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Da Procissão do Fogaréu à Paixão de Cristo em Floriano: conheça as principais celebrações da Semana Santa no Piauí

Santa Cruz dos Milagres, Oeiras, Floriano e Teresina reúnem fiéis em romarias, encenações e procissões históricas, preservando a fé e as tradições da Semana Santa no Piauí.

02/04/2026 às 17h30

O Piauí não se destaca apenas por ter a maior população católica apostólica romana do Brasil, 77,4%, mas pela forte tradição religiosa que mobiliza milhares de fiéis todos os anos. Muitos municípios piauienses estão na rota dos roteiros turísticos religiosos, cujas tradições voltadas para o catolicismo são muitos presentes e atraem muitos visitantes, transformam-se verdadeiros centros de devoção, reunindo moradores e visitantes em rituais que atravessam gerações. 

Da Procissão do Fogaréu à Paixão de Cristo em Floriano: conheça as principais celebrações da Semana Santa no Piauí - (Reprodução) Reprodução
Da Procissão do Fogaréu à Paixão de Cristo em Floriano: conheça as principais celebrações da Semana Santa no Piauí

Enquanto Santa Cruz dos Milagres ostenta o título de maior romaria do Piauí, Oeiras realiza a Procissão do Fogaréu. Em Floriano acontece a encenação da Paixão de Cristo, no segundo maior teatro à céu aberto do Brasil, e a Procissão do Senhor Morto é realizada em Teresina. Mesmo a quilômetros de distância, esses lugares têm algo em comum: unem, pela fé, centenas de pessoas.

Entre essas manifestações, a Procissão do Fogaréu, realizada em Oeiras, chama atenção por sua beleza e simbolismo. A tradição existe há pelo menos dois séculos e acontece na Quinta-feira Santa, representando a perseguição e prisão de Jesus Cristo pelos soldados romanos. O ritual, segundo a professora de História e presidente do Instituto Histórico de Oeiras, Tátilla Inêz, possui características únicas, por ser uma manifestação religiosa que não acontece em muitos lugares do Brasil. 

Durante a celebração, apenas homens participam diretamente da encenação, representando os soldados romanos. Com lamparinas acesas, eles percorrem as ruas do centro histórico, que ficam completamente às escuras para destacar ainda mais o brilho das luzes. “Você vê literalmente um mar de fogo andando pelas ruas. É algo belíssimo, que a gente não consegue descrever em palavras”, relata a professora.

Enquanto isso, mulheres e crianças acompanham o cortejo das calçadas, igrejas e praças, e seguem em oração. O momento é marcado por silêncio, fé e contemplação. As lamparinas, elemento central da procissão, simbolizam a iluminação usada na captura de Jesus, realizada durante a noite. “As lamparinas foram utilizadas porque a prisão de Jesus foi feita à noite. Aqui, houve uma adaptação com os materiais disponíveis na região, mas as mais tradicionais são feitas com lâmpada e querosene com pavio de algodão”, explica.

Da Procissão do Fogaréu à Paixão de Cristo em Floriano: conheça as principais celebrações da Semana Santa no Piauí - (Acervo Iphan/ Reprodução) Acervo Iphan/ Reprodução
Da Procissão do Fogaréu à Paixão de Cristo em Floriano: conheça as principais celebrações da Semana Santa no Piauí

A tradição, apesar de ter influências europeias, especialmente portuguesas, ganhou características próprias da cidade ao longo do tempo. “Tem influência dos portugueses, mas como aqui em Oeiras era uma vila interiorana, essa prática foi adaptada com os materiais e costumes locais. O que acontece em Oeiras é genuinamente nosso, a procissão, o trajeto, a participação só dos homens e o uso das lamparinas”, destaca Tátilla.

Um dos pontos que mais chama atenção na Procissão do Fogaréu é a participação dos homens e em como a tradição tem atravessado gerações. “É bem interessante, porque isso já está se tornando uma tradição de pai para filho. A gente percebe avô, filho e neto participando juntos”, afirma.

Segundo Tátilla Inêz, a manifestação tem se fortalecido a cada ano, com a participação cada vez maior da população. E, ao contrário do que se imagina, a procissão não corre risco de desaparecer. Além do significado religioso, a Procissão do Fogaréu também movimenta a economia local, com a produção e venda de lamparinas e o aumento no fluxo de visitantes. 

