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Areolino de Abreu: após assassinatos, especialistas pedem o fechamento do hospital

Levantamento feito pelo O Dia, revela, que entre 2015 e 2026, pelo menos dois pacientes foram assassinados dentro das dependências do hospital.

03/03/2026 às 17h00

Em pouco mais de dez anos, dois pacientes assistidos no Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu foram mortos nas dependências da instituição, ambos em situações semelhantes. Em 2015, um paciente foi encontrado morto nas primeiras horas do dia 25 de maio daquele ano, em um dos quartos do hospital; a suspeita recaiu sobre um companheiro de quarto. O caso mais recente ocorreu na madrugada da última quinta-feira (26) e vitimou Pedro Araújo da Silva, de 29 anos. Os dois episódios têm em comum a falta de monitoramento dos assistidos: no primeiro, a morte só foi percebida ao amanhecer; no segundo, a descoberta ocorreu após a fumaça se espalhar pela ala onde aconteceu o crime.

Hospital Areolino de Abreu registrou pelo menos dois assassinatos em dez anos.  - (Ascom / Governo do Piauí) Ascom / Governo do Piauí
Hospital Areolino de Abreu registrou pelo menos dois assassinatos em dez anos.

No caso de Pedro, os dois homens suspeitos de cometer o crime foram presos e encaminhados para uma ala da Cadeia Pública de Altos (CPA). Eles, no entanto, ainda podem ser considerados inimputáveis pela Justiça, já que têm diagnóstico de esquizofrenia. A morte reacendeu o alerta de entidades e profissionais do campo da saúde mental sobre o fim de hospitais psiquiátricos, como o Areolino de Abreu.

No mesmo dia em que ocorreu o último crime, uma equipe do Conselho Regional de Medicina do Piauí (CRM-PI) realizou uma vistoria no Hospital Areolino de Abreu e constatou uma série de problemas estruturais e falhas na segurança da unidade. Segundo o presidente do CRM-PI, Dr. João Moura Fé, as obras no hospital estão paralisadas, com apenas 25% de execução. Também foi constatada a ausência de enfermeiro no turno da noite e um número insuficiente de médicos para garantir assistência adequada aos pacientes, especialmente em um ambiente que demanda vigilância permanente.

A inspeção foi conduzida pelo presidente do CRM-PI, Dr. João Moura Fé, pelo vice-presidente, Dr. Raimundo Sá, e pelo médico fiscal Dr. Juarez Holanda. - (CRM-PI) CRM-PI
A inspeção foi conduzida pelo presidente do CRM-PI, Dr. João Moura Fé, pelo vice-presidente, Dr. Raimundo Sá, e pelo médico fiscal Dr. Juarez Holanda.

“A unidade se encontra em péssimas condições estruturais, sem segurança armada, contando apenas com segurança patrimonial e agentes auxiliares, que atendem aos pacientes. Vamos notificar a Secretaria de Saúde do Estado e solicitar providências, para que haja mais segurança para os médicos, demais profissionais de saúde e para os pacientes”, declarou o presidente do CRM.

As obras na Hospital Areolino de Abreu estão paralisadas e apenas 25% concluídas. - (CRM-PI) CRM-PI
As obras na Hospital Areolino de Abreu estão paralisadas e apenas 25% concluídas.

O doutor em Psicologia Social e coordenador do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da UESPI, Emanoel José Batista de Lima, em entrevista ao Jornal O Dia, defendeu o fim do Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu. Para ele, esses espaços são semelhantes a campos de concentração, sendo necessário o fechamento dessas unidades e o encaminhamento dos pacientes para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que inclui, por exemplo, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs).

Professor Emanoel José Batista de Lima, doutor em Psicologia Social e coordenador do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da UESPI. - (Arquivo Pessoal ) Arquivo Pessoal
Professor Emanoel José Batista de Lima, doutor em Psicologia Social e coordenador do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da UESPI.

“O que a literatura mostra e as pesquisas e a própria vida é que instituições manicomiais como o Areolino de Abreu, são comparadas a campos de concentração e que dentro dessas instituições os casos, eles só se cronificam. Eles só pioram, aumentam as crises dos usuários, os internos são violentados e muitas vezes a própria internação provoca, situações horríveis, terríveis de sofrimento mental mais agudo e acabam que as pessoas que ficam dentro de um hospital psiquiátrico são expostas a uma série de violências”, analisou.

