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O verde que sufoca o Poti: tapete de aguapés volta a tomar conta do rio

Para quem vive do rio, as plantas representam prejuízos e dificuldade para navegar e trabalhar; especialista explica o que contribui para a proliferação.

01/10/2026 às 13h40

O Rio Poti volta a conviver com grandes concentrações de aguapés neste período de estiagem em Teresina. A planta aquática ocupa trechos do rio, dificulta a navegação e a pesca e chama atenção para uma questão que vai além da retirada da vegetação. Segundo pescadores e especialista ouvido pelo O Dia, a proliferação está relacionada principalmente à combinação entre baixa correnteza, muita luz e excesso de nutrientes na água.

Para quem vive do rio, o problema começou antes de os aguapés se tornarem visíveis em grandes blocos próximos às pontes. José Francisco, pescador e representante do grupo Guardiões do Poti, afirma que o crescimento já era percebido desde julho, quando a redução das chuvas fez diminuir a correnteza.

O verde que sufoca o Poti: tapete de aguapés volta a tomar conta do rio - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
O verde que sufoca o Poti: tapete de aguapés volta a tomar conta do rio

“Quando a chuva parou, o aguapé já começou a aumentar no rio. Só que agora ele já está em um volume muito grande, que é quando ele sobe para as pontes – da Primavera, Ponte Estaiada, Ponte da Frei Serafim”, relata.

Segundo o pescador, a vegetação já vinha crescendo em áreas próximas ao Zoobotânico e se desloca com a ação do vento, acumulando-se em determinados pontos. A consequência é uma dificuldade crescente para quem precisa se deslocar pelo Poti. “Desde julho que a gente está com esse problema de não navegar mais no rio, por conta do aumento do aguapé”, afirma.

Estiagem favorece concentração

O biólogo Bráulio Fernandes explica que a estiagem tem papel importante nesse processo, mas não é, sozinha, a causa da proliferação. Com a redução das chuvas, a correnteza diminui e deixa de transportar os aguapés para o Rio Parnaíba. Ao mesmo tempo, há maior incidência de luz e concentração de nutrientes na água.

“Nessa época, (...) os aguapés ficam não apenas concentrados, como o vento também os traz aqui para cima do rio. E o aguapé se reproduz rapidamente, porque nessa época do ano, basicamente, é sol o dia inteiro”, explica.

O biólogo resume o cenário como uma combinação de fatores. “É a combinação de água disponível do rio, muitos nutrientes e muita luz. E sem correnteza para levar esses aguapés, eles se acumulam”, diz.

A presença da planta em grande quantidade, entretanto, pode indicar algo mais profundo sobre o ambiente. Bráulio explica que o aguapé funciona como um bioindicador, ou seja, sua proliferação pode revelar a presença excessiva de nutrientes e um processo de eutrofização da água.

“O aguapé, na verdade, a sua proliferação, indica que tem nutrientes sobrando, que o rio está poluído, o rio está eutrofizado”, afirma.

Segundo ele, entre as fontes desses nutrientes estão a poluição urbana, o esgoto e outros materiais carregados pela água. Para o biólogo, retirar a planta sem enfrentar a origem do problema significa atuar apenas sobre uma consequência.

O verde que sufoca o Poti: tapete de aguapés volta a tomar conta do rio - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
O verde que sufoca o Poti: tapete de aguapés volta a tomar conta do rio

Pescadores enfrentam prejuízos

O impacto é direto para quem utiliza o Poti como fonte de trabalho. José Francisco afirma que, quando os aguapés cobrem o espelho d’água, os pescadores não conseguem chegar a determinadas áreas e têm dificuldade até para retirar as próprias redes.

“Os aguapés alteram muito a nossa pescaria, porque, antes de pescar, a gente precisa navegar no rio. E no momento que o aguapé toma todo o espelho d’água, a gente fica impossibilitado de navegar”, explica.

Ele cita como exemplo o trecho entre o Zoobotânico e o Encontro dos Rios, onde, segundo ele, a concentração da vegetação prejudica a atividade pesqueira. A dificuldade também representa aumento de despesas, já que alguns pescadores precisam buscar áreas de pesca no Rio Parnaíba.

“O Parnaíba é um rio mais corrente, então a gente precisa de mais combustível, de mais gelo, para ir para o percurso mais distante. Então, ele afeta diretamente a renda dos pescadores”, afirma.

Além da navegação e da pesca, o excesso de aguapés também interfere nas condições ambientais do rio. Bráulio explica que a cobertura da superfície reduz a entrada de luz e a área de contato da água com o ar.

