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A MUTAÇÃO NO REGIME IRANIANO

O mercado acreditava que o Irã não seria capaz de cumprir a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz e que, mesmo que o fizesse, os EUA estariam aptos a desbloqueá-lo rapidamente.

03/05/2026 às 19h32

A história das relações internacionais é frequentemente marcada por consequências não previstas ou não pretendidas. Ao lançar a operação Epic Fury em 28/02/2026, a administração Trump buscava a derrubada do regime dos Aiatolás. Logrou a eliminação física de Ali Khamenei, mas, no processo, operou não uma mudança de regime, como pretendido, mas uma mutação genética no regime instalado no Poder, transformando uma ditadura teocrática em uma ditadura militar extremista e pragmática, que se vale da ideologia religiosa apenas para sustentar o exercício do Poder absoluto, sob o comando da Guarda Revolucionária (IRGC).

Antes da data fatídica de 28/02/2026, o Irã tinha um sistema de pesos e contrapesos projetado por Khomeini em 1979 para garantir a sobrevivência perpétua do regime. Esse equilíbrio apoiava-se em um triângulo de poder onde cada pilar controlava o outro e todos dependiam da arbitragem do Líder Supremo. Ali Khamenei, no papel de Líder Supremo, ocupava o topo da pirâmide, atuando como o juiz final que equilibrava as demandas, vetava excessos e mediava disputas entre as facções. Sua função era impedir que qualquer um dos outros pilares se tornasse poderoso o suficiente para ameaçar a estrutura do Estado.

A Casta Clerical e Religiosa, representada pelo Aiatolá e pelo Conselho de Especialistas, fornecia a fundamentação ideológica e a legitimidade divina para o governo. Era a força que validava o sistema perante a população mais conservadora.

O Aparato Político e Civil era composto pelo Presidente, Parlamento e corpo diplomático. Este pilar geria a economia, negociava com o mundo e servia como uma válvula de escape para a frustração popular através de eleições controladas. Embora subordinado ao Líder Supremo, possuía certa autonomia administrativa e técnica.

Por fim, a Guarda Revolucionária – IRGC, criada para ser a "força armada pessoal" do regime. Atuando em paralelo com o exército regular, era encarregada de garantir a segurança interna e a projeção de força no exterior. Sua lealdade era direta ao Líder Supremo, e não ao Estado ou à Constituição.

O equilíbrio se dava por uma dependência mútua. Os militares (IRGC) dependiam da legitimidade fornecida pelos clérigos para justificar sua influência e orçamento; os políticos dependiam do Líder Supremo para validar seus cargos e da IRGC para manter a ordem pública; e o Líder Supremo dependia da IRGC para proteção física e dos clérigos para autoridade moral. Com a eliminação de Ali Khamenei em 28 de fevereiro, este triângulo ruiu: o pilar político foi esvaziado, a casta clerical perdeu sua voz de comando e o pilar militar (IRGC), liderado por Ahmad Vahidi, assumiu o controle total, transformando o equilíbrio em uma hegemonia militar opaca e intransigente, que vê a guerra como a fonte de seu poder político, sem a qual eles poderiam perder a justificativa para gerir diretamente todas as áreas críticas do governo.

Com isso, a posição oficial da nova liderança é de não recuo em pontos que os EUA consideram irrenunciáveis, como a soberania absoluta sobre o Estreito de Ormuz e a restrição ao programa nuclear, de proxies e de mísseis. As convicções da nova liderança iraniana são reforçadas por experiências traumáticas de acordos anteriores que não foram cumpridos pelo Ocidente, como o acordo nuclear alcançado na Administração Obama, em 2015, da qual a primeira Administração Trump se retirou em 2018, sem cerimônia. Por fim, o progresso das negociações em busca da paz é prejudicado não apenas por ideologia, mas pela falta de um árbitro interno do sistema para mitigar as tensões entre o Aparato Político e Civil – o corpo diplomático à mesa de negociações – e os generais da IRGC.

O mercado acreditava que o Irã não seria capaz de cumprir a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz e que, mesmo que o fizesse, os EUA estariam aptos a desbloqueá-lo rapidamente, conclusões estas que ignoraram as capacidades iranianas de guerra híbrida, associadas às características geográficas do cenário do conflito, as quais destacamos no artigo intitulado “O Complexo conflito EUA versus Irã”, publicado no Substack, em 01/02/2026.