“Muita gente vem só para essa procissão e compra lamparinas para guardar. Ela [Procissão do Fogaréu] movimenta o comércio, a gastronomia e a vida cultural da cidade. No Museu de Arte Sacra, tem uma parte da exposição falando da Procissão e é muito bonito”, explica.

Mais do que um evento religioso, a Procissão do Fogaréu representa a identidade, a memória e o pertencimento do povo de Oeiras. No Piauí, a manifestação é um dos ritos marcantes da Semana Santa e é em Oeiras que a celebração acontece nessas proporções.

“As procissões fazem parte da cidade de Oeiras e a de Passos é mais popular, mas, há alguns anos, a do Fogaréu tem se destacado, por isso se deve ao momento de renovação da Igreja, da participação dos jovens. A procissão está ficando gigante. Ela faz parte do imaginário coletivo da cidade. É um momento de reunião de famílias, de retorno de quem mora fora e de vivência cultural e algo que as pessoas admiram, independente da sua fé”, conclui a professora.

Paixão de Cristo em Floriano, três década de fé, cultura e tradição

A Semana Santa no Piauí é marcada por manifestações religiosas que unem fé, cultura e tradição. Em Floriano, uma das expressões que se destaca é o espetáculo Paixão de Cristo, encenado há 31 anos e considerado o segundo maior do Brasil a céu aberto. Este ano, a apresentação será realizada nos dias 3 e 4 de abril, às 20h, com entrada gratuita. O Teatro Cidade Cenográfica conta com 55 mil m² e fica localizado na saída do município.

A produtora cultural Iraci Costa participa diretamente da Paixão de Cristo e destaca a importância dessa manifestação para Floriano. Ela lembra que, no início, as encenações aconteciam em praças da cidade, com apresentações itinerantes. O espetáculo surgiu de uma iniciativa popular e, ao longo dos anos, tornou-se uma grande manifestação da cidade. 

“O espetáculo é muito significativo, porque a gente conta a história de uma figura muito importante que passou aqui pela Terra, que é o Senhor Jesus Cristo. Antes, as apresentações eram nas praças, sempre com esse intuito de interagir atores e pessoas da comunidade”, relembra. 

Com o crescimento do projeto, surgiu a ideia de criar um espaço fixo, inspirado na cidade de Jerusalém, onde hoje funciona o teatro da cidade cenográfica. Para a construção do cenário e nos demais detalhes do espetáculo, a produção precisou realizar diversas pesquisas. O trabalho inicia ainda em outubro. Em dezembro, já inicia a escolha dos atores que irão interpretar as personagens e os ensaios. 

“Mais ou menos em dezembro e janeiro a gente inicia os encontros, faz leituras, define personagens. Há sempre um estudo, uma pesquisa, um laboratório para melhorar a interpretação. É um espetáculo de característica popular, onde a gente insere a comunidade dentro do espetáculo. Isso é muito importante, porque agrega a cidade como um todo”, afirma Iraci, destacando que a participação da comunidade é um dos pilares do espetáculo. 

Paixão de Cristo em Floriano, três década de fé, cultura e tradição - (Divulgação) Divulgação
Paixão de Cristo em Floriano, três década de fé, cultura e tradição

Para além do espetáculo, a Paixão de Cristo impacta econômica e culturalmente na cidade de Floriano. O evento atrai, todos os anos, centenas de visitantes de diversas cidades do Piauí e até de outros estados, impulsionando o comércio local, como hotelaria, gastronomia e turismo.

“Todos os anos, caravanas de diferentes regiões visitam a cidade para acompanhar a encenação. A gente recebe pessoas do Maranhão, Ceará, São Paulo. Além de assistir ao espetáculo, elas aproveitam para conhecer a cidade, visitar igrejas, o artesanato local e outros pontos turísticos”, conta a produtora cultural.

A movimentação também beneficia o comércio local, através da feira com artesanato e barracas com lanches. Já no turismo, pontos como a Catedral São Pedro de Alcântara, igreja central da cidade, a Capela de São Pio, Igreja de Santa Cruz, o Mosteiro das Monjas Concepcionistas, além do dos Cais do Porto, com teatro e restaurante. 

