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Canetas emagrecedoras: entre a promessa de resultados rápidos e os riscos do uso sem acompanhamento

Embora esses medicamentos tenham respaldo científico e indicação médica para casos específicos, o uso indiscriminado acende um alerta entre especialistas

29/04/2026 às 13h25

29/04/2026 às 13h25

O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” tem ganhado popularidade nos últimos anos, impulsionado principalmente pelas redes sociais e pela busca por resultados rápidos. Embora esses medicamentos tenham respaldo científico e indicação médica para casos específicos, o uso indiscriminado acende um alerta entre especialistas.

Canetas emagrecedoras: entre a promessa de resultados rápidos e os riscos do uso sem acompanhamento - (Reprodução/Freepik) Reprodução/Freepik
Canetas emagrecedoras: entre a promessa de resultados rápidos e os riscos do uso sem acompanhamento

Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que a obesidade atinge mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, sendo considerada uma epidemia global. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, mais da metade da população adulta está com sobrepeso, o que ajuda a explicar a crescente procura por soluções medicamentosas.

A endocrinologista Angela Maria Leal ressalta que o primeiro passo é compreender o papel real dessas medicações. “Informação de qualidade gera consciência. O nosso objetivo aqui hoje é isso: esclarecer a população sobre os reais riscos relacionados a essas medicações”, afirma. Ela destaca que as chamadas canetas são medicamentos aprovados, com indicação específica, e não soluções universais para emagrecimento.

Criadas originalmente para controle da glicemia, essas medicações demonstraram um efeito adicional importante: a perda de peso. A partir disso, passaram a ser estudadas também para o tratamento da obesidade, especialmente em pacientes com fatores de risco associados. Hoje, são indicadas para pessoas com IMC igual ou superior a 30, ou acima de 27 quando há comorbidades, como hipertensão e diabetes.

Médica endocrinologista Angela Maria Leal  - (Reprodução/Instagram) Reprodução/Instagram
Médica endocrinologista Angela Maria Leal

A médica faz questão de reforçar que a obesidade não pode ser tratada de forma simplista. “Obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Quando se fala do tratamento, não é só sobre comer menos e se exercitar mais”, explica. Ela pontua que fatores hormonais, emocionais, qualidade do sono e até o nível de estresse interferem diretamente no metabolismo e no comportamento alimentar.

Nesse contexto, o uso das canetas pode ser uma ferramenta eficaz, mas nunca isolada. A especialista destaca que o tratamento precisa envolver mudanças no estilo de vida e acompanhamento contínuo. Sem isso, o risco de reganho de peso é alto, um reflexo de mecanismos biológicos que fazem o corpo tentar retornar ao peso anterior.

“O sucesso do tratamento não é apenas perder peso, mas manter o peso perdido”, afirma Angela. Segundo ela, o organismo reage à perda de peso reduzindo o metabolismo e aumentando a sensação de fome, o que exige estratégia e acompanhamento a longo prazo.

Efeitos colaterais e riscos invisíveis

Apesar da eficácia, o uso dessas medicações não está livre de efeitos adversos. Náuseas, vômitos, diarreia, constipação e desidratação estão entre os mais comuns. Em situações mais graves, podem ocorrer complicações como a pancreatite.

A endocrinologista faz um alerta direto sobre o uso sem supervisão: “O uso indiscriminado dessas medicações é preocupante e pode colocar a vida em risco”. Ela também chama atenção para um problema crescente: a aquisição de medicamentos de procedência desconhecida, muitas vezes vendidos de forma irregular.

Outro ponto crítico é a interrupção precoce do tratamento. Sem acompanhamento, muitos pacientes abandonam o uso após atingir o peso desejado, o que pode levar à recuperação rápida dos quilos perdidos.

A experiência de quem vive da imagem

Se, de um lado, a medicina aponta critérios e limites, do outro, a realidade das redes sociais impõe urgência. O influenciador digital Alysson Tendência conhece bem essa pressão. “Eu trabalho com criação de conteúdo e faço vídeos para a internet, apareço muito na frente das câmeras”, relata. Ele explica que o ganho de peso aconteceu de forma rápida, impulsionado, inclusive, pelo próprio trabalho, que envolve produção de conteúdo sobre alimentação.

