O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou nesta quinta-feira (10) o sigilo da principal investigação sobre o Banco Master e de outros procedimentos relacionados ao caso. A decisão foi tomada após um pedido do presidente da Corte, Edson Fachin, que solicitou acesso aos autos diante da sessão plenária marcada para 15 de setembro.
Ao todo, 15 procedimentos tiveram o sigilo retirado, incluindo a Petição 15.556, considerada a investigação principal, além dos Inquéritos 5.026 e 5.035 e de outras petições vinculadas ao caso. Parte das apurações, porém, continua sob sigilo.
A abertura dos autos permite o acesso a documentos da Polícia Federal que detalham, entre outros pontos, as movimentações de Daniel Vorcaro antes da deflagração da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Entre os documentos está um relatório que reúne elementos usados pela PF para sustentar que o ex-banqueiro teria obtido informações antecipadas sobre a operação.
Mendonça também determinou que cópias integrais dos procedimentos sejam encaminhadas à Presidência do STF e aos gabinetes dos demais ministros para análise.
“Em harmonia à solicitação formulada pelo eminente Presidente, Ministro Edson Fachin, promovo o levantamento do sigilo dos autos da PET nº 15.556 e dos procedimentos contidos ou relacionados”, escreveu o ministro no despacho.
O que aparece nos documentos liberados
Entre os documentos tornados públicos estão registros analisados pela Polícia Federal sobre os dias que antecederam a prisão de Vorcaro. A corporação aponta anotações feitas pelo ex-banqueiro, contatos com servidores do Banco Central, conversas com o advogado Walfrido Warde e uma tentativa de viagem ao exterior na véspera da operação.
Segundo a PF, em 21 de outubro de 2025, Vorcaro registrou no aplicativo de notas os nomes de representantes da corporação que haviam participado de uma reunião reservada com o Banco Central. Para os investigadores, o registro indica que informações relacionadas à apuração teriam chegado ao ex-banqueiro antes do cumprimento dos mandados.
Outro registro, de 16 de novembro, um dia antes da movimentação que terminou com a prisão, mencionava o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável pelo inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília. A PF afirma que o procedimento estava sob sigilo e considera o conhecimento do nome do magistrado um dos elementos que sustentam a hipótese de acesso antecipado a informações da investigação.
Na manhã de 17 de novembro, Vorcaro recebeu mensagens do advogado Walfrido Warde e, depois das conversas, mudou os planos e passou a organizar um voo com saída de Congonhas. Naquela mesma data, ele também tratou de uma reunião com representantes do Banco Central e informou que pretendia viajar para Dubai.
A PF afirma que a sequência de acontecimentos indica que Vorcaro já tinha conhecimento da atuação policial. Os investigadores também apontam que a reunião com o Banco Central teria sido antecipada para o dia 17, embora inicialmente estivesse prevista para o dia seguinte.
Na noite daquele dia, Vorcaro foi interceptado no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando estava prestes a embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes. A Operação Compliance Zero foi deflagrada oficialmente em 18 de novembro de 2025.
A investigação também reúne uma troca de mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Em 15 de novembro de 2025, o ex-banqueiro perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal. O relatório com as mensagens entre os dois integra o material que será analisado pelo plenário do STF em 15 de setembro.
A PF usou parte dos elementos reunidos na investigação para fundamentar um novo pedido de prisão preventiva de Vorcaro, apresentado em 27 de fevereiro de 2026. O pedido foi acolhido por Mendonça, e o ex-banqueiro voltou a ser preso na terceira fase da Operação Compliance Zero.
O que continua sob sigilo
Apesar da retirada do sigilo de 15 procedimentos, parte das investigações relacionadas ao caso Master permanece protegida. Entre elas está a apuração sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, que envolve o ex-banqueiro e o senador Flávio Bolsonaro.
O procedimento continua sob sigilo por estar em fase de investigação. A apuração envolve suspeitas relacionadas ao financiamento da produção e não foi incluída na decisão que tornou públicos os 15 procedimentos vinculados à Petição 15.556.
Também permanecem sob sigilo investigações envolvendo outros agentes políticos citados nos documentos do caso. A decisão de Mendonça preservou as diligências cuja divulgação poderia comprometer medidas ainda em andamento, conforme a ressalva feita no pedido de Fachin.
O levantamento do sigilo, portanto, não representa a abertura integral de todos os procedimentos relacionados ao Banco Master. A medida alcança a Petição 15.556 e outros 14 procedimentos, enquanto documentos vinculados a investigações ainda em andamento permanecem restritos.