A equipe do CRM-PI, em nota, alertou que, em 2023, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) recomendou a extinção dos manicômios psiquiátricos no país, dentro da política antimanicomial do Governo Federal. A diretriz prevê a transferência de pessoas internadas, inclusive aquelas que cumprem medidas de segurança determinadas pela Justiça, para a Rede de Atenção Psicossocial, uma vez que hospitais psiquiátricos, em muitos casos, não dispõem de estrutura física adequada nem de pessoal treinado para lidar com pacientes em situação de risco.

Vistoria no Areolino de Abreu apontou problemas estruturais. - (CRM-PI) CRM-PI
Vistoria no Areolino de Abreu apontou problemas estruturais.

A presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PI, Dra. Jessica Lima Rocha, informou ao Jornal O Dia que, assim que a comissão tomou conhecimento do ocorrido no Hospital Areolino de Abreu, foi acionado o Grupo de Trabalho de Saúde Mental e Luta Antimanicomial. O grupo encaminhou a expedição de informações oficiais à Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) e à direção do Hospital Areolino de Abreu, por meio de ofício institucional, com cópia ao Ministério Público do Estado do Piauí e ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Dra. Jessica Lima Rocha, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PI. - (Arquivo Pessoal) Arquivo Pessoal
Dra. Jessica Lima Rocha, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PI.

A Comissão também solicitou autorização para realizar uma inspeção no Hospital Areolino de Abreu. Além disso, será feita uma busca ativa de outros profissionais da saúde mental, pesquisadores e entidades parceiras, com o objetivo de ampliar o debate técnico e qualificar a análise.

“A Comissão acompanha o caso com preocupação institucional, especialmente por envolver pessoa em internação psiquiátrica, situação em que o Estado possui dever reforçado de proteção à vida, à integridade física e à dignidade humana”, declarou.

O movimento da luta antimanicomial começou nos anos 1970 e passou a se fortalecer no Brasil nos anos 1990, quando passou a defender o fim dos manicômios e dos hospitais psiquiátricos de longa internação. Em 2010, o Sanatório Meduna, que era particular, foi fechado após 56 anos de funcionamento, fazendo com que o Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu, inaugurado em 1907, permanecesse como o único a realizar internações mais longas no estado, mesmo com o encaminhamento de pacientes para a Rede de Atenção Psicossocial dos pacientes oriundos do Meduna.

Segundo o professor Emanoel Lima, há inúmeros registros de denúncias contra hospitais psiquiátricos em todo o país, e o Areolino de Abreu acaba sendo um deles. A maioria dos casos envolve conflitos entre os próprios internos, abandono e sobremedicação. De acordo com ele, as internações prolongadas tendem a agravar os quadros clínicos, pois, muitas vezes, essas pessoas ficam desassistidas e expostas a situações como as que culminaram nas mortes recentes de pacientes.

“O caminho não é aumentar os cuidados dentro de um manicômio, é aumentar os cuidados fora do manicômio, para destruir o próprio manicômio e as pessoas serem cuidadas numa rede substitutiva em liberdade. O caminho que a literatura em saúde mental tem mostrado é que as pessoas quando são ajudadas na rede de ação psicossocial, episódios de crise praticamente desaparecem”, defendeu.

De acordo com o Dr. Emanoel Lima, a manutenção do funcionamento do Hospital Areolino de Abreu decorre de falhas na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), tanto em Teresina quanto nos municípios do interior. Ele afirma que os episódios de crise são, em geral, passageiros e não exigem internações de longa duração, podendo ser manejados com leitos psiquiátricos em hospitais regionais e, na capital, no Hospital Getúlio Vargas (HGV).

O professor Emanoel Lima, defende que o acompanhamento seja realizado de forma exclusiva nos CAPS e outros espaços ligados a RAPS. - (FMS ) FMS
O professor Emanoel Lima, defende que o acompanhamento seja realizado de forma exclusiva nos CAPS e outros espaços ligados a RAPS.

“Antes, a pessoa entrava em crise e ficava a vida inteira no manicômio. Assim, quando você cuida da saúde mental em liberdade, através da rede de atenção psicossocial, as pessoas não precisam mais de manicômio. Mas isso não significa que na RAPS não existe internação. Há uma internação pontual para acolhimento à crise. Depois a pessoa volta pro CAPS, pra casa, pros outros dispositivos de cuidado”, disse.

Segundo o Dr. Emanoel Lima, os pacientes que deixam ambientes como o Hospital Areolino de Abreu e passam a ser acompanhados nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), conseguem passar anos sem apresentar crises mais acentuadas. O cenário, segundo ele, é oposto ao dos hospitais psiquiátricos, onde as internações prolongadas tendem a agravar os quadros clínicos. Por isso, o professor é taxativo ao defender a extinção desse tipo de instituição.