Segundo Iraci Costa, com entrada gratuita, o espetáculo Paixão de Cristo de Floriano amplia o acesso da população à cultura, proporcionando que todos aqueles que vivem na cidade possam prestigiar essa gigante apresentação. “Quando a gente não cobra ingresso, mais pessoas podem participar. Isso torna o evento ainda mais democrático”, ressalta.

A expectativa, para este ano, é de receber um público ainda maior que nos últimos anos. De acordo com a produtora cultural, diversas caravanas já entraram em contato com os hoteis da cidade em busca de hospedagem, o que reforça que o espetáculo tem crescido e chegado cada vez mais longe.

Para além de uma encenação, a Paixão de Cristo em Floriano tem se consolidado como um momento de reflexão e vivência coletiva da fé e preservação da história, reafirmando não apenas a fé, mas a identidade de uma cidade que continua mantendo viva essa tradição que se mantém por gerações. “É como um filme ao vivo, muito bonito, onde as pessoas podem reviver essa história todos os anos”, conclui Iraci Costa.

Paixão de Cristo em Floriano, três década de fé, cultura e tradição - (Divulgação) Divulgação
Paixão de Cristo em Floriano, três década de fé, cultura e tradição

Procissão do Senhor Morto e o silêncio na Sexta-feira Santa

A Semana Santa também é marcada por manifestações religiosas em Teresina, como a Procissão do Senhor Morto, realizada na Sexta-feira da Paixão e que atravessa gerações. O ato devocional reúne fiéis em um momento de reflexão sobre a morte de Jesus Cristo e mantém viva uma tradição herdada da cultura europeia.

Segundo o padre José de Pinho, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Amparo, a procissão tem origem na tradição cristã trazida por portugueses e espanhóis ao Brasil, e que se espalhou como um gesto de piedade. A celebração acontece sempre na Sexta-feira Santa, logo após a liturgia da Paixão do Senhor. Em Teresina, os fiéis concentram-se inicialmente na Igreja de Nossa Senhora das Dores, de onde partem em procissão pelas ruas do Centro da capital piauiense até a Igreja São Benedito. Após um momento de meditação, o percurso segue até a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo, onde as imagens são guardadas.

O principal símbolo da procissão são duas imagens muito significativas: a de Jesus Cristo morto, conhecida como Senhor Morto, e a de Nossa Senhora das Dores. “A atenção dos fiéis se volta justamente para essas duas imagens. A do Senhor Morto evoca o Cristo que padeceu por nossos pecados, e a de Nossa Senhora das Dores representa o sofrimento de Maria diante da morte do filho”, destaca o padre.

Procissão do Senhor Morto e o silêncio na Sexta-feira Santa - (Aquivo/ O DIA) Aquivo/ O DIA
Procissão do Senhor Morto e o silêncio na Sexta-feira Santa

Durante o percurso, o silêncio é uma das características mais marcantes da celebração. Diferente de outras manifestações religiosas, a procissão do Senhor Morto é marcada pelo recolhimento. “É uma procissão silenciosa, de reflexão e meditação. Alguns cantam, outros rezam, mas todos vivem esse momento de forma muito profunda”, afirma o padre.

Segundo o sacerdote, muitos fiéis também aproveitam o momento para pagar promessas e expressar sua fé, fazendo com que a tradição permaneça consolidada na cultura local. “Esse é um gesto religioso já bastante presente entre os fiéis, que manifestam sua solidariedade a Cristo que sofreu e morreu por nós”, enfatiza.

Apesar da redução no número de participantes nos últimos anos, a Procissão do Santo Morto continua sendo um dos momentos mais significativos da Semana Santa na capital. Segundo o padre, essa diminuição tem ocorrido, principalmente, por questões de mobilidade. Contudo, a celebração ainda se mantém muito reverenciada pelo povo.

A Procissão do Senhor Morto é mais do que um evento religioso, ela representa uma ligação entre o passado e o presente, mantendo viva uma tradição que une fé e cultura. “Essas imagens atravessaram gerações e continuam tendo o mesmo significado para o povo de Teresina”, conclui o padre.

 - (O DIA) O DIA

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