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Dia da Árvore: entre o calor e a falta de sombra, Teresina tenta voltar a ser a cidade verde

Capital prevê ampliar arborização nos próximos 20 anos enquanto enfrenta perda de cobertura vegetal, ilhas de calor e desigualdade entre regiões.

21/09/2026 às 14h38

21/09/2026 às 14h38

No Dia da Árvore, celebrado nesta segunda-feira (21), Teresina enfrenta o desafio de ampliar a arborização urbana em meio ao avanço das áreas construídas e às altas temperaturas. A capital tem um Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), que prevê o plantio de cerca de 1,45 milhão de mudas em 20 anos, mas ainda convive com déficit de cobertura vegetal e distribuição desigual das árvores.

O diagnóstico que fundamentou o plano foi realizado em 2023 e analisou, por amostragem, as quatro zonas administrativas da cidade. O levantamento identificou a quantidade de árvores em vias públicas, praças, áreas verdes e Áreas de Preservação Permanente (APPs), apontando a necessidade de ampliar a cobertura vegetal em diferentes regiões.

Dia da Árvore: entre o calor e a falta de sombra, Teresina tenta voltar a ser a cidade verde - (Assis Fernandes/ODIA) Assis Fernandes/ODIA
Dia da Árvore: entre o calor e a falta de sombra, Teresina tenta voltar a ser a cidade verde

Nas APPs, o déficit estimado é de 5.250.733 mudas para a cobertura completa. Para os 20 anos de execução do PDAU, a previsão é utilizar aproximadamente 1.450.201 mudas, já considerando 20% de reposição em caso de perdas. Desse total, 338.912 estão destinadas às vias públicas, 4.988 às praças, 56.154 às áreas verdes e 1.050.147 às APPs.

Arborização também é questão de temperatura

Em Teresina, a discussão sobre árvores está diretamente ligada ao calor. A vegetação ajuda a reduzir a incidência direta da radiação solar sobre ruas, calçadas, prédios e pedestres, além de contribuir para o resfriamento do ambiente por meio da evapotranspiração.

Estudos realizados na capital já identificaram relação entre cobertura vegetal e redução dos efeitos das ilhas de calor. No Polo de Saúde, foram observados efeitos de resfriamento associados à arborização. Na Avenida Frei Serafim, o índice de sombreamento arbóreo foi de 24,61% no trecho analisado.

De acordo com especialistas, o PDAU deve ser tratado como instrumento de planejamento urbano e climático, e não apenas como uma estratégia de plantio. Áreas com maior déficit de arborização, temperaturas mais elevadas, circulação de pedestres e vulnerabilidade socioambiental deveriam receber atenção prioritária.

A distribuição das árvores também interfere na drenagem urbana. Copas interceptam parte da chuva, enquanto raízes e áreas permeáveis favorecem a infiltração da água. Essas soluções não substituem galerias e outras estruturas, mas podem reduzir a velocidade do escoamento superficial e a pressão sobre o sistema convencional.

Meta de plantio ainda está em execução

Até agosto deste ano, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou ter plantado aproximadamente 24 mil mudas nativas e ornamentais, sendo cerca de 15 mil espécies nativas. O PDAU estabelece 48 mil mudas como meta para 2026. A gestão municipal também prevê alcançar 100 mil mudas plantadas em 2027.

Dia da Árvore: entre o calor e a falta de sombra, Teresina tenta voltar a ser a cidade verde - (Assis Fernandes/ODIA) Assis Fernandes/ODIA
Dia da Árvore: entre o calor e a falta de sombra, Teresina tenta voltar a ser a cidade verde

O plano prevê 15 mil mudas apenas para vias públicas e praças no primeiro ano de execução. A região Centro-Norte aparece como prioridade posterior por concentrar maior população, circulação de pedestres e percentual de área construída, características associadas a maior exposição ao calor.

A implementação do PDAU ocorre enquanto o Plano de Arborização ainda aguarda transformação em política pública municipal. Em 2026, a Prefeitura encaminhou à Câmara Municipal o Projeto de Lei Complementar nº 132/2026, que estabelece medidas de manejo, sanções para intervenções irregulares e valorização de espécies nativas e árvores antigas.

A proposta foi analisada pela Comissão de Constituição, Legislação, Justiça e Redação Final neste mês e ainda deve passar por audiência pública prevista para outubro. Enquanto isso, as diretrizes do plano podem ser utilizadas pela administração municipal, segundo a Semam.

O desafio também envolve árvores que já fazem parte da história de Teresina. Em agosto, três oitizeiros centenários foram retirados no Centro após solicitação do proprietário do imóvel. Segundo a Defesa Civil, a remoção ocorreu devido ao risco para moradores, pedestres e edificações próximas.

A perda de árvores adultas, além da redução imediata da sombra, representa a retirada de uma estrutura que levou décadas para alcançar o porte atual. Uma nova muda plantada no mesmo local pode precisar de até 30 anos para oferecer potencial semelhante, dependendo das condições de crescimento e manejo.

O contraste entre a necessidade de ampliar a arborização e a preservação das árvores existentes marca o desafio de Teresina para os próximos anos. A capital que recebeu, em 1899, do poeta Coelho Neto, o título de “Cidade Verde” precisa conciliar crescimento urbano, preservação e criação de áreas com sombra em uma cidade marcada pelo calor.