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Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987

Jornal impresso registrou o impacto do acidente de Goiânia no estado e a mobilização contra possível depósito de rejeitos radioativos, com protestos, embates políticos e apreensão popular.

11/04/2026 às 11h29

O acidente com o césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987, rapidamente ultrapassou as fronteiras de Goiás e passou a repercutir no Piauí por meio da cobertura do jornal O Dia. Em novembro daquele ano, as páginas do periódico registraram, em sequência, o avanço de uma preocupação que evoluiu de alerta técnico para mobilização popular, após a possibilidade de o estado receber rejeitos radioativos.

O desastre teve início quando, em Goiânia, uma cápsula de radioterapia abandonada foi violada em um ferro-velho, liberando césio-137, material altamente radioativo. O contato direto com o pó brilhante resultou em contaminação de dezenas de pessoas, com registros de mortes e ampla repercussão nacional.

13 de novembro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987 - (O Dia) O Dia
13 de novembro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987

A partir daí, surgiu a necessidade de destinação dos resíduos contaminados, o que levou autoridades federais a cogitarem diferentes localidades no país. Autoridades passaram a discutir o armazenamento dos rejeitos radioativos, abrindo espaço para a indicação de possíveis áreas de descarte em diferentes estados.

No Piauí, o tema ganhou força entre outubro e novembro de 1987. Em edição de 15 de outubro, o O Dia noticiou um projeto apresentado na Assembleia Legislativa pelo deputado João Silva Neto, que previa proibição total do depósito de lixo atômico no estado.

O texto estabelecia que “não será permitido, sob nenhuma hipótese, o depósito de qualquer espécie de lixo atômico em toda a extensão geográfica do território piauiense”.

15 de outubro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987 - (O Dia) O Dia
15 de outubro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987

Dias depois, a presença de material radioativo no estado também entrou na pauta. Em 10 de novembro, o jornal publicou que o físico e médico Luciano Viana afirmou existir césio-137 no Hospital São Marcos, em Teresina, embora ressaltasse que o material estaria sob controle. Segundo ele, não haveria risco à população porque “a cápsula com o césio está bem protegida, numa sala especialmente preparada”.

Na mesma reportagem, o médico contestou declarações oficiais e ampliou o debate sobre o desconhecimento institucional. Ele atribuiu a negativa do então secretário de Saúde ao fato de que este “tenha negado a existência da cápsula [...] por desconhecimento”.

Ao mesmo tempo, o profissional destacou que o material era submetido a “rigorosa e permanente vigilância” da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

A crise ganhou novo capítulo em 13 de novembro, quando o O Dia noticiou que a CNEN teria indicado os municípios de Valença e Itainópolis como possíveis áreas para recebimento de rejeitos nucleares. A informação provocou reação imediata de autoridades locais e estaduais, que passaram a questionar os critérios da escolha.

Reações de autoridades

Em 17 de novembro, a cobertura se aprofundou com forte repercussão política. O deputado Antônio Rufino relatou ter retornado do interior “apavorado” com a notícia e cobrou explicações sobre a inclusão dos municípios piauienses na lista da CNEN, ampliando a pressão sobre o governo e sobre a comissão federal.

Ainda nesse contexto, o deputado federal Heráclito Fortes anunciou que havia ingressado com uma ação judicial contra o presidente da CNEN, Rex Nazaré, no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. A iniciativa, conduzida pelo advogado Délio Lima e Silva, buscava responsabilizar civil e criminalmente o dirigente da comissão.

17 de novembro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987 - (O Dia) O Dia
17 de novembro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987
17 de novembro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987 - (O Dia) O Dia
17 de novembro de 1987: Arquivos do O Dia reconstroem o medo do césio-137 no Piauí em 1987

Na petição, o parlamentar argumentava que a escolha de áreas no Piauí havia causado “perplexidade e preocupação”, além de criticar o que considerava uma atuação arbitrária da CNEN na definição de locais para depósito de rejeitos nucleares.

