A possibilidade de Valença do Piauí receber rejeitos do Acidente com Césio-137 mobilizou moradores, escolas e autoridades locais em 1987, em uma reação marcada por medo, desinformação e protestos. Quase quatro décadas depois, o episódio volta ao debate com o lançamento da série Emergência Radioativa, da Netflix, que dramatiza a tragédia ocorrida em Goiânia.
O desastre começou quando um aparelho de radioterapia abandonado foi levado a um ferro-velho e aberto, liberando o Césio-137. O material, que emitia um brilho azulado, foi manipulado por moradores sem conhecimento dos riscos. A contaminação se espalhou rapidamente, com sintomas como vômitos, tonturas e queimaduras, e deixou quatro mortos.
Diante da crise, surgiu o desafio de armazenar os rejeitos contaminados. Antes da definição de um depósito definitivo em Abadia de Goiás, diferentes localidades foram cogitadas para receber o material. Entre elas, Valença do Piauí, cidade localizada na região Sul do estado, a cerca de 215 km da capital Teresina.
A notícia chegou como um choque. “A surpresa foi muito grande, todo mundo ficou apavorado, não sabia o que era que significava esse lixo atômico”, relembra a professora Marlene Laurindo, em entrevista ao O Dia. Segundo ela, o desconhecimento ampliou o temor. “Teve muito medo. Não sabia o que era, não sabia se ia prejudicar a saúde (da população). Então o medo foi grande”, disse.
A falta de informação moldou a percepção coletiva. “A gente deduzia que fosse uma doença contagiosa”, afirmou Marlene. Segundo ela, a reação ainda assim foi imediata, com envolvimento de autoridades e escolas. “Colocaram os estudantes, os colégios, para fazer passeada e cartazes para alertar toda a população de Valença”, ressaltou.
Marlene morava na cidade e participou das manifestações no período. “Houve muita passeada, muitos cartazes, a gente fez passeata. E eu participei porque era estudante na época, todos os colégios participaram”, contou.
Para a professora, a lembrança mais forte é o clima coletivo de desespero da população, não só de Valença, mas de todo o Brasil. “Só o desespero das pessoas. Foi um alvoroço muito grande na época”, disse ela sobre o que mais marcou sua memória do período.
O historiador Antônio José Mambenga avalia que o medo foi o principal motor da mobilização, mas não o único. “O medo apavorante repassado pelos meios de comunicação fez com que o povo se envolvesse de forma imediata”, disse ao O Dia. Ao mesmo tempo, segundo ele, “a consciência se formava de forma horizontalizada”, à medida que informações circulavam.
A organização do movimento envolveu diferentes setores. De acordo com o historiador, participaram órgãos públicos, lideranças políticas, instituições religiosas, escolas, comerciantes e entidades de classe. “O povo em si esteve envolvido, com o mesmo objetivo, dizer não à colocação do lixo atômico em Valença do Piauí", afirmou.
Ele destaca que a informação, mesmo fragmentada, foi determinante. “A população, até hoje, se interroga… alguns por entenderem um pouco, outros menos ainda, mas levados pelo medo e pelo que era repassado pelos meios de comunicação”, ressaltou.
O apoio de autoridades, de acordo com o professor, também teve peso para a decisão final. Para o historiador, houve uma resposta alinhada à pressão popular. “Agiram como representantes do povo na hora certa… o povo sentiu a recíproca e se sentiu representado", contou.
Apesar da mobilização, o episódio permanece pouco conhecido fora da região. Antônio José atribui isso à forma como a memória coletiva é construída. “A história precisa do protagonismo do povo para não cair no esquecimento”, disse, destacando o papel das escolas na preservação dessa lembrança.
O especialista acredita que os protestos contribuíram para o desfecho. “Fizemos nossa parte. Nosso eco atingiu dimensões que ultrapassaram o município, chegando ao epicentro das decisões", ressaltou.
Hoje, tanto tempo após o ocorrido, a exibição e sucesso da série "Emergência Radioativa" reacende essas memórias. Para o historiador, revisitar o episódio é essencial. “(A série) serviu para reativar a memória da população e também para a nova geração entender a dimensão do que foi”, afirmou.
Para Marlene Laurindo, que vivenciou o momento em Valença do Piauí, o sentimento atual é de alívio. “De grande alívio e alegria por não ter deixado colocar esse lixo aqui na nossa cidade", concluiu.
Enquanto a série “Emergência Radioativa”, que vem fazendo bastante sucesso no Brasil e no mundo durante a última semana, dramatiza os acontecimentos em Goiânia, em Valença do Piauí o passado ressurge como lembrança de um momento em que a população foi às ruas para decidir o próprio destino diante de uma ameaça invisível.
Entre o medo do desconhecido e a mobilização coletiva, Valença do Piauí transformou incerteza em reação. A história, agora retomada pela ficção, permanece como registro de um momento em que uma cidade inteira decidiu dizer não.
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