“O hospital psiquiátrico tem que ser extinto, tem que ser extinto e criado uma rede de atenção psicossocial que possa acolher a demanda de saúde mental. Inclusive os casos de crise. Porque crise é algo pontual, você entra, é cuidado com medicamento, com escuta, com acolhimento, inserção social e você sai da crise e depois você vai voltar a ser cuidado, no seu CAPS, no seu psicólogo, com a sua terapia de grupo”, declarou.

Em contato com o Jornal O Dia, a Fundação Municipal de Saúde (FMS) de Teresina informou que tem ampliado a rede de atenção psicossocial. Na comparação entre janeiro deste ano e 2025, houve aumento de 29,9% nas vagas de psicologia adulta. Na psicologia infantil, o crescimento foi de 67,5%; na psiquiatria adulta, a expansão chegou a 81,0%; e, na psiquiatria infantil, o salto foi de 525%.

Atendimentos na rede em Teresina, passaram por expansão, em alguns casos o aumento de atendimento foi de 525% no ultimo ano.  - (Divulgação/FMS) Divulgação/FMS
Atendimentos na rede em Teresina, passaram por expansão, em alguns casos o aumento de atendimento foi de 525% no ultimo ano.

A gerente de Saúde Mental da FMS, Luana Bueno, explicou que esse aumento foi possível após uma avaliação detalhada dos ambulatórios especializados. “Identificamos falhas e readequamos as escalas dos profissionais, o que melhorou a organização do serviço. Também houve a contratação de novos profissionais por meio de concurso público, o que permitiu ampliar a oferta”, explica.

Segundo Luana Bueno, Teresina possui número de CAPS superior ao estipulado pelo Ministério da Saúde para o atendimento de pessoas com transtornos mentais severos. Ela destacou ainda que existem centros que funcionam em regime de porta aberta e contam com equipe multiprofissional para atendimento contínuo. “Temos um esforço permanente para fortalecer a rede de cuidados em saúde mental e assegurar acesso aos serviços”, reforçou.

De acordo com a FMS, o município dispõe de leitos psiquiátricos no Hospital da Primavera, destinados exclusivamente a casos de alto risco de suicídio que exigem internação. A medida, no entanto, é criticada pelo professor Dr. Emanoel Lima, que defende a ampliação desses leitos para todos os casos de crise, o que, segundo ele, reduziria a necessidade de internação no Hospital Areolino de Abreu.

Hospital da Primavera, em Teresina, possui alas exclusivas para pacientes psiquiátricos.  - (Divulgação / FMS) Divulgação / FMS
Hospital da Primavera, em Teresina, possui alas exclusivas para pacientes psiquiátricos.

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi), quando questionada sobre a determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para o fim dos manicômios e de espaços de internação como o Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu, informou que não irá se manifestar sobre o tema. Em relação à inspeção realizada pelo Conselho Regional de Medicina do Piauí (CRM-PI), a secretaria afirmou respeitar a atuação do órgão e que ainda aguarda o envio do relatório oficial para tomar conhecimento das medidas apontadas.

Espaços de atendimento em Teresina:

Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)

Serviço de saúde aberto e comunitário que oferece cuidado especializado para pessoas com sofrimento psíquico e/ou decorrente do uso de drogas.

CAPS II AD: Rua Quintino Bocaiuva, nº 2978, bairro Macaúba, Teresina. Telefone: (86) 3218-7762.

CAPS II Leste: Rua Visconde de Parnaíba, nº 2435, bairro Horto Florestal, Teresina. Telefone: (86) 3216-3967.

CAPS II Sudeste: Rua Poncion Caldas, nº 6646, bairro Colorado, Teresina. Telefones: (86) 3236-8747 / 3234-2506.

CAPS II Norte: Rua Presidente Lincoln, nº 4727, bairro São Joaquim, Teresina. Telefone: (86) 3213-2080.

CAPS Infantil: Rua Coronel Cezar, nº 1566, bairro Morada do Sol. Telefone: (86) 3223-9661.

CAPS III Sul: Rua Costa Rica, nº 466, bairro Três Andares, Teresina. Telefones: (86) 3221-6422 / 3221-0092.

Provida

Ambulatório especializado no atendimento à demanda espontânea de pessoas com ideação suicida. Localizado na Rua Álvaro Mendes, nº 1557, no Centro de Teresina. Funciona de segunda a sexta-feira, em horário comercial. Telefone: (86) 99577-1567.

Minutos pela Vida

Projeto que oferece atendimento psicológico por telefone a pessoas que enfrentam sofrimento psíquico. O serviço é gratuito e pode ser acessado pelo número 0800 280 2882. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 18h30.


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