Portal O Dia - Notícias do Piauí, Teresina, Brasil e mundo

WhatsApp Facebook x Telegram Messenger LinkedIn E-mail Gmail

Brasil marca posição

Em um mundo crescentemente dividido pela disputa entre Estados Unidos e China, o Brasil não precisa escolher automaticamente um lado. Sua força está justamente na autonomia. Por Jefferson Campelo - médico

14/08/2026 às 08h00

A decisão do Brasil de recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o tarifaço americano vai além da defesa de interesses comerciais. É uma decisão política e diplomática que reafirma uma tradição brasileira com o diálogo, negociação, respeito às regras internacionais e defesa do multilateralismo.

O Brasil poderia responder ao unilateralismo com retaliação imediata. Preferiu marcar posição dentro das instituições. Isso não significa fraqueza, ao contrário, demonstra que é possível defender com firmeza o interesse nacional sem transformar divergências comerciais em confrontos políticos.

Há, entretanto, uma contradição importante. O Brasil recorre à OMC justamente quando a organização atravessa um período de fragilidade e limitada capacidade de ação. Seu sistema de solução de controvérsias enfrenta dificuldades há anos. Quanto maior o unilateralismo das grandes potências, mais necessário se torna o multilateralismo, e mais evidentes ficam as limitações das instituições criadas para protegê-lo.

Por isso, talvez o maior significado da iniciativa brasileira não esteja apenas no resultado jurídico da contestação. Está na mensagem: O Brasil não aceita passivamente que relações comerciais sejam determinadas exclusivamente pela força econômica.

É nesse espaço que o País pode assumir posição de maior destaque internacional.

Em um mundo crescentemente dividido pela disputa entre Estados Unidos e China, o Brasil não precisa escolher automaticamente um lado. Sua força está justamente na autonomia, conversar com Washington, Pequim, Europa e o Sul Global, diversificando mercados e construindo pontes.

A China já percebeu a oportunidade. Pequim manifestou interesse em participar das consultas abertas pelo Brasil na OMC. Não se trata de altruísmo chinês, mas de estratégia. Toda vez que Washington pressiona parceiros por meio de tarifas e medidas unilaterais, cria espaços que a China procura ocupar.

Esse talvez seja um dos efeitos mais contraditórios da política comercial americana. Ao tentar proteger seus próprios interesses e conter a expansão chinesa, os Estados Unidos podem acabar estimulando países e empresas a procurar novos mercados, parceiros e cadeias produtivas, muitas vezes justamente na China.

O Brasil precisa compreender essa transformação sem trocar uma dependência por outra. A resposta deve ser diversificação, autonomia e pragmatismo. Com sua dimensão econômica, potência agrícola e energética, recursos naturais, minerais estratégicos e protagonismo no Sul Global, o Brasil não pode ser mero espectador da reorganização da ordem mundial.

Recorrer à OMC é, portanto, mais do que contestar tarifas. É marcar posição. Dialogar não significa ceder. Negociar não significa demonstrar fraqueza. E defender o multilateralismo não significa abrir mão da defesa firme dos interesses nacionais.

Em um mundo no qual as grandes potências voltam a testar os limites de sua força, o Brasil tem a oportunidade de exercer aquilo que historicamente fez melhor, ou seja, construir pontes sem abrir mão de sua autonomia. E, ao levar essa disputa à OMC, deixa claro que pretende ocupar esse espaço.

imagem gerada por IA