Portal O Dia - Notícias do Piauí, Teresina, Brasil e mundo

WhatsApp Facebook x Telegram Messenger LinkedIn E-mail Gmail

O CESSAR-FOGO

Afinal, Trump conseguir impor a reabertura ainda que temporária do Estreito de Ormuz, mas devemos lembrar que o Estreito estava aberto antes do conflito.

08/04/2026 às 14h18

O cessar-fogo entre os EUA e Israel contra o Irã, anunciado após 40 dias de conflito, estabeleceu uma trégua de duas semanas sob condições recíprocas. Donald Trump condicionou a interrupção dos ataques à reabertura imediata do Estreito de Ormuz, enquanto o Irã concordou com tal condição, desde que os ataques americanos e israelitas ao território iraniano cessassem durante a trégua. Trata-se de um cessar-fogo de curta duração, visto como uma etapa na busca da paz e não como o fim definitivo do conflito. O governo de Benjamin Netanyahu, embora apoie a posição americana, esclareceu que o cessar-fogo não se aplica ao Líbano, onde Israel continuará a sua ofensiva contra o Hezbollah.

 As negociações se fizeram sob a intermediação do Paquistão, onde novas negociações terão lugar com o objetivo de alcançar um acordo de paz a longo prazo. Para o fim do conflito, o Irã apresentou um plano de paz de 10 pontos que inclui a manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, o fim das sanções americanas e o direito ao enriquecimento de urânio, pontos que ainda geram forte resistência em Washington, embora Donald Trump tenha definido a proposta como uma "base viável para negociação".

Os 10 pontos do plano iraniano, conforme divulgado pela mídia estatal e reportados por fontes internacionais são: 1) Garantia de não agressão mútua e aceitação do programa de enriquecimento de urânio do Irã; 2) Passagem controlada pelo Estreito de Ormuz, coordenada com as Forças Armadas do Irã; 3) Fim da guerra em todas as frentes, incluindo a interrupção de ataques contra aliados do Irã, como o Hezbollah, no Líbano; 4) Retirada das forças de combate dos EUA de todas as bases e pontos de destacamento na região do Oriente Médio e Ásia Ocidental; 5) Terminação de todas as resoluções contrárias ao Irã do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA); 6) Estabelecimento de um protocolo de trânsito seguro no Estreito de Ormuz que garanta a dominância iraniana sob termos acordados; 7) Pagamento total de indenizações ao Irã pelos danos causados durante o conflito, de acordo com estimativas de reconstrução; 8) Remoção de todas as sanções primárias e secundárias contra o Irã; 9) Liberação de todas as propriedades e ativos iranianos bloqueados no exterior e fundos mantidos pelos Estados Unidos; e 10) Aprovação de todas estas condições através de uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança da ONU, tornando o acordo obrigatório perante o direito internacional.

O plano de paz prevê também que o Irã e Omã possam cobrar uma taxa de até US$ 2 milhões por navio que transitar pelo Estreito de Ormuz, fundos que seriam destinados à reconstrução do país. Em contrapartida, o Irã se comprometeria formalmente a não buscar a posse de armas nucleares, embora exija manter sua capacidade de enriquecimento civil.

As implicações das condições impostas pelo Irã no seu plano de 10 pontos representariam uma mudança extraordinária na política externa e na hegemonia dos Estados Unidos no Oriente Médio. Se aceitas integralmente, essas exigências significariam, na prática, uma capitulação estratégica de Washington após décadas de contenção. Ao aceitar o "trânsito regulado" sob coordenação das Forças Armadas do Irã, os EUA abririam mão do princípio de livre navegação em águas internacionais. A exigência de retirada das forças de combate de todas as bases na região forçaria os EUA a abandonar aliados estratégicos, como as monarquias do Golfo, e deixaria Israel isolado, abrindo caminho para que China e Rússia consolidassem sua influência como os novos garantidores da segurança regional. Sem presença física, a capacidade dos EUA de intervir rapidamente em crises ou proteger rotas comerciais seria drasticamente reduzida. Ao aceitar o programa nuclear iraniano, que certamente não respeitaria a limitação aos fins civis, Washington estaria admitindo o fracasso de 20 anos de diplomacia e contra-proliferação, o que poderia desencadear uma corrida armamentista nuclear na região, com países como Arábia Saudita e Turquia buscando capacidades semelhantes. A exigência de uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança da ONU blindaria o Irã contra futuras punições, retirando dos EUA a flexibilidade de agir caso Teerã viole os termos no futuro; e a obrigação de pagar reparações de guerra e liberar ativos congelados seria visto internamente nos EUA como uma transferência direta de riqueza para um adversário, o que deve sofrer resistência no Congresso norte-americano.

Apesar de desfavoráveis as condições impostas pelo Irã, o governo Trump pode estar considerando aceita-las ao menos parcialmente, vendo a proposta como uma rota de saída para evitar prolongar uma guerra que já causou danos severos na economia global e na avaliação do Governo Trump pelo eleitorado norte-americano, em um ano eleitoral.

Analista divergem sobre o resultado do conflito. Alguns consideram uma vitória do Irã, uma vez que o país demonstrou sua capacidade de dissuasão frente à América, pois é improvável que Trump reúna as condições políticas necessárias para retomar a guerra após o cessar-fogo de 15 dias. Outros afirmam que o Irã sai extremamente enfraquecido, pois, como resultado da Guerra de 12 dias e do conflito atual, o país teria perdido sua soberania territorial; sua marinha; e teve a sua liderança política decapitada. Pondera-se que ambos os lados cederam por falta de opções. Os EUA e Israel teriam atingido o limite de objetivos militares úteis, como a imposição de danos aos programas nuclear, de mísseis e de drones iranianos – mas não a eliminação dos mesmos - enquanto o Irã teria conquistado o sentimento interno no Irã de que o regime é "indestrutível".

 Trump utilizou-se da "Madman Theory" (Teoria do Louco), herdada de Nixon, agindo de forma imprevisível para pressionar o adversário, mas o uso de linguagem "genocidária", por meio da qual Trump ameaça destruir a civilização iraniana, teria desestabilizado os militares americanos, que são treinados para não cumprir ordens ilegais. Diz-se que Trump teria caído na própria armadilha ao encontrar nos líderes do regime iraniano alguém mais louco que ele, Trump.

Com o episódio, o Irã provou a eficácia do bloqueio do Estreito de Ormuz como arma de guerra híbrida, mas o método pode ser visto como uma "houthisação" do Irã, ou seja, o Estado agindo como um grupo pirata para exercer pressão internacional, o que demonstraria a degradação de sua imagem como potência soberana.

Há muito ceticismo quanto à estabilidade da Região a longo prazo, dada a persistência ideológica do regime de 1979, que deve continuar perseguindo a conquista do átomo e desenvolvendo seus programas de mísseis e drones. Internamente a repressão contra o povo iraniano continua severa, com execuções diárias, mostrando que o regime não mudou sua natureza.