Influenciador Alysson Tendência exibindo seu antes e depois - (Arquivo Pessoal) Arquivo Pessoal
Influenciador Alysson Tendência exibindo seu antes e depois

Ao atingir 82 quilos, percebeu que a mudança já impactava sua autoestima e sua imagem profissional. Tentou métodos tradicionais, como dieta e exercícios, mas se frustrou com a lentidão dos resultados. A necessidade de emagrecer em pouco tempo acabou direcionando sua decisão.

Um episódio específico foi determinante: após uma campanha publicitária, ele se sentiu desconfortável com a própria imagem. A partir daí, decidiu buscar uma alternativa mais rápida, mas, diferentemente de muitos, procurou orientação médica antes.

Após avaliação com endocrinologista, iniciou o uso da medicação em doses controladas, com acompanhamento nutricional e exames periódicos. O resultado foi expressivo. “Eu perdi 16 quilos em dois meses”, conta.

Apesar da perda de peso acelerada, o processo não foi isento de դժվարidades. Ele descreve uma rotina marcada por cansaço intenso, dores no corpo, dor de cabeça e indisposição frequente. A redução do apetite foi significativa, a ponto de praticamente eliminar a fome em alguns momentos.

Ainda assim, não pensou em interromper o tratamento. “Em nenhum momento pensei em interromper. O tratamento foi feito com protocolo que atendia minhas necessidades”, afirma. Para ele, o diferencial foi justamente o acompanhamento profissional, que garantiu segurança durante o processo.

Hoje, sua fala muda de tom ao aconselhar o público. “Eu não recomendo para quem não tem um profissional para acompanhar”, diz, destacando que o uso por conta própria pode trazer riscos sérios à saúde.

Alysson também reconhece o papel das redes sociais na sua decisão. Ele admite que a pressão por uma imagem ideal influenciou diretamente sua escolha, além da busca por resultados rápidos, um comportamento cada vez mais comum no ambiente digital.

Entre a necessidade clínica e o apelo estético

A popularização das canetas emagrecedoras, especialmente nos últimos dois anos, levanta um debate importante sobre os limites entre saúde e estética. Para especialistas, o problema não está no medicamento em si, mas na forma como ele tem sido utilizado.

Canetas emagrecedoras: entre a promessa de resultados rápidos e os riscos do uso sem acompanhamento - (Freepik) Freepik
Canetas emagrecedoras: entre a promessa de resultados rápidos e os riscos do uso sem acompanhamento

Angela Maria Leal reforça que nem todo mundo precisa desse tipo de tratamento e que o uso sem indicação pode ser mais prejudicial do que benéfico. Ela explica que existem contraindicações importantes, como em casos de gestação, amamentação e histórico de certas doenças, além da necessidade de avaliação metabólica e hormonal antes de qualquer prescrição.

Outro ponto destacado pela médica é que o tratamento da obesidade é contínuo e dividido em fases: perda de peso, estabilização e manutenção. Em alguns casos, o paciente pode precisar manter doses reduzidas da medicação por tempo prolongado; em outros, é possível suspender, desde que haja acompanhamento.

A longo prazo, hábitos saudáveis continuam sendo determinantes. Estudos mostram que cerca de 90% das pessoas que conseguem manter o peso perdido permanecem fisicamente ativas, um dado que reforça a importância da atividade física na manutenção dos resultados.

Consciência como ponto de partida

Em meio à promessa de resultados rápidos, a mensagem dos especialistas é clara: não existe solução mágica. As canetas emagrecedoras podem ser aliadas importantes no tratamento da obesidade, mas exigem responsabilidade.

A orientação é buscar avaliação médica, manter exames em dia e entender que o processo de emagrecimento vai além da balança. Envolve saúde, qualidade de vida e escolhas sustentáveis.

Em um cenário onde a estética muitas vezes fala mais alto, a informação, como reforça a endocrinologista, ainda é a ferramenta mais poderosa para evitar riscos e promover decisões conscientes.


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Com supervisão de Nathalia Amaral