Você já percebeu que, no Brasil, falar de política parece ter se tornado sinônimo de escolher um lado? Mas política nunca foi sobre isso. Pelo menos, nunca foi apenas sobre isso. Confundi-la com militância, defesa de governos, partidos ou ideologias talvez seja um dos maiores equívocos do debate público. Antes de qualquer disputa eleitoral, política é a forma como uma sociedade organiza o poder, distribui responsabilidades, define prioridades e decide os rumos do país e da vida das pessoas.
Talvez motivado pelo período eleitoral de 2026, nesta semana reli meu livro Para onde caminham as ovelhas – a política no Estado Democrático de Direito. Lançado no final de 2023, ele discute a condução política do Brasil após a Constituição de 1988, seus efeitos sobre a sociedade, a crise do diálogo, a polarização, a fragilidade ética das instituições e a responsabilidade do eleitor, entre outros temas permanentes, atuais e socialmente relevantes.
Sua abordagem não se limita a fatos episódicos da política brasileira. Ao contrário, procura compreender estruturas, comportamentos, distorções institucionais e desafios históricos do Estado Democrático de Direito. Talvez por isso seja um livro que "envelhece" bem. Os governos passam, os escândalos se renovam, os protagonistas mudam (ou, às vezes, permanecem), mas os grandes desafios institucionais, sociais e políticos continuam presentes.
Como dica de leitura (e reflexão) para ilustrar o que falei acima, vale dar uma olhada no estudo What Worries the World, da Ipsos, que monitora, mensalmente, em diversos países as principais preocupações da população. A edição de julho deste ano mostra que, entre os brasileiros, as principais preocupações são: crime e violência, corrupção, saúde, pobreza e desigualdade social, e impostos. Mais importante do que os percentuais é perceber que esses temas permanecem praticamente os mesmos ao longo dos anos, independentemente das mudanças de governo ou do contexto político.
Esses dados nos levam a algumas perguntas: por que tantos problemas persistem? Por que tantas promessas se repetem? E por que a sociedade cobra tão pouco daqueles que escolhe para representá-la?
Essas perguntas ganham ainda mais relevância em um ano eleitoral. Porque uma democracia madura exige cidadãos capazes de compreender que o objetivo da política não é simplesmente escolher um lado da disputa nem enxergar a realidade apenas pelos olhos da militância, da ideologia ou da paixão partidária.
O problema não está em possuir convicções ou uma visão de mundo, mas quando elas substituem a capacidade de pensar, analisar, questionar e dialogar. A ideologia que aliena é aquela que impede o indivíduo de enxergar além das próprias certezas e de reconhecer que a política é, antes de tudo, um instrumento de construção coletiva.
Em uma democracia, votar é apenas o começo. O verdadeiro exercício da cidadania está em acompanhar, fiscalizar, cobrar resultados e participar da vida pública para além do período eleitoral e das paixões por este ou aquele partido ou governo. Quando a política é reduzida a uma arena, uma mera disputa entre torcidas, perdem as instituições, empobrece o debate público e se adiam, mais uma vez, as soluções que o país e a população esperam há décadas.