O otimismo inicial dos mercados, que acreditavam em uma resolução rápida da crise, deu lugar a um diagnóstico sombrio, segundo o qual o mundo está a poucas semanas de um colapso no sistema de combustível e sob ameaça de uma crise alimentar. A interrupção no Estreito de Ormuz removeu cerca de 12,3 milhões de barris por dia (b/d) do suprimento global, o que representa mais de 10% do consumo mundial. O choque inicial foi amortecido pelos estoques reguladores e pelo volume de petróleo que já estava no mar antes do conflito. Contudo, a liberação coordenada de 400 milhões de barris das Reservas Estratégicas de Emergência, pela Agência Internacional de Energia (IEA) — a maior da história, equivalente a 1/3 do estoque total — foi planejada sob a premissa de uma guerra curta. Com a perspectiva de um fechamento indefinido de Ormuz, a disposição de drenar tais reservas minguará rapidamente.

Diferente da crise de 2022, em que o petróleo russo foi redirecionado, com cerca de 3 milhões de barris por dia (b/d), que antes eram destinados à Europa, sendo desviados para compradores na Ásia, principalmente China e Índia, o fechamento de Ormuz remove fisicamente cerca de 12,3 milhões de b/d do produto do mercado global. O volume removido agora é quatro vezes maior do que o volume russo que foi redirecionado em 2022. Mesmo que o estreito reabra imediatamente, estima-se que 3% da produção anual mundial já foi perdida devido aos atrasos logísticos, pois o volume que deixou de circular durante os meses de bloqueio não pode ser compensado rapidamente, uma vez que a infraestrutura de exportação (terminais e navios) opera próxima da capacidade máxima e não consegue aumentar a velocidade a ponto de recuperar o tempo perdido. A revista The Economist estima que a perda chegará a 1,5 bilhão de barris, correspondente a 5% da produção anual global. O mundo caminha para um cenário onde o consumo de combustível terá de ser racionado globalmente, seja através de preços que restrinjam o consumo, seja pelo desabastecimento do produto, enquanto o Irã se consolida sob uma ditadura militar que se nutre justamente desse caos.

A vida no Ocidente parece pouco afetada por ora, sendo muito impactada apenas pelo aumento do preço do querosene de aviação, que quase dobrou para as companhias aéreas na Europa, assim como na Ásia, forçando o cancelamento de voos e a cobrança de sobretaxas. Na Ásia, no entanto, sete países já impuseram mandatos de teletrabalho e cinco iniciaram o racionamento de combustível.

O aumento da diferença entre o preço do petróleo bruto e o dos seus derivados, como diesel e querosene de aviação — fenômeno conhecido como crack spread — revela um descompasso crítico entre os contratos futuros e a escassez física imediata. Enquanto o atual preço internacional do barril de petróleo bruto é influenciado por expectativas do mercado futuro, os custos de aquisição para entrega imediata (dated Brent) refletem a escassez momentânea gerada pela crise no Golfo, impondo um ágio que empurra as margens das refinarias para o vermelho, forçando cortes na produção justamente quando os estoques mundiais de diesel e combustível de aviação atingem patamares perigosamente baixos. Num cenário de normalidade, a diferença entre o preço internacional do barril do petróleo bruto e o preço do produto refinado é de US$ 15,00 a US$ 20,00, mas com o ágio cobrado atualmente essa diferença passou para uma faixa de US$ 50,00 a US$ 80,00.

A par da ameaça representa pela escassez das reservas de energia, após 2 meses de conflito, o mundo está a entrar num período crítico para a segurança alimentar. Cerca de 50% do nitrogênio presente nas proteínas de consumo humano, atualmente, vêm de fertilizantes nitrogenados, produzidos em fábricas que dependem do gás natural. Sem tais fertilizantes, os rendimentos globais de cereais básicos (trigo, milho e arroz) poderiam colapsar em 40% a 50%. A perturbação no fornecimento de gás se reflete em queda da produção alimentar.

A escassez anunciada exacerba o dilema dos agrocombustíveis (etanol e biodiesel), acusados de agravar a escassez alimentar, em que pese a sua contribuição para o clima, pois quando o preço do petróleo bruto sobe, a demanda por etanol de milho e biodiesel de soja aumenta, desviando terras e colheitas do mercado alimentar para o setor de energia.

Há uma expectativa de que, à medida que as reservas de petróleo se esgotem, a China abandone a postura de observadora para passar a intervir no conflito, a fim de garantir sua própria segurança alimentar.