a concepção de que o feminicídio estaria restrito a relacionamentos mais longos ou a mulheres mais velhas. Ainda assim, o debate público costuma se concentrar quase exclusivamente no perfil das vítimas, deixando em segundo plano quem são os agressores, como agem e quais fatores se repetem em suas trajetórias até o crime.
Um levantamento elaborado pela Gerência de Análise Criminal Estatística da SSP-PI, por meio da Biografia da Vítima de Feminicídio do Piauí, divulgado no último mês de setembro, apontou que 87,85% das mulheres assassinadas entre os meses de janeiro de 2022 e abril de 2025 não haviam registrado boletim de ocorrência nem solicitado medida protetiva contra os agressores. O dado evidencia a subnotificação e reforça a avaliação de especialistas de que o feminicídio, em regra, é o desfecho de um ciclo prolongado de violência.
Em entrevista ao O Dia, a delegada da Polícia Civil do Piauí e subsecretária da SSP-PI, Eugênia Villa, afirma que o olhar exclusivo sobre a vítima acaba ocultando o centro do problema. De acordo com ela, é necessário “investigar o homem, o autor, dar rosto a esses agressores”, porque a ameaça e a violência partem deles. A delegada avalia que, ao destacar apenas o perfil ou a história da mulher violentada, há o risco de se desviar a atenção da responsabilidade criminal e social do agressor.
Criadora da primeira delegacia do país especializada em crimes por motivação de gênero e do aplicativo Salve Maria, Eugênia Villa explica que, desde outubro de 2024, o feminicídio passou a ser tipificado como crime autônomo, deixando de ser apenas uma qualificadora do homicídio. Na avaliação da especialista, a mudança fortaleceu as investigações e reduziu brechas que antes permitiam a desclassificação do crime no judiciário, o que resultava em penas menores.
“Hoje, a polícia já parte da perspectiva de gênero desde o local do crime, e isso espelha melhor a realidade”, afirmou a delegada da Polícia Civil do Piauí. Villa destaca que o Estado se tornou referência nacional nesse tipo de metodologia.
Mesmo com avanços legais, a delegada chama atenção para estratégias recorrentes de defesa usadas por agressores, que, frequentemente, alegam violenta emoção, consumo de álcool ou conflitos passionais para tentar reduzir a gravidade do crime. Para Eugênia, esses argumentos ignoram o histórico de controle, ameaças e perseguições que precedem o assassinato.
“Não é algo que acontece do nada. Há um passado de violência que precisa ser trazido à tona”, diz a delegada sobre os feminicídios e seus autores. Segundo ela, o perfil desses agressores se repete em diferentes casos. São homens que, na maioria das vezes, demonstram ciúmes excessivos, comportamento controlador, isolamento da vítima e desrespeito a ordens judiciais, como medidas protetivas.
O descumprimento dessas decisões judiciais que, em tese, deveriam proteger as mulheres ameaçadas revela não apenas o risco imediato à mulher, mas também o destemor em relação ao Estado e à Justiça, avalia a delegada.
Eugênia Villa aponta, ainda, que a motivação central do feminicídio está ligada a uma masculinidade fragilizada e à tentativa de reafirmação de poder. Para a especialista, quando o agressor sente que perdeu o controle sobre a mulher, reage com violência extrema. “O que está em jogo é a masculinidade dele, colocada em xeque”, afirmou, ao relacionar o crime a uma cultura patriarcal que naturaliza a violência contra as mulheres.
Especialistas alertam que sinais como controle sobre roupas e amizades, xingamentos, humilhações, ameaças, comportamento agressivo e agressões físicas ou psicológicas propriamente ditas costumam anteceder o feminicídio. A impunidade percebida, somada à banalização social dessas condutas, contribui para que o ciclo se repita.
Para a delegada, o enfrentamento exige uma resposta conjunta. De um lado, o Estado precisa reforçar a punição e a proteção às mulheres. De outro, a sociedade deve rejeitar qualquer forma de tolerância à violência. “É preciso dizer basta. Não é natural que mulheres sofram agressões”, concluiu Villa.
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