“Diminui a luminosidade do rio, das algas que fariam essa fotossíntese. Então ele provoca realmente um sufocamento”, afirma. Segundo o biólogo, esse processo pode contribuir para a mortalidade de peixes e prejudicar a atividade pesqueira.

A retirada dos aguapés pode ser necessária, mas não representa, isoladamente, uma solução definitiva. Em 29 de agosto, pescadores do Guardiões do Poti, em parceria com o Desafio Teresina Entre Rios, realizaram um mutirão para retirar a vegetação.

O grupo, segundo José Francisco, reúne cerca de 30 pescadores que atuam voluntariamente na tentativa de cuidar do rio. Ele afirma que os pescadores também comunicam às autoridades quando identificam problemas, mas reclamam da falta de apoio.

José Francisco, pescador - (Instagram/Guardiões do Poty) Instagram/Guardiões do Poty
José Francisco, pescador

“Nós temos essa preocupação, porque nós vivemos do rio, faz parte da nossa vida. Mas a gente não tem apoio daquelas pessoas que são responsáveis por cuidar do rio”, afirma.

Em fevereiro de 2026, segundo os pescadores, os aguapés ocupavam cerca de 3 quilômetros do Rio Poti, principalmente na zona Leste de Teresina. Para José Francisco, ações preventivas durante o período chuvoso poderiam reduzir a quantidade de vegetação acumulada na estiagem.

“Eu garanto que Teresina não passaria por esse vexame de ter seu rio tomado por aguapé. Eu tenho certeza disso”, afirma, ao defender a retirada da vegetação das margens antes da redução da vazão.

Bráulio, porém, destaca outro desafio. O material retirado precisa ter destinação adequada e passar por análise para verificar se está contaminado. “A cidade acabou produzindo tantos nutrientes, tanto lixo, que é basicamente ‘enxugar gelo’. A gente realmente não vai dar conta desse problema só coletando aguapé”, afirma.

Para ele, a solução passa pelo tratamento da água antes que os nutrientes cheguem ao rio. Isso inclui o esgotamento sanitário e também o manejo da água da chuva, que pode carregar poluentes e resíduos das áreas urbanas.

“A forma de resolver, realmente, é tratando essa água. E garantindo que a água da poluição, da sujeira da cidade, não chegue ao rio”, afirma.

Ao O Dia, a Águas de Teresina informou que seu monitoramento está relacionado à qualidade da água dos sistemas sob sua responsabilidade e não abrange a qualidade da água do Rio Poti. A empresa também afirmou que não acompanha a presença de aguapés nem atua na retirada ou controle das plantas.

Sobre o esgotamento sanitário, a concessionária afirmou que a ampliação da rede e a conexão dos imóveis contribuem para reduzir lançamentos irregulares de esgoto nos corpos d’água. A empresa também reconheceu que o esgoto sem tratamento pode contribuir para a proliferação dos aguapés e informou que segue ampliando o sistema de esgotamento sanitário em Teresina.

A limpeza anual dos rios Poti e Parnaíba é prevista em acordo homologado pela Justiça Federal em novembro de 2024, em uma ação civil pública que tramita desde 2003. Conforme as obrigações assumidas, a limpeza deve ser realizada pelo município, com recursos depositados pela Águas de Teresina, até a implantação da cobertura prevista para o esgotamento sanitário de Teresina, prevista para 2033.

Em maio de 2026, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Piauí voltaram a acompanhar o cumprimento do cronograma de limpeza e saneamento dos rios. O Portal O Dia também procurou a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Teresina (Semam) para obter um posicionamento sobre as afirmações e as obrigações relacionadas à limpeza dos aguapés, mas não recebeu resposta até o momento.

Enquanto os aguapés avançam sobre o Poti, os pescadores seguem tentando abrir caminho onde antes havia espaço para trabalhar. Para quem depende do rio, o problema não termina quando a planta é retirada. Cada trecho tomado significa mais dificuldade para lançar as redes, mais tempo de deslocamento e, em alguns casos, mais gastos para buscar no Parnaíba as condições que já não encontram no próprio rio.

A luta dos Guardiões do Poti, dos pescadores da região, vai além de um mutirão ou da retirada periódica dos aguapés. É também uma tentativa de manter vivo um rio do qual famílias tiram sustento e ao qual dedicam tempo e esforço para preservar. Enquanto a poluição, a estiagem e a falta de corrente favorecem a proliferação da planta, os pescadores continuam fazendo a sua parte, mas cobram que a responsabilidade pela recuperação do Poti não recaia apenas sobre quem vive dele.

O verde que sufoca o Poti: tapete de aguapés volta a tomar conta do rio - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
O verde que sufoca o Poti: tapete de aguapés volta a tomar conta do rio