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Pesquisa não é profecia

Por: Jefferson Campelo - médico

05/10/2026 às 13h54

Passado o primeiro turno das eleições, chega um momento particularmente interessante; aquele em que podemos colocar lado a lado o que mostravam as pesquisas e o que disseram, afinal, as urnas. A comparação recomenda alguma reflexão.

No Rio de Janeiro, às vésperas da eleição para governador, pesquisas apontavam Eduardo Paes à frente de Douglas Ruas. O Datafolha registrava 46% contra 38% dos votos válidos. Considerando o cenário sem Anthony Garotinho, cuja candidatura envolvia uma questão jurídica, a diferença chegava a nove pontos; 49% a 40%.

As urnas contaram outra história. Ruas terminou com pouco mais de 49% e Paes, com cerca de 43%. Não foi apenas uma diferença de alguns pontos. Houve inversão de posições; quem aparecia atrás terminou à frente.

O Paraná oferece outro exemplo, de natureza diferente. Lá, os principais levantamentos identificavam corretamente o candidato que liderava. Mas três pesquisas divulgadas na reta final lhe atribuíam entre 40% e 45% dos votos válidos. Nas urnas, ele ultrapassou os 50% e venceu no primeiro turno. Acertou-se o líder, mas não a dimensão de sua votação, e essa diferença mudou algo essencial; a própria necessidade de um segundo turno.

Diante de casos assim, é tentador concluir simplesmente que as pesquisas erraram. Mas talvez a pergunta mais interessante seja outra: o que significa acertar uma pesquisa eleitoral?

Pesquisa não é previsão do futuro. É uma fotografia de determinado momento, obtida a partir de uma amostra da população e submetida a métodos estatísticos. Tem margem de erro, intervalo de confiança e procura medir algo particularmente instável; a intenção de seres humanos. Pessoas mudam de opinião, decidem nas últimas horas, deixam de votar ou simplesmente se comportam diante da urna de maneira diferente daquela declarada ao entrevistador.

Reconhecer essas limitações, entretanto, não significa que discrepâncias importantes devam ser naturalizadas. Quando um levantamento realizado às portas da eleição indica determinada vantagem e a urna revela o oposto, ou quando pesquisas não conseguem antecipar que uma eleição será decidida no primeiro turno, existe algo a ser estudado e explicado. E essa responsabilidade não pertence apenas aos institutos.

Transformamos as pesquisas em uma espécie de campeonato paralelo. Cada levantamento produz vencedores e derrotados. Dois pontos a mais viram “avanço”; dois a menos, “queda”. Diferenças dentro da própria margem de erro frequentemente recebem manchetes capazes de sugerir movimentos que os números talvez não autorizem.

A imprensa tem responsabilidade nisso. Mas nós, leitores, também temos. Gostamos da segurança dos números. Queremos saber quem está na frente, quem está crescendo e, sobretudo, quem vai ganhar. Talvez essas eleições nos ofereçam uma oportunidade para amadurecer nossa relação com as pesquisas.

Os institutos devem aperfeiçoar seus métodos e explicar seus desvios. A imprensa precisa tratar as incertezas com o mesmo destaque concedido aos percentuais. E nós precisamos evitar duas tentações igualmente cômodas, acreditar cegamente nas pesquisas quando confirmam nossas expectativas ou desacreditá-las por completo quando as urnas as contradizem.

Pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos importantes para compreender a sociedade. Mas instrumento não é oráculo. Pesquisa mede tendências. A urna registra escolhas. E a democracia precisa das duas, mas não devemos confundir uma com a outra. Reconhecer suas diferenças talvez seja a melhor maneira de entender ambas.