No mesmo dia, o deputado federal Jesus Tajra também se posicionou contra a proposta, protestando na tribuna da Constituinte. Ele defendeu que o governo federal deveria priorizar investimentos no Piauí em vez de impor ao estado a destinação de resíduos radioativos. O parlamentar afirmou estar disposto a “enfrentar as últimas consequências” para impedir a medida e convocou a união dos piauienses contra a iniciativa da CNEN, destacando a apreensão das populações de Valença e Itainópolis.

O debate se espalhou pela Assembleia Legislativa, com posições divergentes entre parlamentares. O deputado José Reis, do PMDB, defendeu cautela ao afirmar que “não devemos agir na base do ‘emocionalismo’”. Já um dos deputados da época, Waldemar Macedo, declarou que cada estado deveria ficar responsável pelo próprio lixo, referindo-se aos rejeitos como “as suas porqueiras”.

Outros parlamentares reforçaram críticas à proposta. Antônio Rufino voltou a afirmar que a comissão agia de forma irresponsável e questionou a segurança das decisões. Em uma de suas declarações registradas pelo jornal O Dia, questionou “qual a população que fica tranquila ao saber que na sua cidade terá um depósito de lixo atômico”.

Reação popular

O tema chegou ao ápice em 21 de novembro, quando a população de Valença saiu às ruas em protesto. Segundo o O Dia, a população realizou passeata com faixas, cartazes e carros de som contra a inclusão do município na lista da CNEN. O jornal destacou que o ato foi organizado com participação de estudantes, lideranças locais e representantes políticos.

Césio-137 no Piauí: Valença reagiu com protestos após risco de receber lixo radioativo - (Reprodução/Arquivo Pessoal) Reprodução/Arquivo Pessoal
Césio-137 no Piauí: Valença reagiu com protestos após risco de receber lixo radioativo

O deputado Heráclito Fortes também aparece na cobertura da época como uma das vozes de oposição à proposta, tendo ingressado com ação judicial contra a CNEN. Ele recomendou ainda que o governo estadual adotasse medidas para impedir qualquer possibilidade de envio de rejeitos ao Piauí.

No mesmo contexto, o vice-governador Lucídio Portella, natural de Valença, classificou a inclusão do município na lista como “uma piada de péssimo gosto”. Já o deputado federal Jesus Tajra afirmou que iria “até as últimas consequências” para impedir a instalação de áreas de descarte no estado.

O então governador Alberto Silva também se posicionou contra a proposta, afirmando que o Piauí não aceitaria receber lixo atômico de outras regiões. Segundo ele, os rejeitos deveriam permanecer nos estados que utilizam energia nuclear.

21 de novembro de 1987: Jornal O Dia registrou reação popular ao césio-137. - (O Dia) O Dia
21 de novembro de 1987: Jornal O Dia registrou reação popular ao césio-137.

As matérias do O Dia mostram que a cobertura do período foi marcada pela combinação de informação técnica, pressão política e forte reação social.

O jornal acompanhou desde os primeiros sinais de discussão sobre armazenamento de rejeitos até a mobilização popular em Valença, registrando tanto declarações oficiais quanto a percepção da população diante da incerteza.

Quatro décadas depois, o episódio volta a ser revisitado com o lançamento da série “Emergência Radioativa”, que reconta o acidente de Goiânia em linguagem dramatizada. A produção reacendeu o interesse público pelo tema e trouxe novamente à memória o episódio em que cidades piauienses foram citadas em uma das discussões mais sensíveis da história nuclear brasileira.

O jornal O Dia, que completou 75 anos em fevereiro de 2026, mantém como lema “O que marca o Piauí fica impresso aqui”, e a cobertura de 1987 demonstra, na prática, a credibilidade do veículo, permanecendo como um dos registros históricos de como a imprensa local acompanhou, em tempo real, um debate que unia ciência, política e medo coletivo em torno do desconhecido.


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Com edição de Ithyara Borges.