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Denúncias e polêmicas de última hora não mudam voto de quem já decidiu, avalia cientista política

Para especialista, polarização blinda o eleitor decidido e o WhatsApp é o canal que mais alcança os indecisos.

02/10/2026 às 15h44

Restam apenas dois dias para as eleições de 4 de outubro, e as campanhas, tanto no cenário nacional quanto no Piauí, foram marcadas por uma série de denúncias e fatos novos. Escândalos financeiros ligados ao Banco Master e às bets, disputas no STF sobre pautas religiosas e denúncias sobre acesso a água no interior do estado dominaram o debate público. O impacto real dessas publicações sobre a intenção de voto, porém, é bem mais restrito do que aparenta.

Para Henriqueta Osório, polarização blinda o eleitor decidido e o WhatsApp é o canal que mais alcança os indecisos. - (Arquivo / O DIA) Arquivo / O DIA
Para Henriqueta Osório, polarização blinda o eleitor decidido e o WhatsApp é o canal que mais alcança os indecisos.

Segundo a mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) Henriqueta Osório, as eleições vivem desde 2018 sob forte polarização ideológica. Nesse contexto, explica ela, o eleitor que já escolheu um lado filtra as notícias ruins sobre o seu candidato e rejeita as acusações desfavoráveis.

Henriqueta Osório, mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)  - (Arquivo Pessoal / Henriqueta Osório) Arquivo Pessoal / Henriqueta Osório
Henriqueta Osório, mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)

Para a cientista política, reservar denúncias de grande impacto para os dias que antecedem o pleito é uma estratégia que busca sensibilizar apenas uma parcela específica do eleitorado.

"Se é uma notícia ruim para o Flávio Bolsonaro, ela vai impactar para o lado contrário. Já o lado que defende o mesmo candidato vai olhar aquela notícia, mas não vai mudar o voto nessa altura do campeonato. Pode ser que pegue os indecisos. Por isso que se deixa para soltar essas grandes notícias, grandes 'bombas', na reta final da eleição, para pegar os indecisos, não para impactar no voto de quem já decidiu."

Lula e Flávio Bolsonaro disputam as eleições este ano.  - (FABIO RODRIGUES-POZZEBOM e LULA MARQUES/AGÊNCIA BRASIL) FABIO RODRIGUES-POZZEBOM e LULA MARQUES/AGÊNCIA BRASIL
Lula e Flávio Bolsonaro disputam as eleições este ano.

A decisão do presidente Lula de proibir as casas de apostas no país, justificada por questões de endividamento e saúde mental, exemplifica esse comportamento. Segundo Henriqueta, a polêmica levou influenciadores digitais e cidadãos a externarem publicamente suas preferências partidárias, mas sem promover conversões reais de voto. Quem já tinha posição consolidada apenas usou o debate para reafirmá-la.

Perfis criados em períodos eleitorais

Desde 2020, o Piauí assiste à criação de perfis em redes sociais para ataques, tanto pela oposição quanto pela base governista. Henriqueta define o fenômeno como uma "proliferação de perfis apócrifos", que recorrem a páginas de fofoca e a canais voltados ao ataque sistemático. Para a especialista, essas páginas raramente têm poder para definir o resultado de um pleito, porque a própria lógica dos algoritmos limita o alcance desses conteúdos às bolhas ideológicas correspondentes.

"Quanto mais você consome aquele tipo de conteúdo, mais ele aparece. Esse tipo de perfil apócrifo resvala nessa situação de que vai aumentar o alcance sobre aquela notícia ou comentário, mas é sempre para o lado que consome e que acredita naquele lado político."

O peso da (des)informação no WhatsApp

As redes abertas servem como caixa de ressonância, mas o verdadeiro potencial de persuasão sobre os indecisos surge quando o conteúdo migra para ambientes digitais fechados, com destaque para o WhatsApp. Diante do consumo acelerado de informações e do baixo hábito do eleitorado de checar fatos no Google, o compartilhamento direto de prints em grupos de convivência ganha peso desproporcional. É no ambiente doméstico e familiar que a informação ganha status de recomendação confiável.

Mensagens no Whatsapp tem maior destaque na disseminação de informações.  - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Mensagens no Whatsapp tem maior destaque na disseminação de informações.

"Repercute nos ecossistemas fechados do WhatsApp. A pessoa que é a favor de um político printa e compartilha dentro de um grupo, geralmente de família. Eles vão continuar compartilhando aquilo e vai impactar naquelas pessoas que não decidiram seu voto."

Segundo Henriqueta, a gravidade desse fluxo de desinformação levou até mesmo à intervenção da Justiça Eleitoral. Uma decisão recente do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI) determinou a suspensão de um perfil por uso de Inteligência Artificial na clonagem de voz.

A disputa no interior do Piauí

No interior do estado, a disputa revela outro componente decisivo, o pragmatismo diante da política pública vivida na prática. Um dos focos centrais da oposição ao governo estadual tem sido a crítica à distribuição e ao abastecimento de água. Nas regiões onde o eleitor é beneficiado diretamente pelas ações do governo, porém, as denúncias nas redes sociais esbarram na realidade concreta do cidadão.

Joel Rodrigues apostou em críticar a falta de acesso à água no interior do estado.  - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Joel Rodrigues apostou em críticar a falta de acesso à água no interior do estado.

"Nós nordestinos votamos muito pelo pragmatismo, pela realidade da nossa vivência mesmo, pelas políticas públicas que a gente vê. No interior do Piauí, uma notícia dessa que impacta diretamente numa política pública que a pessoa recebeu, talvez não seja bem-vinda, porque a realidade dela é 'Ah, eu estou recebendo água aqui'. A não ser que ela realmente já tenha o lado político dela muito bem definido, que ela fala 'Ah, eu não me importo com isso, eu já decidi e é sobre isso'."